A refeiçoar justiça de tabloide
19 de setembro de 2016 por leituras deixe um comentário
O juiz Carlos Alexandre é umhomem muito trabalhador, muito austero e muito sério. Sabe a diferença entre o bem e o mal. Tem um salário baixo. Trabalha tanto, para ver se ganha mais um bocadinho, que não tem tempo para se valorizar. Não se casou com uma alentejana rica, ganha 75 euros ao fim de semana – menos do que um tradutor, informou-nos – e tem de pagar dívidas. É um homem muito, muito preocupado com dinheiro. Acha que é escutado ilegalmente, mas não se preocupa com isso, já que não tem nada a esconder. Podia ser um homem perigoso, dada a função que ocupa e os segredos que conhece, mas não é, já que ele atua sempre pelo bem. Quase não tem amigos, e um dos poucos tem pena dele.Há boas razões para um juiz ser discreto. Quase todas se prendem com a necessidade de os cidadãos não criarem uma imagem formada a partir das opiniões, dos gostos ou até de coisas mais pequenas dos homens e mulheresque têm como função aplicar a lei. O juiz tem de ser o primeiro a contribuir para que não surjam preconceitos acerca de si próprio. Que, justa ou injustamente, alguém pense que julga assim ou assado por não gostar disto ou daquilo, por ter esta ou aquela propensão, por ter este ou aquele feitio, por parecer sofrer de ressabiamento contra este ou aquele grupo social. É fundamental que a comunidade esteja absolutamente segura de que o juiz ou a juíza decide exclusivamente em função da lei.
O juiz Carlos Alexandre decidiu que queria que as pessoas tivessem uma determinada opinião sobre ele. Quis que nas vésperas de uma das mais importantes decisões da justiça portuguesa as pessoas o vissem de uma determinada forma. Optou por uma fórmula já muito testada e que em política tem dado excelentes resultados: o homem trabalhador e austero, sem os luxos dos grandes deste mundo; o homem com poucos amigos que não tem cumplicidades; o homem que veio de baixo; o homem que não tem nada a esconder; o homem que não tem uma função, mas sim uma missão. Ele é o homem comum que luta contra os ricos e poderosos. Qualquer semelhança com os políticos que construíram a sua carreira alardeando constantemente todos estes predicados, e com grande sucesso, não é coincidência.
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