sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sobre Israel...( Recordem sempre, amigos, que estes assuntos devem ser lidos, com imparcialidade!


CAFÉ CENTRAL
12/8 às 13:08 ·


ISRAEL: RACISMO, ÓDIO E DESPREZO PELA VIDA
Por Gideon Levy

Deixem de viver em negação. Israel é um Estado perverso. Depois de falar do nacionalismo e do racismo, o ódio e o desprezo pela vida dos árabes, o culto da segurança e o vício da ocupação, a vitimização e o messianismo, ainda assim há que juntar outro elemento, sem o qual não se pode explicar o comportamento do regime de ocupação israelita: a maldade. A maldade pura. A maldade sádica. O mal pelo mal. Às vezes, é a única explicação possível.

Eva Illouz descreveu os seus sinais (“O mal agora”, edição hebraica de Haaretz, 30/7/16). O seu ensaio, que questiona a ideia da banalidade do mal, considera o grupo nacional como a fonte do mal. Usando o conceito do filósofo Ludwig Wittgenstein, ela encontra uma “parecença familiar” entre a ocupação israelita e os regimes perversos da história. Esta semelhança não significa que Israel seja nazi, nem fascista. Mas é membro da mesma terrível família: a família dos Estados perversos. É uma análise brilhante e deprimente.

A maldade que Illouz atribui a Israel não é banal; não pode ocorrer em qualquer parte, e tem raízes políticas e sociais que estão profundamente enraizadas na sociedade israelita. Assim, Illouz une-se a Zeev Sternhell, que advertiu no seu impressionante e contundente ensaio sobre o terreno fértil no qual está crescendo o fascismo em Israel (O nascimento do fascismo, edição hebraica de Haaretz, 7/7/16).

Mas com estas análises, também há que oferecer uma breve história da maldade. Devemos apresentar os casos que se combinam para traçar uma imagem ampla e horrenda: a imagem da crueldade de Israel nos territórios ocupados, a fim de fazer frente a quem nega essa maldade. Não se trata das pessoas – por exemplo, o sargento Elor Azaria, que está a ser julgado por ter executado um agressor palestino quando este estava ferido e diminuído em Hebron – mas sim o comportamento do sistema e o regime de ocupação que prova a maldade. De facto, a continuação da ocupação demonstra a perversão. Illouz, Sternhell e outros oferecem análises discutíveis sobre as suas origens, mas seja o que for, a maldade já não se pode negar.

Um caso vale mais que mil testemunhos: o caso de Bilal Kayed. Um homem jovem que cumpriu uma pena de prisão de 14 anos e meio – a totalidade da sua pena – sem uma só saída, sem que lhe fosse permitido sequer dizer adeus por telefone ao seu pai moribundo – um claro sinal de maldade.

Faz umas seis semanas, Kayed estava a preparar-se para ser libertado. Um representante do serviço secreto Shin Bet – uma das maiores agências do mal em Israel – mostrou-lhe uma fotografia da casa que a sua família havia construído para ele, com o propósito de atiçar ainda mais as suas expectativas da iminente libertação. E então, quando a família o esperava com impaciência na encruzilhada e Kayed is ficando cada vez mais ansioso na sua cela, foi informado que tinha sido colocado sob detenção administrativa por mais seis meses, sem julgamento e sem explicações.

Desde então, Kayed está em greve de fome. Está algemado na cama. À sua família não é permitido vê-lo. Os guardas da prisão nunca saem da sua cela e as luzes não se apagam nem por um momento. Maldade.

Só a maldade pode explicar a conduta do Estado com Kayed. Só um Estado maligno actua desta maneira. O anúncio arbitrário, no último momento, de uma nova detenção sem motivo algum é um abuso, e a forma como tem sido tratado desde então também é um abuso.

Só a maldade pode explicar a prisão na semana passada de outro jovem, Hiran Jaradat, cujo irmão Arif (que sofria de síndrome de Down) foi assassinado em Junho, e cujo pai morreu há dois dias. Jaradat está detido por “incitação no Facebook”, e não lhe foi permitido assistir ao funeral do seu pai. Maldade pura.

A continuação da prisão da poetisa Darin Tatur: maldade. A destruição da pequena piscina que os habitantes de Jirbet Tana, uma pequena aldeia no norte da Cisjordânia, tinham construído para os seus filhos: maldade. O confisco dos depósitos de água de uma comunidade de pastores no vale do Jordão, em pleno calor de Julho: maldade.

Uma grande quantidade de acções do regime que decide o destino de pessoas, famílias, comunidades, povos e cidades não se pode explicar sem maldade. A lista é tão grande como a ocupação. A extorsão de pessoas doentes em Gaza para que se tornem colaboradoras, o cerco imposto a cidades e povos inteiros durante semanas, o bloqueio de Gaza, a demolição de casas: tudo isto é produto da maldade.

Banal ou não, deve-se reconhecer a sua existência; e deve ser reconhecida como um dos valores mais entranhados. Sim, em Israel há um regime malvado em acção, e portanto é um Estado perverso.

Por Gideon Levy, Haaretz
Fonte: ContraInfo

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