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"Crónica despretensiosa lsobre o joelho - Dia IV"
O reino marítimo do Arracão situava-se a WSW da actual Birmânia ou Burma e tinha por capital a cidade de MRAUK-U.
A capital do Arracão fez parte do I e III imperio birmano mas não do II, uma vez que Pegu, capital birmane, nunca a conseguiu vencer por Pegu, capital dos reinos Mons não ter marinha de guerra e Mrauk-U ter uma frota militar poderosa.
Por outro lado o Arracão era o único estado da região birmanesa que cunhava moeda.
A presença portuguesa entre 1531 e 1640 concentrou-se essencialmente no rendoso eixo comercial Norte-Sul entre Mrauk-U e Pegu.
Em 1550, Fernåo Mendes Pinto querendo ir de Pegu a Cochim, fez escala por Chatigão onde um navio portugês o levou até Cochim.
Os mercenários portugueses contribuiram sobremaneira para a unificação birmanesa no II império liderado pelo reino Mons de Pegu mas, que como já se disse, não continha o Arracão, pois o papel dos portugueses estabelecidos no Arracão impediu as pretensões hegemónicas de Pegu, impedindo a anexação do Arracão.
Numa segunda tentativa hegemónica realizada em 1580 pelos birmaneses, as forças de Pegu foram derrotadas por Gonçalo Vaz de Camões.
De facto, era à força e engenho militar dos Portugueses que o reino do Arracão devia, em parte, o seu sucesso.
Foram eles juntamente com os "mogos" (nome dado pelos portugueses aos Arraconeses) que protegeram o reino, intimidaram os seus inimigos, organizaram a frota arraconesa, reforçaram as fortificações de Mrauk-U e combateram como mercenários no exército e armada arraconesa.
E isto porque se tinha estabelecido uma comunhão de interesses entre os dois povos. Em troca de liberdades para o seu comércio e para o seu estabelecimento, os portugueses ensinaram aos arragoneses as suas técnicas de guerra e de navegação.
Os mercadores portugueses embora causassem engulhos ao rei de Arracão pelas suas actividades de pirataria, foram tomados ao serviço deste porque dependia da sua força miitar.
Os reis de Arracão raramente tiveram contactos com Goa, apesar de terem necessidade da ajuda militar dos portugueses.
O insucesso das tentativas do Estado da Índia de estabelecer comércio e relações de amizade com o Arracão, ocasionou a que em todo o século XVI se fosse intensificando a implantação de capitães privados portugueses. Dotados de grande espírito de iniciativa, estes homens não sujeitos à autoridade da Coroa, substituíram a iniciativa institucional naquilo que podiam acordar com o Arracão - ajuda militar a troco de regalias comerciais. Deste modo, a comunidade portuguesa cresceu e desenvolveu-se naquele reino chegando a atingir, depois de meados de quinhentos uma cifra que andaria pelo milhar de habitantes.
O maior e mais importante dos estabelecimentos da comunidade portuguesa situou-se em Chatigão, que sendo o maior e mais desenvolvido porto da região costeira do norte do Golfo era conhecido entre os portugueses por Porto Grande de Bengala. Chatigão, perto da foz do rio Karnaphuli, era também a capital de um reino. Na margem oposta deste rio, Dianga, era um importante centro português, cedido pelos Arraconeses como porto comercial privado. Os Portugueses constituíam uma comunidade desordenada, cuja presença mau grado os inconvenientes trazia grandes vantagens aos reis locais que os favoreciam.
Nessa altura a actividade comercial privada dos portugueses era tão intensa que o comércio institucional da Coroa quase não tinha significado. Os agentes oficiais, denominados de "providos" não só não se mostravam interessados nas viagens ao Porto Grande de Bengala, como não queriam aceitar essas comissões.
O norte do Arracão era um centro tão importante da actividade privada portuguesa que a Coroa, não podendo competir, optou por ignorar esta situação de facto, por forma a conseguir boas relações com as entidades locais e a atrair à sua obediência os quase apátridas que por lá fervilhavam.
Todavia, a política preventiva do Estado da Índia, impunha que, de quando em vez, se armasse uma esquadra cujo objectivo era preservar o império asiático era impedir ou, pelo menos, intimidar o comércio privado que ofendia o monopólio da Coroa. Para este reino, contudo, só se conhece a notícia do envio duma Armada, comandada por António de Sousa Godinho, cuja história é de tal modo confusa que se torna paradigmática de duas realidades: a dificuldade em distinguir, no emaranhado das posições oficiais, a actividade ilícita da permitida e o reduzido conhecimento que se tinha em Portugal e, até, em Goa, da confusa teia de poderes no Arracão e regiões vizinhas, a que as autoridades portuguesas chamavam, indistintamente, "partes de Bengala."
