Comissão Europeia considera adesão da Grécia ao euro “irrevogável”
JOÃO MANUEL ROCHA
05/01/2015 - 22:29
Liderança alemã terá feito saber que considera “possível gerir” saída da Grécia. Comissão Europeia pôs água na fervura. Sondagem confirma vantagem do Syriza e mostra que esmagadora maioria dos gregos quer o país no euro “a todo custo”.
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Grécia: o que quer o Syriza?
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O cenário de uma vitória do Syriza, que promete o princípio do fim da austeridade na Grécia, mantém em nervosismo as lideranças europeias - que não resistem às tentativas de pressão - e os mercados financeiros. As principais bolsas registaram quedas nesta segunda-feira, apesar de uma declaração da Comissão Europeia que veio dizer que a adesão da Grécia ao euro é “irrevogável”.
A “pertença ao euro é irrevogável”, disse a porta-voz da Comissão Annika Breidthard, na resposta a uma questão sobre a possível saída da Grécia da moeda única, em que invocou o Tratado de Lisboa, mais concretamente o parágrafo 3 do artigo 140.º. A passagem mencionada refere-se à adesão ao euro. E não prevê qualquer mecanismo de saída.
“Não vamos entrar em especulações e em cenários que possam ser interpretados num contexto que não se coloca”, acrescentou, no entanto, outra porta-voz, Margaritis Schinas, citada também pela AFP.
As especulações, e o espectro de uma saída da Grécia do euro, voltaram depois de uma notícia não desmentida da revista Der Spiegel, encarada como uma pressão sobre os eleitores gregos e que teve reflexos negativos no euro e nos mercados bolsistas europeus, com perdas mais acentuadas em Atenas, que esta segunda-feira caiu 5,63%.
A notícia, de sábado, citava “fontes próximas do governo” alemão segundo as quais Angela Merkel via como “quase inevitável” uma saída da Grécia, no caso de um governo do Syriza “abandonar a linha de rigor orçamental e deixar de pagar as dívidas”. A edição online da revista acrescenta que a chanceler pensa que a saída seria “possível de gerir”. “O risco de contágio a outros países é limitado, porque Portugal e a Irlanda estão reabilitados”, segundo as mesmas fontes.
Mas essa não é, por exemplo, a opinião de Peter Bofinger, conselheiro económico do governo alemão, que alertou para o risco de uma "Grexit" – saída da Grécia do euro. “Haveria muitos riscos para a estabilidade da zona euro”, disse ao diário Die Welt. “Deixaria o génio sair da garrafa e seria difícil controlar a situação.”
A imprensa alemã não hesitou em considerar que Merkel e o seu ministro das Finanças, Wolfgang Schauble, estão a tentar pressionar os eleitores gregos e o próprio Syriza, que lidera as intenções de voto, com uma vantagem de 3,1% sobre a Nova Democracia, o partido conservador do primeiro-ministro cessante, Antonis Samaras. O que não é novo em si. Logo que se confirmou a antecipação das eleições, Schauble tinha dito que, na Grécia, “as difíceis reformas produziram frutos e não têm alternativa”.
O Die Welt, próximo dos democratas-cristãos de Merkel, escreveu que “o cenário de ameaça" transmitida pela notícia da Spiegel é um envolvimento na campanha grega “extremamente arriscado" e que "é um erro” que pode contribuir para ajudar o Syriza a chegar ao governo e levar a uma corrida aos bancos.
No seio da coligação governamental alemã surgiram vozes de reprovação. O vice-chanceler e ministro da Economia, Sigmar Gabriel, líder dos sociais-democratas, parceiros do executivo Merkel, disse que “o objectivo do governo alemão, da União Europeia e do governo de Atenas é manter a Grécia no euro” e que “não houve e não há planos para o contrário”.
Na resposta oficial aos pedidos de esclarecimento que se seguiram à notícia da Spiegel um porta-voz do governo alemão não confirmou nem desmentiu nada. “A Grécia cumpriu as suas obrigações no passado. O governo alemão parte do princípio de que a Grécia vai continuar, no futuro, a cumprir as obrigações para com a troika”, disse apenas, citado pela AFP.
A dúvida que sobra é se o artigo foi apenas uma forma de pressão sobre a Grécia ou se Merkel considera efectivamente o cenário de uma "Grexit".
Hollande lembra compromissos
Mas não é só a Alemanha que tem feito pressões mais ou menos assumidas e que já levaram o Syriza a falar de uma “operação de terror”. Mais directo, o Presidente checo, Milos Zeman, afirmou numa entrevista que a Grécia deveria sair do euro.
Sem querer comentar a posição atribuída a Merkel, o Presidente francês, François Hollande, afirmou que “os gregos são livres de decidir o seu destino”, mas sublinhou que os compromissos assumidos no seio da União Europeia devem ser respeitados. “Quanto à pertença da Grécia à zona euro, é a Grécia que tem de decidir”, declarou, numa entrevista à rádio France Inter.
Apesar das declarações feitas em Bruxelas pelas porta-vozes, a Comissão Europeia tem deixado claras, nas últimas semanas, as suas preferências sobre o que está em jogo na Grécia. O presidente, Jean-Claude Juncker, já tinha dito que prefere ver “caras conhecidas” no novo governo de Atenas e não “forças radicais”. E o comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, apelou aos eleitores, logo no dia em que foi confirmada a realização de legislativas antecipadas, para apoiarem reformas “favoráveis ao crescimento”.
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