segunda-feira, 5 de setembro de 2016

o Primeiro-ministro sabe bem com que voz há-de falar aos "gremlins" da Europa! Desde que os ameaçou com o Tribunal europeu, o da Alemanha nunca mais grunhiu...


 

Nobel da Economia recomenda a Portugal fazer voz grossa na Europa

Joseph Stiglitz considera que Portugal e Grécia são a prova de que a política de austeridade imposta pela troika e preconizada pela Alemanha falhou. 

Em entrevista à Antena 1, o prémio Nobel da Economia defende que o Governo português comece a pensar num “divórcio amigável” para sair da moeda única e afirma ser “inevitável” uma reestruturação da dívida. Só com essa receita, acredita Stiglitz, haverá “pelo menos a perspetiva de se voltar ao crescimento”.

O norte-americano diz que só a saída do euro permitirá a Portugal libertar-se das regras que agora condenam o país à recessão, pelo que a saída da moeda única será a “uma oportunidade de ter um novo começo”, mesmo que reconheça que o embate será duro para os portugueses no momento de voltar a uma moeda nacional.

“Não será um processo imune a dificuldades, mas temos de reconhecer que o atual sistema é extraordinariamente prejudicial”, comenta à Antena 1, ressalvando que tal como estão as coisas “é cada vez mais claro que ficar é mais custoso ficar do que sair”.

O economista considera mesmo que os problemas que agora se vivem em Portugal devem-se em grande parte à forma como o euro foi pensado.

“Quando criaram uma moeda única eliminaram dois dos mais importantes mecanismos de ajustamento: taxa de juro e de câmbio. Não os compensaram com nada, com nenhuma instituição que permitisse fazer esse ajustamento quando, por exemplo, a taxa de câmbio estivesse desajustada. De facto fizeram ainda pior porque confiaram apenas na poliítica orçamental, limitada, e disseram que o BCE, uma instituição central, teria de se fixar na inflação e não no emprego e no crescimento económico. Não criaram, por exemplo, mecanismos para encorajar os países excedentários a estimularem a economia de forma a crescerem mais rápido, não criaram uma garantia de depósitos comum para que os países mais fracos enfrentassem as dificuldades bancárias, mas eles próprios tiveram de salvar os bancos em vez de termos uma responsabilidade comum da zona euro. O resultado é que sobrecarregaram os países mais fracos”, defende Stiglitz, que acha que a Alemanha é quem mais tem ganho com a situação.

“ Os benefícios da Alemanha têm sido em parte a custo dos países do Sul europeu”, conclui o americano.

De resto, Joseph Stiglitz não tem dúvidas de que os problemas de portugueses e gregos não são a consequência de não terem feito as reformas suficientes para dar a volta a economia, mas sim precisamente de terem seguido à risca a fórmula do FMI e da Alemanha. “Não é porque a Grécia, Portugal e Espanha não fizeram o que lhes disseram que estão em dificuldades, mas estão assim porque fizeram o que lhes disseram para fazer. As políticas de austeridade têm exatamente os efeitos previsíveis de estagnação e queda económica”, aponta.

Por isso, o momento é de fazer voz grossa à Europa e exigir mudanças, defende o economista: “Acho que Portugal e os outros países em crise têm de dizer à União Europeia que tal como está não dá. Não podemos continuar a sofrer sob um conjunto de políticas que não vão funcionar. A evidência económica de que não vai funcionar é esmagadora. Têm de deixar claro que a Europa tem de decidir se faz as reformas ou haverá uma dinâmica crítica num país, ou em vários em conjuntos, de separação. Esse processo vai criar, por si, um custo elevado para a Alemanha. Por isso, a Alemanha tem interesse nestas reformas”.

Uma das reformas, defende, deve passar pela reestruturação da dívida, que considera ser “inevitável” e que acredita poder ser feito depois de Portugal sair do euro. “Quando sair do euro podem, como parte do processo, reestruturar a divida, e ficam livre dos condicionamentos que os impediram de crescer. É uma transição dura, mas depois a economia terá condições para crescer. O problema é que para países como a Grécia e Portugal as restrições provocam recessão sem fim e no caso da Grécia depressão sem fim. O último programa adotado em 2015 na Grécia era suposto ser a cura para os problemas da Grécia, mas o PIB continuou a cair porque a austeridade continuou a ser aplicada”, declara Stiglitz, que acha estar na altura de deixar de dar crédito às agências de rating.

“Acho que a influência das agências de rating reflete as profundas ineficiências dos mercados financeiros e da sua irracionalidade. Lembremo-nos que as agências de rating deram a nota máxima aos produtos que levaram ao colapso do sistema financeiro norte-americano. Estiveram envolvidas em fraudes, deceção. Então, porque devemos prestar atenção a estas agências de rating com o histórico tão pobre e com uma honestidade tao questionável é um mistério para mim. O facto de os mercados financeiros ainda lhes prestarem atenção diz mais deles próprios do que qualquer outra coisa”, comenta o Nobel da Economia.

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