Mau grado toda esta desorganização, havia um certo, ainda que escasso, conhecimento de que enquanto decorriam negociações entre Goa e Pegu, no Arracão os acordos eram celebrados entre o rei local e os capitães privados portugueses. A situação prejudicava a Coroa portuguesa, pois era cada vez maior o número de soldados que deixava as fileiras do Estado da Índia para engrossar a população de Chatigão. Para os tentar atrair os Vice-Reis indultavam-lhes os crimes cometidos, mas tal concorrência não era muito eficaz pois os reis do Arracão também lhos indultavam e ofereciam-lhes licenças para comerciarem, o que lhes garantia maiores proveitos. Por outro lado, para serem indultados os portugueses tinham de se inscrever num departamento da Justiça portuguesa. Ora, tais departamentos eram inexistentes no país e o único funcionário da Justiça da Coroa era o "Ouvidor" de Satigão ou Porto Pequeno de Bengala, no delta do Ganges a semanas de distância.
Os esforços para que não faltassem efectivos humanos ao Estado da Índia e para que o dinheiro proveniente do comércio da Coroa e das taxas sobre o comércio privado foram pouco menos que inúteis. Os portugueses continuaram a comerciar livremente até ao fim do séc. XVI.
A posição dos religiosos foi semelhante à dos "quase apátridas", na medida em que os entendimentos com o rei do Arracão tinham mais a ver com os próprios interesses e/ou os da sua Ordem do que com os interesses da Coroa. Esta missionação consistia, sobretudo, em marcar posição no terreno, construindo igrejas e contabilizando baptismos. As conversōes, embora tivessem sido mais forçadas que reais, acabaram por "mostrar serviço" e conseguiram atingir os seus objectivos, o que não sucedeu com a Coroa.
Os portugueses foram para o Arracão porque aí encontraram melhor pagamento para o seu ofício de marinheiros, mercadores ou soldados, como aliás acontecia com os seus congéneres do norte do Golfo de Bengala. Na sua maioria eram gente que se tinha radicado no Arracão, muitos deles já de segunda geração, filhos de portugueses que tinham partido para a Índia e por lá ficado. Alguns eram mestiços e quase todos aventureiros apátridas mas que eram, sobretudo consequência da expansão portuguesa.
Entre eles, ficaram conhecidos Filipe de Brito Nicote (já apresentado na crónica de um dia destes), Sebastião Gonçalves Tibau e muitos outros de menor dimensão política de que se tratará em crónicas futuras.
O reino marítimo do Arracão situava-se a WSW da actual Birmânia ou Burma e tinha por capital a cidade de MRAUK-U.
A capital do Arracão fez parte do I e III imperio birmano mas não do II, uma vez que Pegu, capital birmane, nunca a conseguiu vencer por Pegu, capital dos reinos Mons não ter marinha de guerra e Mrauk-U ter uma frota militar poderosa.
Por outro lado o Arracão era o único estado da região birmanesa que cunhava moeda.
A presença portuguesa entre 1531 e 1640 concentrou-se essencialmente no rendoso eixo comercial Norte-Sul entre Mrauk-U e Pegu.
Em 1550, Fernåo Mendes Pinto querendo ir de Pegu a Cochim, fez escala por Chatigão onde um navio portugês o levou até Cochim.
Os mercenários portugueses contribuiram sobremaneira para a unificação birmanesa no II império liderado pelo reino Mons de Pegu mas, que como já se disse, não continha o Arracão, pois o papel dos portugueses estabelecidos no Arracão impediu as pretensões hegemónicas de Pegu, impedindo a anexação do Arracão.
Numa segunda tentativa hegemónica realizada em 1580 pelos birmaneses, as forças de Pegu foram derrotadas por Gonçalo Vaz de Camões.
De facto, era à força e engenho militar dos Portugueses que o reino do Arracão devia, em parte, o seu sucesso.
Foram eles juntamente com os "mogos" (nome dado pelos portugueses aos Arraconeses) que protegeram o reino, intimidaram os seus inimigos, organizaram a frota arraconesa, reforçaram as fortificações de Mrauk-U e combateram como mercenários no exército e armada arraconesa.
E isto porque se tinha estabelecido uma comunhão de interesses entre os dois povos. Em troca de liberdades para o seu comércio e para o seu estabelecimento, os portugueses ensinaram aos arragoneses as suas técnicas de guerra e de navegação.
Os mercadores portugueses embora causassem engulhos ao rei de Arracão pelas suas actividades de pirataria, foram tomados ao serviço deste porque dependia da sua força miitar.
Os reis de Arracão raramente tiveram contactos com Goa, apesar de terem necessidade da ajuda militar dos portugueses.
