
Notícia de David
por BAPTISTA-BASTOS28 setembro 2011
14 comentáriosA última vez que o vi foi na Casa do Alentejo, num jantar de apoio à candidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República. Não o reconheci, de imediato: o cancro devorava-o, era uma sombra do que fora. Ao lado, sua mulher, Pilar, e os dois mantinham o porte sereno e digno. Conversou, fumou cachimbo, bebeu uísque, no ritual cortês e delicado que o caracterizava. Um homem a sorrir à morte, e embora dilacerado pelo escândalo de saber do seu próprio fim, mantinha a discrição e o pudor. David Mourão-Ferreira, digo.
Lembrei-me do episódio, agora, que li, na revista dominical do Público, uma entrevista a seu filho. O grande poeta percorreu a vida com a elegância antiga que marca o destino dos que são modernos sem nunca deixar de ser clássicos. Há poucos desta estirpe. O filho, também David, como o pai e o avô, fornece comovente perfil de um homem complexo, solitário mas também povoado pela força de um querer no qual o amor procura o seu particular infinito. Na conversa, deixa pistas importantes, como a da religião e da conversão do pai, que a entrevistadora, acaso por distracção e impreparo, não soube aproveitar. Em 1979, fora iniciado no rito shintoista, numa época em que não cultuava nenhuma religião. Quando David, o filho, fala da pouca paciência que o pai tinha para com os neorealistas (embora fosse amigo, admirador e lúcido crítico de, por exemplo, Armindo Rodrigues, neorealista de raiz camoniana), seria oportuno falar-se da querela com Mário Dionísio.
A entrevistadora desconhecia o assunto, de que resultou uma cena de pancadaria, desencadeada por outro escritor, ao que parece alcoolizado. As lacunas são quase neutralizadas pelas declarações do entrevistado, homem notoriamente culto e inteligente, e pelas quais perpassa uma fina ironia. E remata dizendo que catalogar o pai como poeta do amor é não só redutor como desconhecimento de que a grande poesia dele é uma espécie de configuração da alma, e da secreta transcendência do ser humano. Uma procura de si em si.
Sem paciência para os neorealistas e enfadado com os surrealistas, cuja cartilha de expulsões e excomunhões detestava, David Mourão-Ferreira foi um cavaleiro de múltiplas soledades, sem servidões nem amos, cujo imenso talento, eloquência e impressionante cultura suscitavam invejas e ressentimentos. O costume.
Inimigos chamavam-lhe "o soneto engravatado." Um dia perguntei--lhe da alcunha. Ele: "O que em mim haverá de soneto tem pouco de engravatado; e o que, em mim, às vezes, há de engravatado não tem, em compensação, nada a ver com o soneto."
Não relia, há uns tempos, este meu amigo afectuoso. Revisitei os seus poemas, lidos, tanta vez, em voz alta, e reencontrei-me com um artista invulgar, para quem os valores da diversidade eram a questão central da existência num mundo cada vez mais flutuante e ausente na compostura.
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