O conflito é inevitável
Tudo o que construímos nestas décadas de democracia e de Estado social está a ser aniquilado a cada dia que passa: o serviço público deixará de existir, a solidariedade intergeracional nunca terá existido, a alegria será apagada das fotos colectivas.
Chegámos a este presente com quatro décadas de democracia marcadas pela revolução do 25 de Abril, pela queda do Muro de Berlim, pelo 11 de Setembro de 2001, pela manifestação do 15 de Setembro de 2012. No arco temporal de que somos actores e testemunhas, estes acontecimentos tanto dividem o tempo como o ligam enquanto manifestações colectivas inscritas na memória da comunidade, criando um imaginário com o qual não podemos deixar de lidar nessa perspectiva de um tempo mais longo que legitima as narrativas comuns, que produz uma história epocal em que a esperança e a constituição de um território com futuro parecem adquiridos. A relação de cada sujeito com estas marcas definirá o seu lugar no presente, mas sobretudo qualifica o presente considerando o que foi realizado por uma comunidade, o que a engrandeceu, mesmo que por vezes com factos tristes ou decepcionantes.
Poderíamos acrescentar outros factos, narrativas, experiências mais singulares e com uma maior dose de subjectividade - embora encadeadas noutras subjectividades - que desenham o presente "cultural" de uma sociedade, mas que por isso são a sua retaguarda de identidade e de certeza de "ter sido". Chegámos aqui com o Teatro da Cornucópia, Os Dias Levantadosde António Pinho Vargas, O Amor de Perdição e O Gebo e a Sombra de Manoel de Oliveira, as teses de neurociência de António e Ana Damásio, ocorpus ensaístico de Eduardo Lourenço, o prémio Nobel José Saramago, oAntónio, Um Rapaz de Lisboa dos Artistas Unidos, o Transe de Teresa Villaverde e o Lisboetas de Sérgio Tréffaut (e tantos outros filmes e concertos, e poetas e cientistas); com a invenção de uma Casa da Música e de um MUDE; com outras histórias e factos singulares. Uma construção sustentada por uma ideia de futuro comum (heterogéneo) e pela capacidade de enfrentar um passado que tinha sido obscuro e de desalento. Aqui chegados, há um presente que se desmorona e um futuro que nos é interdito. Os responsáveis são a partidocracia doente e um Governo em que a incompetência está aliada ao ressentimento e aos interesses de expropriadores nacionais e internacionais, e também à egotrip dos governantes internacionais.
Howard S. Becker perguntava-se recentemente - a propósito das mortes por grandes ondas de frio de 1995 em Chicago e de 2003 em Paris, em que morreram milhares de pessoas de hipotermia e solidão - "how much is enough?" (quanto será necessário?) para que se tomem procedimentos que evitem este tipo de desastres humanos. Ora, nós há muito que vivemos nisto que os ocupantes do interior e do exterior abusivamente definiram como "crise", há muito que vivemos no interior da catástrofe, sendo que a pergunta de Baker não tem qualquer relevância para os governantes.
A catástrofe não é só a delapidação dos recursos comuns e da propriedade dos portugueses - a água, a luz, os CTT, os transportes públicos -, é também a condenação à expulsão dos milhares que emigram por desespero, as pessoas com fome, os desempregados, o extermínio e a degradação das escolas e das universidades, dos teatros e dos centros de investigação, dos museus e até das cidades.
Até quando será necessário? não é pergunta que se lhes faça porque a catástrofe tem hoje uma dimensão social e uma dimensão espectacular que é já a "saída da modernidade", na expressão de T. J. Clark. Ou seja, saímos da ordem social construída sobre a ideia de uma partilha equitativa de bens e de recursos, fundamentada na liberdade e na autoridade da argumentação sobre o domínio, sobre a tecnocracia e a irracionalidade da pobreza, para uma catástrofe de vidas pequeninas (conforme o imaginário destes governantes) e de tentativa de sobrevivência no meio dos escombros.
Tudo o que construímos nestas décadas de democracia e de Estado social, expressão da modernidade na herança directa dos Iluminismos traduzida nessas manifestações com que chegámos ao presente, está a ser aniquilado em cada dia que passa. Recordemo-nos das técnicas estalinistas do apagamento das pessoas nas fotografias para que a memória destas desaparecesse. Através de técnicas de propaganda e de dissimulação, este Governo faz a mesma coisa: o serviço público deixará de existir passando a ser um fantasma de uma utopia rebelde, a solidariedade intergeracional nunca terá existido, a alegria será apagada das fotos colectivas e - também por vontade do Governo e por irresponsabilidade da partidocracia - essa ideia de Política que distingue os humanos dos animais (na medida em que trata do governo justo das cidades e do bem dos cidadãos) não será se não uma linha residual, uma vaga lembrança do que foi a Política.
A partidocracia não tem guiões de confiança para o presente comum, nem sobre como renascer da catástrofe. Por isso há que encontrar outros guiões por entre os contributos de quem pensa para lá da sobrevivência. Insisto em primeiro lugar na exigência comum de não utilizar a linguagem do ocupador: é uma linguagem que condiciona e parasita todo o pensar e o agir. E tomemos como um entre esses guiões de alerta a obra For a Left with no Future (2012) deste mesmo T. J. Clark, o historiador de arte moderna, para considerar a importância que tem abandonar radicalmente o acantonamento em que a esquerda se coloca a partir de teorias do passado (incapaz de assumir as derrotas que teve, em particular a que se associa à crise iniciada em 2008). Crítico em relação a um optimismo em relação ao futuro que só passa pela possibilidade de consumo, T. J. Clark é radical. Céptico por causa do ressentimento que é a pressão exercida pelo Tea Party e seus derivados governantes europeus, avança para a única solução possível no imediato: a do confronto, a do conflito aberto entre aqueles que têm um compromisso com a modernidade e aqueles que são os detonadores da catástrofe. Haverá outra solução?
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