segunda-feira, 22 de agosto de 2016

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"Oito livros de Donald Trump depois e continuo sem chegar a grandes conclusões"


CARLOS LOZADA

21/08/2016 - 08:38


O crítico do Washington Post para a não-ficção passou uma semana a ler as obras do candidato republicano à presidência dos EUA. Chegou a poucas conclusões além desta: um homem monotamente narcísico.





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Passei a última semana a ler a colectânea de livros escritos por Donald J. Trump e garanto que está longe daquilo que imaginava ser uma experiência literária. Tinha a esperança de chegar a uma teoria sobre a essência do homem – ou de, pelo menos, descortinar um método no mundo “trumpiano”. Li oito livros – três de memórias, três de auto-ajuda para se ser bem sucedido nos negócios e dois com pendor político, todos publicados entre 1987 e 2001. Cheguei à conclusão... bem, como resumir tudo numa só palavra? Haverá porventura uma expressão que reúna sentirmo-nos revoltados, divertidos, enganados, mas ainda assim vermos alguém que merece o nosso respeito? Tudo isto nos passa pela cabeça quando o lemos, e experimentamos cada sentimento à vez, ou, na maior parte do tempo, todos em simultâneo. Digamos que se fica com uma bela bebedeira!

Ao longo de mais de 2000 páginas encontrei um mundo onde o insulto é banalizado como uma conversa, onde a fanfarronice equivale a respirar, onde a contradição e a repetição são lei, onde a vingança e a insegurança irrompem por todos os poros.

Em qualquer outra situação, idiossincrasias como estas acabariam por interferir com a história propriamente dita. Com Trump, SÃO a história. Sobra muito pouco além disto. Escreva Trump sobre os seus negócios imobiliários, o seu show televisivo ou o país, tudo cheira a desculpa. A única coisa que o fez correr na vida, diria mesmo aquilo em que verdadeiramente apostou – e que o leva agora a ambicionar um lugar naquele tão cobiçado pedacinho de propriedade que é o nr. 1600 da Avenida Pennsylvania – é Ele próprio.

Em Junho, quando se apresentou como candidato às presidenciais americanas, disse: “O que precisamos é de um líder que tenha escrito The Art of the Deal.” É uma frase que passou a adoptar em muitas das suas aparições públicas. Trump tinha 41 anos quando escreveu The Art of the Deal, um livro no qual nos explica o poder da psicologia e do embuste – coisas que ele prefere apelidar de “desfaçatez” e “verdade sobredimensionada”, referindo-se ao início da sua carreira no imobiliário.

É que, antes de ser reconhecido como uma marca, Trump teve de convencer as pessoas de que era um valor seguro. Coisas de somenos que foram acontecendo aqui e ali. Por exemplo: pediu ao arquitecto com quem estava a trabalhar no projecto de um novo hotel que embelezasse as maquetes, de modo a parecer que estavam a gastar mundos e fundos e assim tornar a proposta mais apelativa para investidores. Quando os casinos de Atlantic City estavam a ser construídos, no dia em que se soube que a administração iria visitar a obra, Trump pôs os bulldozzers a andar dum lado ao outro do estaleiro para mostrar que tudo estava mais adiantado do que na realidade estava. Nessa altura, Trump alertou mesmo o capataz: “Se for necessário, põe as gruas a apanhar entulho de um lado e a depositá-lo no outro.” “Jogo com a capacidade de fantasia que as pessoas naturalmente têm”, explica Trump. “É uma maneira inocente de exagerar a realidade, e sobretudo uma muita eficaz forma de autopromoção.” Essencial é que Trump consiga uma certa “aura” em tudo o que toca, dos negócios, às ideias ou ao próprio – “aura” é, aliás, uma expressão que usa e de que abusa nos livros.

São muitas as piadas que correm por Trump deixar sempre o seu nome em edifícios, barcos, aviões, empresas. “Diria que é sobretudo uma muito inteligente estratégia de marketing”, escreve. “Basta um edifício ser reconhecido como Edifício Trump e tem logo rendas mais elevadas.” Mas aquilo de que estamos aqui a falar é muito maior do que apenas uma imagem de marca. Ao dar o seu nome, Trump trata o edifício (ou o que quer que seja) como um ser vivo, um amigo, uma amante até. “Era ainda um homem novo quando comecei a minha relação com o número 40 de Wall Street”, escreveu no The Art of the Comeback, que publicou em 1997. “Desde o momento em que lhe pus os olhos em cima, fiquei fascinado pela sua beleza e esplendor.” Sobre o seu clube privado de 10 mil m2 em Palm Beach, na Florida, escreveu: “O meu amor por Mar-a-Lago começou em 1985.” Ou ainda: “A Trump Tower, como um bom amigo, estava lá quando mais precisei dela.”

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