"As minhas palavras têm memórias ____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso _________o momento do mistério inquietante de me escrever"
segunda-feira, 17 de março de 2014
OPINIÃO DO JORNALISTA DE "PÚBLICO",Jorge Almeida Fernandes, sobre a questão ucraniana
OPINIÃO
As opções de Moscovo na Crimeia
JORGE ALMEIDA FERNANDES
16/03/2014 - 01:20
7
TÓPICOS
Europa
Ucrânia
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Vladimir Putin
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Viktor Ianukovich
Crimeia
O referendo na Crimeia pode levar a duas saídas. A primeira, a anexação do território pela Rússia, parecerá evidente na continuidade das últimas iniciativas de Vladimir Putin. No entanto, uma segunda opção não deve ser afastada: Moscovo poderá protelar e acabar por recusar a anexação, não só pelos elevados custos económicos e políticos, mas como plataforma para recuperar a influência na Ucrânia. É "o grande jogo" que se trava na fronteira entre a Rússia e a NATO.
"Ganhar a Crimeia e perder a Ucrânia" seria uma vitória de Pirro, a maior punição para a Rússia e para os seus desígnios estratégicos. Ao contrário, recuperar a influência em Kiev — e o Kremlin tem trunfos a jogar — garante-lhe o controlo estratégico da Crimeia.
Putin cometeu graves erros de cálculo em Kiev que lhe valeram uma humilhação. Mas a sua capacidade de manobra não deve ser subestimada.
Sem Ucrânia não existe a União Euro-asiática que ele tem em mira para elevar a potência da Rússia. A aventura na Crimeia não apenas uniu os ucranianos contra Moscovo como assustou o Cazaquistão, o outro país indispensável para a União. O Presidente Nursultan Nazarbaiev defendeu a integridade territorial da Ucrânia e repudiou os argumentos de Putin: o Cazaquistão tem 17 milhões de "russos étnicos" e não aceitará interferências em seu nome. Putin suscitou também uma enérgica reacção dos vizinhos europeus, da Polónia aos bálticos, o que significa potenciar a acção da NATO no Leste europeu.
A invasão da Crimeia — alertou a analista russa Lilia Chevtsova — põe em causa "a ordem mundial pós-Guerra Fria; é "um precedente que autoriza o Kremlin a uma intervenção directa nos assuntos de um Estado soberano"; implica uma "doutrina que ameaça a estabilidade de todo o espaço pós-soviético"; abriria caminho a uma tentativa de controlo sobre o Sul e o Leste da Ucrânia; o alvo seguinte poderia ser a Moldávia.
Tal como não se deve dar como adquirida a anexação da Crimeia, é prudente não excluir a hipótese, mesmo improvável, de Moscovo desestabilizar a Ucrânia Oriental para criar um pretexto de intervenção com consequências catastróficas.
Há um factor imponderável: Putin poderá ter ficado refém de si mesmo. A operação na Crimeia desencadeou uma vaga de "fervor imperial" na Rússia, reforçando a "paranóia do cerco", reportava ontem o Financial Times.
"Os homens fazem a história, mas não sabem a história que fazem."
O peso da geografia
Ignora-se o que vai na cabeça de Vladimir Putin. Angela Merkel disse que ele parece "descolado da realidade" e "vive noutro mundo".
Esse "outro mundo" é o da velha geopolítica, o da luta pelo espaço e pelo poder. Para o Kremlin, este não é um conflito sobre legalidade internacional. "O comportamento de Putin é motivado pelas mesmas considerações geopolíticas que infuenciam todas as grandes potências, incluindo os Estados Unidos", escreve o analista americano John Mearsheimer.
O jornalista e investigador americano Robert Kaplan publicou em 2012 um livro útil: The Revenge of Geography (A vingança da geografia). É um ensaio sobre geopolítica. Publicou agora um artigo sobre a Crimeia.
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