O insucesso das tentativas do Estado da Índia de estabelecer comércio e relações de amizade com o Arracão, ocasionou a que em todo o século XVI se fosse intensificando a implantação de capitães privados portugueses. Dotados de grande espírito de iniciativa, estes homens não sujeitos à autoridade da Coroa, substituíram a iniciativa institucional naquilo que podiam acordar com o Arracão - ajuda militar a troco de regalias comerciais. Deste modo, a comunidade portuguesa cresceu e desenvolveu-se naquele reino chegando a atingir, depois de meados de quinhentos uma cifra que andaria pelo milhar de habitantes.
O maior e mais importante dos estabelecimentos da comunidade portuguesa situou-se em Chatigão, que sendo o maior e mais desenvolvido porto da região costeira do norte do Golfo era conhecido entre os portugueses por Porto Grande de Bengala. Chatigão, perto da foz do rio Karnaphuli, era também a capital de um reino. Na margem oposta deste rio, Dianga, era um importante centro português, cedido pelos Arraconeses como porto comercial privado. Os Portugueses constituíam uma comunidade desordenada, cuja presença mau grado os inconvenientes trazia grandes vantagens aos reis locais que os favoreciam.
Nessa altura a actividade comercial privada dos portugueses era tão intensa que o comércio institucional da Coroa quase não tinha significado. Os agentes oficiais, denominados de "providos" não só não se mostravam interessados nas viagens ao Porto Grande de Bengala, como não queriam aceitar essas comissões.
O norte do Arracão era um centro tão importante da actividade privada portuguesa que a Coroa, não podendo competir, optou por ignorar esta situação de facto, por forma a conseguir boas relações com as entidades locais e a atrair à sua obediência os quase apátridas que por lá fervilhavam.
Todavia, a política preventiva do Estado da Índia, impunha que, de quando em vez, se armasse uma esquadra cujo objectivo era preservar o império asiático era impedir ou, pelo menos, intimidar o comércio privado que ofendia o monopólio da Coroa. Para este reino, contudo, só se conhece a notícia do envio duma Armada, comandada por António de Sousa Godinho, cuja história é de tal modo confusa que se torna paradigmática de duas realidades: a dificuldade em distinguir, no emaranhado das posições oficiais, a actividade ilícita da permitida e o reduzido conhecimento que se tinha em Portugal e, até, em Goa, da confusa teia de poderes no Arracão e regiões vizinhas, a que as autoridades portuguesas chamavam, indistintamente, "partes de Bengala."
Mau grado toda esta desorganização, havia um certo, ainda que escasso, conhecimento de que enquanto decorriam negociações entre Goa e Pegu, no Arracão os acordos eram celebrados entre o rei local e os capitães privados portugueses. A situação prejudicava a Coroa portuguesa, pois era cada vez maior o número de soldados que deixava as fileiras do Estado da Índia para engrossar a população de Chatigão. Para os tentar atrair os Vice-Reis indultavam-lhes os crimes cometidos, mas tal concorrência não era muito eficaz pois os reis do Arracão também lhos indultavam e ofereciam-lhes licenças para comerciarem, o que lhes garantia maiores proveitos. Por outro lado, para serem indultados os portugueses tinham de se inscrever num departamento da Justiça portuguesa. Ora, tais departamentos eram inexistentes no país e o único funcionário da Justiça da Coroa era o "Ouvidor" de Satigão ou Porto Pequeno de Bengala, no delta do Ganges a semanas de distância.
Os esforços para que não faltassem efectivos humanos ao Estado da Índia e para que o dinheiro proveniente do comércio da Coroa e das taxas sobre o comércio privado foram pouco menos que inúteis. Os portugueses continuaram a comerciar livremente até ao fim do séc. XVI.
A posição dos religiosos foi semelhante à dos "quase apátridas", na medida em que os entendimentos com o rei do Arracão tinham mais a ver com os próprios interesses e/ou os da sua Ordem do que com os interesses da Coroa. Esta missionação consistia, sobretudo, em marcar posição no terreno, construindo igrejas e contabilizando baptismos. As conversōes, embora tivessem sido mais forçadas que reais, acabaram por "mostrar serviço" e conseguiram atingir os seus objectivos, o que não sucedeu com a Coroa.
Os portugueses foram para o Arracão porque aí encontraram melhor pagamento para o seu ofício de marinheiros, mercadores ou soldados, como aliás acontecia com os seus congéneres do norte do Golfo de Bengala. Na sua maioria eram gente que se tinha radicado no Arracão, muitos deles já de segunda geração, filhos de portugueses que tinham partido para a Índia e por lá ficado. Alguns eram mestiços e quase todos aventureiros apátridas mas que eram, sobretudo consequência da expansão portuguesa.
Entre eles, ficaram conhecidos Filipe de Brito Nicote (já apresentado na crónica de um dia destes), Sebastião Gonçalves Tibau e muitos outros de menor dimensão política de que se tratará em crónicas futuras.
NOTA DO EDITOR: S fotos são das ruínas duma feitoria portuguesa no reino do Arracão





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