Crónica de Paulo Farinha(pfarinha@controlinveste.pt)------A ler....
Quatro batatas ao Sporting: o dia mais feliz da tua vida
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Quatro batatas ao Sporting: o dia mais feliz da tua vida
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«Se o pantera negra marcar mais um, dou-te um beijo. Foi o que disseste no intervalo. E eu, mortinha que me desses um beijo, só queria que ele marcasse. Mais um, mais dois, mais três. Os que fossem. Andavas a convidar-me para sair há três meses e há pelo menos dois que eu queria um beijo teu. Rai's parta, nunca tinha ido ao futebol. Ao menos que a primeira vez fosse para lembrar. E no fim do jogo, quando tu já roías as unhas e olhavas para o relógio, com medo que o Sporting empatasse, o Eusébio fez aquilo. Não deve haver muitos casais que podem ver, sempre que quiserem, um vídeo do momento que antecedeu o primeiro beijo. E nós vimos aquilo umas.. quê... dezenas? Centenas de vezes? Quando os miúdos nos ofereceram o DVD com a gravação do jogo até choraste, mas nada chega à cassete que nos arranjou o teu primo que trabalhava na RTP. Já tinha a fita estragada, de tanto rodar. Na televisão parece ainda mais espectacular do que foi. Consegue-se ver o que ele fez com os pés, os defesas pelo caminho, as fintas à boca da área, a maneira como vira o corpo, a perna esticada, o tiro... mas no estádio... no estádio, Fernando... Eu levantei-me para gritar «golo», mas eu queria é outra coisa. As pernas tremiam-me. Tu ainda estavas aos pulos e aos gritos, tive de perguntar duas vezes: «Então e o meu beijo?». Agora é aquele momento em que os filhos começam a bater palmas, cada vez que ouvem isto. Acho que todos os nossos amigos conhecem a história, mas nunca me canso de a contar. E nunca me cansei de ta ouvir. Tinha mais piada contada por ti. A coisa até podia ter ficado por ali, que eu já estava satisfeita com a ideia de sair do estádio da Luz de mão dada contigo, mas ele ainda marcou mais um. O penalty. Estava imparável, o homem. Mais um golo, mais um beijo. E eu não parava de sorrir. Fomos à Mexicana comer um pastel de nata e depois levaste-me para a Fonte Luminosa, onde me falaste da primeira vez que tinhas visto o Eusébio a jogar. Que nem davas muito por ele, mas que ele te convenceu pelos golos, pelas corridas, por nunca desistir. Disseste que choraste no Mundial de 66. E eu fiquei a gostar ainda mais de ti, por me dizeres aquilo. Sabes, Fernando, naquela tarde tu podias ter falado do que quisesses. Fosse a primeira vez que vista o Eusébio ou a primeira vez que andaste de bicicleta, fosse o Benfica ou a fórmula química do azoto, eu nesse dia ouvia tudo o que tu dissesses. Se fosse só por nós, eu ainda desconfiava. Se fossem só os beijos e o namoro, eu queria acreditar mas teria ficado sempre com a pulga atrás da orelha. Mas como meteu Benfica, eu sei que o 8 de Outubro de 1972 foi mesmo o dia mais feliz da tua vida. «Comecei a namorar com a vossa mãe no dia em que o Eusébio espetou quatro batatas ao Sporting.» Quantas vezes disseste isso? Faz hoje um mês que me morreste. E faz hoje uma semana que o Eusébio se foi. Sim. Fernando, morreu o Eusébio. Uma paragem cardiorespiratória. Estava em casa, e de repente... Tenho saudades tuas, vou ter ainda mais e tenho um buraco cá dentro que me leva o ar todo, mas tenho tanta pena que não tenhas visto o que aconteceu esta semana. O que lhe fizeram ia deixar-te feliz. Todos os clubes, todos os responsáveis, de toda a parte vieram condolências. Sportinguistas, portistas... Até do estrangeiro. Levaram o corpo para o estádio e foi uma romaria que nem imaginas. Os teus filhos foram à Luz, no dia do funeral, para assistir ao último desejo do Pantera Negra: uma volta ao relvado. Foi bonito. Telefonaram-me de lá, a chorar, a dizer que estavam a homenagear dois grandes homens. Espero que agora, aí em cima, o possas conhecer finalmente."

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