sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SOBREOS MIGRANTES, NO "DN"


O que trazem na mala os sírios que atravessam o Mediterrâneo?


por DN.ptHoje3 comentários


Fotografia © REUTERS/Alkis Konstantinidis


Passaporte, limões, tâmaras, colete salva-vidas, analgésicos. Conheça o que obriga os refugiados a fugir - e o que trazem consigo.


Abu Jana tem 39 anos e leva pouco na mochila para a viagem de barco que espera que o leve à Europa. Cigarros, colete salva-vidas, um saco de plástico onde guardar os seus documentos para os proteger da água. A mulher recomendou-lhe que levasse limões, cuja acidez pode ajudar a combater o enjoo, e traz um pacote de tâmaras para ter que comer durante a travessia.

Transporta também, destaca o jornalista do Guardian que o entrevistou para uma reportagem, uma caneta de laser verde. É para ser visto por barcos em caso de naufrágio, possibilidade que não o assusta. "Talvez alguém veja a luz e nos ajude", contou Abu Jana ao jornal britânico.

Abu Jana passou a sua vida no exército sírio, até presenciar um massacre ordenado pelo governo no princípio da guerra civil no país, em 2011. Desertou, e por isso não pode obter um passaporte sírio, nem para si nem para as duas filhas menores, o que o obriga a ficar no Cairo, para onde fugiu. É por isso que está determinado a fazer a travessia de barco e não é a perspetiva de se afogar que o detém.

"Mesmo que os europeus decidissem afundar os barcos dos migrantes, continuaria a haver pessoas a partir de barco", explicou o refugiado ao Guardian. "Os sírios já se consideram mortos. Talvez não fisicamente, mas psicologicamente um sírio é um ser humano destruído, chegou ao ponto da morte. Por isso acho que mesmo que eles decidissem bombardear os barcos dos migrantes, isso não ia mudar as decisões das pessoas de partir". Vai de colete salva-vidas e caneta laser verde para o mar, em parte por si e em parte pelas filhas, que não podem ter uma vida no Egito sem identificação.

A reportagem do Guardian no Cairo, que pode ser vista na íntegra no site do jornal britânico, interpelou outros refugiados sírios que esperavam para partir para uma nova vida na Europa, para saber o que levariam consigo na travessia. Um ainda adolescente, um que fugiu da Síria por ter sido torturado durante 21 dias, outro que parte sem a família na esperança de os voltar a ver quando conseguir asilo na Europa. Todos levam colete salva-vidas. "Claro que tenho medo, mas não tenho outra escolha", disse ao jornal o refugiado Houthayfa. "Não há outra saída que não o mar".

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