sexta-feira, 19 de agosto de 2016

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Uma série para “não deixar que a PIDE fosse apenas um nome”


JOANA AMARAL CARDOSO

19/08/2016 - 08:50


Entrevista a Jacinto Godinho, jornalista e autor da série documental A PIDE Antes da PIDE, que procura resgatar os rostos dos resistentes e dos agentes que fizeram as polícias políticas entre 1926 e 1945 - as que vieram antes da PIDE.






Jacinto Godinho, fotografado em 2007 quando venceu o Prémio Gazeta de jornalismo
ENRIC VIVES-RUBIO








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A PIDE Antes da PIDE foi muitas coisas. Mas de designação para designação ou de líder para líder, foi sempre a polícia política do Estado Novo, um dos sinónimos da repressão e da cultura da ditadura portuguesa. Nunca foi, porém, um conjunto de nomes e de rostos bem gravados na memória colectiva. A PIDE Antes da PIDE é agora uma série da RTP2, candidata a ser uma das mais relevantes produções portuguesas documentais de 2016, realizada por Jacinto Godinho. Jornalista, professor universitário e investigador, vive desde 2008 o projecto de fazer uma História da PIDE, versão audiovisual, e quer contar histórias da polícia política com gente dentro. E fazer a ponte entre a investigação científica e a divulgação para o grande público

Neste projecto, com coordenação científica de Irene Pimentel, faz algumas descobertas e desenterra imagens nunca antes interpretadas. Revela que Agostinho Lourenço, fundador e director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), antecessora da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), tinha ligações à Maçonaria; mostra fotografias inéditas de presos dentro das celas do Aljube e novas imagens do primeiro campo de concentração em Cabo Verde, construído em 1931 no Tarrafal. Fala da sensação de ter “cinco camiões TIR de informação na cabeça” depois de entrevistar o máximo de intervenientes possível, com a urgência do tempo e das idades. Viu centenas de imagens, rostos que aprendeu a conhecer, que depois identificou noutros contextos.

“Uma série magnífica", disse o historiador Fernando Rosas ao Jornal de Letras em Junho, teve uma média de 100 mil espectadores na sua primeira exibição, entre 28 de Maio e 24 de Julho na RTP2. Essa audiência, diz Teresa Paixão, directora de programas da 2, “só foi abalada quando a exibição coincidiu, no dia 10 de Julho, com a transmissão da final do Euro”. Estreada no 90.º aniversário do golpe militar de Gomes da Costa, foca-se no período 1926-1945 e já foi exibida também na RTP3 e na RTP Internacional (o último episódio passa dia 26 de Agosto), estando prevista a sua repetição “mais tarde” na 2, confirmou Teresa Paixão; “é uma hipótese provável” que chegue também à RTP1, diz o seu director de programação Daniel Deusdado, salvaguardando que “este é um programa do ADN da RTP2” – e do seu orçamento, 290 mil euros para seis episódios que se tornariam 11. Os nove actuais e os dois de Os Últimos Dias da PIDE, estreados a 25 de Abril de 2015.

Os últimos oito anos tiveram percalços – além do ordálio da pesquisa em alguns arquivos, Godinho viu a equipa encolher pelas saídas precipitados pelos planos de rescisões voluntárias da RTP com a produção já em curso. Os Últimos Dias da PIDE surgiram nesse momento, pedidos pela RTP2 para o 41.º aniversário da revolução. As entrevistas e a pesquisa para grande parte do projecto geral de contar toda a história da polícia política já estavam feitas e “Os Últimos Dias da PIDE seriam dois dos episódios da série da História da PIDE”, explica o jornalista; "devido às circunstâncias, acabei por estrear o fim da série” primeiro, ri. Ou qualquer coisa como isso – “obviamente há o pós-25 de Abril, as comissões de extinção, o julgamento dos PIDEs, que ainda fará parte de um outro episódio”.

As imagens vêm do Arquivo RTP (o seu valor não está incluído no orçamento), mas também do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (cujos direitos de exibição condicionam o streaming de alguns episódios no RTP Play, por exemplo), além do Arquivo da PIDE-DGS da Torre do Tombo, Museu da Polícia Judiciária, Biblioteca Nacional e Arquivo Histórico-Social, na Fundação Mário Soares e a estreia da pesquisa, no Arquivo Histórico-Militar, dos processos dos agentes da PIDE julgados no pós-25 de Abril. “A primeira vez que foram consultados oficialmente foi como pedido que fiz para a série”, diz o jornalista da RTP, que ainda aguarda 70% dos processos pedidos, alguns dos quais serão dos “mais importantes” da sua pesquisa.

Agora, espera que a estação continue a “achar que é serviço público apostar neste tipo de programas e nesta série, algo que por paradoxal que pareça nem sempre é um discurso que colhe na RTP”, para explorar o período 1945-74 da PIDE e dar uso ao muito material que já coligiu. Para “cumprir o dever de memória” num país “original” na forma como absorveu discretamente, diz, a maioria daqueles que foram a PIDE.

Agostinho Lourenço é uma das figuras que mais se destaca na série e no que sobre ela se tem dito. Detectou a ligação do fundador da PVDE à Maçonaria, e que a sua iniciação foi subscrita pelo Nobel português Egas Moniz. Qual é a importância, para a narrativa sobre este período, desta descoberta?
Senti-me, em muitos casos, a resgatar um pouco à História aqueles episódios que o jornalismo não pôde ou não quis contar, por causa da censura ou porque estava envolvido no próprio Estado Novo. Achei interessante, à medida que desenvolvi a série, ver a importância que figuras não muito conhecidas tiveram no regime. Talvez a mais inquietante tenha sido mesmo Agostinho Lourenço, que esteve 25 anos à frente da polícia política, que esteve lá quando o regime se estruturou. E que quando saiu da polícia política foi o único dirigente português da Interpol.

Em grande parte, um dos problemas da forma como olhamos para o Estado Novo é o de o olharmos sempre a partir da figura de Salazar, o "Salazarcentrismo". A polícia política foi construída por militares que vieram da I República, da direita republicana, ligados ao sidonismo, e que depois se constituíram como os tenentes da ditadura. Tiveram sempre muita influência, uma rede que não passa só por linhas ideológicas, mas também por redes de amizades e clientelares. Ter percebido que o Agostinho Lourenço, numa determinada fase, tinha sido iniciado na Maçonaria, e que Egas Moniz, que pertencia à direita republicana, mas era um liberal, também estava ligado a esse processo, fez-me pensar em como as linhas com que se teceu o Estado Novo são mais complexas.

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