REPORTAGEM
Ucrânia: um país de soldados feridos
JOÃO RUELA RIBEIRO (em Kiev, Ucrânia)
05/09/2016 - 08:23
Taras e Tatiana são vítimas da guerra na Ucrânia. Ele combateu na linha da frente, ela fugiu com a família. Contam como vivem há dois anos um conflito ainda longe de uma solução.
Na guerra também há bons momentos. Daquilo que Taras sente mais falta dos tempos na frente de combate é da “vida simples”. “É uma vida perigosa, mas simples”, diz-nos o veterano de 26 anos ao final da tarde num pequeno jardim em Kiev. O conflito que grassa no Leste da Ucrânia há mais de dois anos ia-lhe tirando a vida, mas o regresso à vida civil foi igualmente doloroso. Morreram quase dez mil pessoas na mais recente das guerras em solo europeu — e continuam a morrer — mas há também um preço alto a pagar para quem sobrevive. O custo humano do conflito no Donbass mede-se também nos mais de 1,6 milhões de deslocados internos e nos cerca de 1,4 milhões de refugiados na Rússia e noutros países europeus.
Há já dois anos que se tenta encontrar a paz no Leste da Ucrânia. A primeira versão dos Acordos de Minsk foi assinada a 5 de Setembro de 2014, mas o seu falhanço levou a uma nova cimeira e a um novo documento, assinado cinco meses mais tarde. Entretanto, a intensidade do conflito desceu, mas persistem os receios de que a mínima perturbação abra uma nova escalada.
O conflito limita-se hoje a uma troca esporádica de tiros de artilharia, sem qualquer investida real de tomada de território. Desde Fevereiro de 2015, dias depois da assinatura de Minsk 2, quando a cidade de Debaltseve passou para controlo das forças separatistas, que não há qualquer ofensiva de grande escala. Mas as provocações na linha da frente persistem de parte a parte, documentadas dentro do possível pela equipa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Na sexta-feira, foi negociado um cessar-fogo para coincidir com o período de início de aulas, que durante o fim-de-semana parecia estar a ser cumprido.
A situação está num ponto morno, em que não se pode falar de uma guerra aberta, mas também é abusivo dizer que existe um cessar-fogo generalizado. Entre Junho e Julho morreram pelo menos 20 civis e 122 ficaram feridos, de acordo com a ONU. No início de Agosto, a Rússia deteve um grupo de alegados agentes ucranianos que planeavam atacar infraestruturas na Crimeia, território anexado em Março de 2014 pela Rússia.
Em mais de dois anos e meio de guerra morreram mais de 9500 pessoas e há cerca de 22 mil feridos. Um deles é Taras Kovalyk, que ainda hoje se recorda da bala de metralhadora que lhe atingiu a perna e deixou o nervo afectado, dificultando alguns movimentos. Foi em Junho de 2014, um mês depois de se ter juntado ao Batalhão Aidar — um dos grupos de voluntários que apoiavam o Exército ucranianoe que entretanto foram sendo integrados nas forças regulares — em Lugansk.
"Continuar a revolução"
Para Taras, tudo começou muito perto do local onde conversa com o PÚBLICO, na Praça da Independência. Foi ali que durante vários meses no Inverno de 2013 e no início de 2014, milhares de pessoas se concentraram para pedir a demissão do Presidente Viktor Ianukovich e o fim da cultura de corrupção que diziam destruir o país. Taras tinha terminado um curso de cozinha e trabalhava “no restaurante do melhor hotel de Kiev”, como nos diz. Começou a participar nos protestos na Maidan e passou a liderar uma das unidades de “auto-defesa”, os grupos na linha da frente das manifestações mais violentas.
Ao fim de vários meses e de violentos confrontos com a polícia de choque, Ianukovich abandonou o país. Um sentimento de vitória invadiu os manifestantes da Maidan, mas apenas por pouco tempo. Em poucos dias, forças militares russas tomaram de assalto os principais edifícios governamentais da Crimeia e a península no Mar Negro foi formalmente — em Kiev diz-se ilegalmente — anexada pela Rússia. O mesmo se passou quase em simultâneo em várias cidades no Leste da Ucrânia, mas aí as novas autoridades em Kiev ripostaram, lançando uma “operação anti-terrorista” contra os grupos separatistas pró-russos. Em poucos dias estalava a guerra e Taras não hesitou.
“Era a continuação da nossa revolução. Fomos bem-sucedidos de início e tínhamos agora de parar a agressão russa”, conta. Por ter tido problemas de saúde na infância e, diz-nos, por haver um responsável do Exército que não gostava dele, Taras não se pôde alistar nas forças regulares. Sobravam os batalhões de voluntários, cujo papel na fase mais activa do conflito foi preponderante. Em Maio estava na linha da frente, mas poucas semanas depois foi ferido e teve de regressar a Kiev. Olhando para trás, admite que teve sorte tendo em conta as circunstâncias. “Tive de esperar quase dois dias pelo helicóptero para me levar para o hospital de Kharkov, e só então é que renovaram a minha reserva de sangue”, explica.
Passou os cinco meses seguintes em Kiev a recuperar, mas sempre com a vontade de regressar ao Leste. Diz ter sido “bastante rígido” em relação à sua decisão de voltar ao combate, mesmo perante a preocupação da família e da namorada — diziam-lhe que já tinha cumprido a sua parte. “Decidi voltar no momento em que um dos meus amigos foi morto na linha da frente e voltei, mesmo com a minha perna magoada”, conta Taras. Bastava usar calças constantemente para esconder a cicatriz e nunca ninguém desconfiou, assegura. Para além disso, ele era um dos poucos elementos com alguma experiência de combate e, em pouco tempo, passou a liderar uma unidade de artilharia leve. Desta vez, permaneceu nove meses na guerra.
Dentro de si, houve sempre qualquer coisa que lhe dizia que a sua vida iria passar por um campo de batalha. A partir de certa altura na sua juventude, começou a fazer perguntas aos avós, que tinham feito parte de grupos nacionalistas ucranianos durante a II Guerra Mundial e lutaram contra o Exército Vermelho. Também teve um bisavô que combateu pelos soviéticos. “Temos muitas histórias sobre guerra na minha família”, acaba por concluir. Na organização de escuteiros em que participou durante a infância diz ter tido algumas noções básicas de sobrevivência e de treino militar.
Foi durante um desses acampamentos, no Verão de 2008, que Taras percebeu que algo poderia acontecer em breve. O mundo acordava surpreendido pelos tanques russos que entravam na Geórgiapara apoiar as forças separatistas da Ossétia do Sul. O conflito terminou com a ocupação militar russa de duas regiões do país vizinho e o jovem percebeu que a “Ucrânia podia ser o seguinte”. “Nesse momento percebi que os exercícios que estava a fazer não eram apenas diversão.”
Taras é hoje um homem tranquilo, que vai deixando vislumbrar alguns sorrisos nervosos durante a conversa. O seu discurso consiste numa mistura incomum entre a linguagem marcial e o vocabulário próprio da psicologia, aprendido durante as sessões de terapia. Fala muitas vezes da realidade a “preto e branco” da guerra e de como é importante aprender a lidar com as “novas capacidades” apreendidas durante os tempos de combate.
Sem comentários:
Enviar um comentário