A grande novidade da semana não foi a subida do PS na sondagens apesar de, nem as tricas assopeiradas dos primos banqueiros.
A verdadeira notícia da semana foi a informação oficial, e o anúncio feito pelo próprio, de que o actual PM é santo, embora ainda não canonizado.
No debate quinzenal da pretérita 6ª feira, na A.R., o Dr. Passos Coelho, ilustríssimo Primeiro-Ministro de Portugal, dirigindo-se aos deputados, e em resposta a uma investida de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, largou esta diatribe singular, uma preciosidade.
“Nem eu faço favores a ninguém, nem peço favores a ninguém. Nunca o fiz na minha vida.”
Alguém de bom senso e no seu perfeito juízo acredita no que disse?
Bem sei que o Dr. Passos Coelho não é dono de especiais qualidades tribunícias e que é useiro e vezeiro em não ser capaz de encontrar as palavras que melhor traduzam o que lhe vai na alma, mas desta vez excedeu-se e a língua fugiu-lhe para o moralismo azeiteiro e a frase pindérica.
Até os mais distraídos, mesmo os mais ingratos, sabem que o Dr. Passos é um egrégio cidadão que pertence a uma ínclita geração, totalmente incapaz de esquemas, completamente avessa a expedientes, endemicamente alérgica a golpadas, mas daí até ser tão imaculado e virtuoso vai um longo e penoso caminho.
Mas será possível que nem um favorzito discreto, um jeito escondido, uma mercê simpática a um amigalhaço da juventude, a um cúmplice de folguedos, a um companheiro de boémia, a um correlegionário de partido?
Nem na Tecnoforma, de que foi administrador e consultor, que ficou com a parte de leão de um programa de formação profissional, destinado a funcionários das autarquias, financiado por fundos europeus, programa tutelado por Miguel Relvas, sua alma gémea e secretário de estado da Administração Local do governo Durão Barroso?
Custa a crer tamanha resistência a um favorzito, ninguém acredita em tanta virgindade, que é excêntrica na sua idade, embora, permita-me a linguagem chã, o sr. seja ainda um rapaz novo.
O Dr. Passos Coelho não existe.
Mas se for verdade o que invoca, e não tenho razões factuais para pensar o contrário, só suposições, o sr. é um homem com um coração de pedra e emoções de aço, um homem insensível, indiferente, incomum, um exemplar que encarna os atributos mais invejados, uma divindade ungida pelos santos óleos da purificação, um santo.
Permita-me que lhe diga, sr. PM, mas ninguém, neste mundo, para mais neste mundo lusitano, com as influências romanas que se lhe conhecem, da língua à mania das grandezas, resiste a um apelo de uma graça, ao chamamento de uma influência e todos somos sensíveis a uma pedinchice e estamos disponíveis para amparar,uma cunha.
O sr., pelos vistos, degenerou da raça.
Só estátuas de cera, figuras de plástico, zumbis ou aparentados, porque não têm sangue, são tão puros quanto o sr. diz ser.
Deixe-me que lhe diga, Dr. Passos, mas eu não acredito, nem eu nem a maioria dos portugueses, que o sr. seja tão blindado, tão imune a estas coisas mundanas do pedido, do favor, da cunha, do jeito.
Todos nós, às escuras ou às claras, já pedimos algo a alguém, quanto mais não seja para um amigo ou familiar, às vezes contrafeitos ou rendidos à evidência, umas vezes, por desenrascanço, a grande qualidade nacional, outras porque nada se perde por atirar o barro à parede, outras ainda porque é o único caminho para se alcançar alguma coisa, além do mais, porque o sr. não há-de fugir a essa regra bem colada à pele do tuga, e o sr. PM é um tuga, apesar de todas as malfeitorias que, displicentemente, lhes tem feito, aos tugas.
Não tendo nenhuma afinidade consigo, não tendo grande conceito sobre a sua governação nem sobre os seus ajudantes e não o conhecendo pessoalmente, sempre lhe digo.
Deixe-se disso, sr. PM!
Esse discurso fica-lhe mal, é piroso, foleiro e não convence ninguém.
Já são raras as crianças que acreditam no Pai Natal, e os adultos nem se fala.
Até já.
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