segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

DE "Público", em Paris...

REPORTAGEM


“Se hoje ficasse em casa, quando é que poderia voltar a sair?”


SOFIA LORENA (em Paris)

11/01/2015 - 23:18


Famílias, jovens, grupos de amigos de todas as idades, franceses oriundos de todas as partes. Trouxeram cartazes a lembrar as vítimas e a liberdade de expressão. Depois de dias “angustiantes, traumatizantes”, precisaram de “estar juntos”.





AFP PHOTO / KENZO TRIBOUILLARD































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Alice veio para França aos 17 anos e já tem 51. “Nunca me senti tão francesa como hoje. Acho que nunca gostei tanto da França”, diz esta empregada de limpeza que marchou da praça da República até à da Nação com amigos portugueses vindos de Marne, um dos departamentos que circundam Paris. “Depois destes dias, é muito importante sentir este calor. É uma espécie de aquecedor, estávamos todos a precisar disto.”

O grupo de amigos fala durante uma paragem a meio da avenida Voltaire, uns 3 quilómetros que este domingo centenas e centenas de milhares de pessoas demoraram horas a percorrer. Perto de um milhão e meio desfilou em Paris (em toda a França terão sido 4 milhões), cada um fez o caminho como pôde, pela avenida Voltaire, pelas ruas circundantes.

Chegar à praça da República já foi difícil. As carruagens de metro estavam cheias como nem nas horas de ponta. Sair ainda foi pior.

Perto da hora marcada não era possível dar um passo. “Estamos condenados a ficar juntos”, brinca Paul, um manifestante. A marcha das dezenas de Estado e de Governo que vieram associar-se aos franceses demorou uns 40 minutos e atrasou a saída da praça uma hora e meia. Atrás dos políticos marcharam os sobreviventes do Charlie Hebdo, ao lado dos familiares de todas as vítimas dos últimos dias. Ninguém se importou. Em cima da estátua da República, como nas noites anteriores, jovens gritavam slogans, cantavam o hino ou pediam minutos de silêncio. “Quem é que vocês são?”, gritavam, à espera da resposta: “Somos Charlie”.

Na cabeça da manifestação, um homem aproxima-se de um dos polícias que forma o cordão antes de deixar a multidão avançar e abraça-o. “Eu sou Charlie, eu sou judeu, eu sou chui”, escreveram muitos em cartazes, numa tarde onde se gritou vezes sem conta “viva a polícia” e se aplaudiu cada grupo de agentes mobilizado para proteger o percurso.

Enquanto se esperava, cantou-se, gritou-se, aplaudiu-se – “É para termos menos frio”, diz Diana, 50 anos, nascida no Uganda, que veio com a filha e os netos, 12 e 9 anos, todos nascidos em França. “Estamos aqui para defender a liberdade de expressão de todos e condenar a violência destes criminosos”, diz. “Os pequenos nunca se tinham manifestado mas pensámos que era importante trazê-los.” Eric, 12 anos, pára por momentos de treinar a irmã nas contas de multiplicar: “Viemos à marcha para lutar contra a violência. Por causa destes homens doidos que mataram estas pessoas.”

“Nunca vi nada assim”, diz Anne, jovem parisiense de 19 anos que se perdeu dos amigos ainda antes do início da marcha, decidida a prosseguir. Este foi o dia em que ninguém se sentiu sozinho.

Lágrimas e risos
Rennée, professora de ioga de 69 anos, nunca tinha participado em nenhuma manifestação. “É a minha maneira de defender a liberdade, de homenagear todas as vítimas dos últimos dias”, as 12 do atentado de quarta-feira contra a redacção do jornal Charlie Hebdo, caricaturistas, jornalistas, polícias; a jovem polícia municipal assassinada a tiro no dia seguinte por um dos suspeitos; os quatro judeus mortos no ataque à mercearia kosher de sexta-feira. “Os franceses são capazes do pior e do melhor. Isto é o melhor de nós.”

Um grupo forma um comboio e tenta atravessar a multidão compacta; a líder grita: “Vincent! Vincent! Se alguém o encontrar tome conta dele. Ele não conhece Paris”. Houve lágrimas mas também risos, muitos.

“Não podia ser de outra maneira, pois não?”, diz Emile, empregada de hotelaria de 35 anos que trouxe um cartaz onde escreveu “Um belo dia para salvar a liberdade”. “Temos de tomar conta da nossa liberdade e da nossa democracia. O direito a rir é muito importante. E eles [as vítimas do Charlie Hebdo] iam gostar de nos ouvir rir.”

A marcha pelas vítimas, anunciada logo na quarta-feira pelo conjunto dos partidos de esquerda, acolheu todos os que fazem de Paris a sua casa. Agitaram-se bandeiras curdas e ergueram-se cartazes com um texto de Charb, o director do jornal satírico assassinado, de apoio a Kobani, a cidade síria curda que os jihadistas do auto-proclamado Estado Islâmico tentam capturar há meses. Viram-se dezenas de bandeiras berberes, bandeiras iraquianas, israelitas, lenços palestinianos, bandeiras do Brasil, do Canadá, de Itália, do Líbano, da Tunísia, da Argélia, do Gabão…

Veio o Conselho Nacional da Resistência Iraniana, um grupo da oposição exilado em França. “Estamos aqui para dizer que estes ataques não têm nada a ver com religião, são fruto do fundamentalismo. E uma das raízes do fundamentalismo e da agressão é o regime fascista do Irão, que financia o terrorismo. A solução é apoiar os democratas e defender os direitos humanos”, afirma Dowlat Norrouzi, membro do conselho, provocando aplausos entre os que a ouvem.

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