sexta-feira, 9 de setembro de 2016


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ANÁLISE
A primeira cimeira que pode ser a última. Ou não


TERESA DE SOUSA

09/09/2016 - 07:20


O que leva os líderes dos países do Sul a reunirem-se em Atenas para debater o futuro da Europa? Talvez o simples facto de ninguém saber que Europa emergirá da crise. A grande novidade é a França. Rajoy acabou por recuar.




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Pode ser a primeira mas também a última. Há meia dúzia de meses ainda parecia impossível. É uma novidade em relação às estratégias europeias da maioria dos países que estarão em Atenas. A iniciativa partiu de Alexis Tsipras, que se ofereceu para anfitrião, depois de ter participado como observador nas reuniões dos líderes socialistas europeus no Palácio do Eliseu para articularem ideias sobre o futuro da Europa. O primeiro-ministro grego quer mostrar que a Grécia, ainda sob resgate, pode contar com amigos importantes, depois de ter sido tratada como “pestífera”. O momento é oportuno. A troika inicia uma nova vistoria às contas e às reformas de Atenas e já adiantou que não está satisfeita. Quanto aos outros protagonistas do encontro, a sua lógica só é perceptível à luz desta longa crise existencial que pôs em causa muitas das certezas anteriores sobre a integração europeia.

Entretanto, é a própria Europa que está, também ela, a mudar. A Grécia já saiu dos cabeçalhos, dando lugar à crise dos refugiados, ao "Brexit", ao terrorismo e, também, à relativa estagnação da economia europeia, que ainda não se libertou do risco de deflação, obrigando o BCE a manter as máquinas a funcionar. As coisas mudaram também entre os países do Sul e a sua forma de olharem uns para os outros. Basta recuar alguns anos para verificar que a solidariedade entre eles era pura e simplesmente uma miragem. Madrid tratou de cancelar as habituais cimeiras luso-espanholas, porque não queria confundir-se na fotografia com um país “resgatado” (incluindo no tempo do socialista Rodriguez Zapatero). Portugal passou os anos do resgate a distanciar-se da Grécia publicamente (“Portugal não é a Grécia”) e a comportar-se nos Conselhos Europeus como um dos mais duros críticos dos incumprimentos de Atenas. A Itália, numa sucessão de governos politicamente instáveis, teve de esperar pela entrada em cena de Matteo Renzi para iniciar um caminho reformista e, ao mesmo tempo, tentado reocupar o seu velho lugar de “grande país fundador”. A própria Grécia já não corre o risco de ver o seu Governo “despachado” por uma ordem de Merkel, como aconteceu com o governo de George Papandreau em 2012. A Irlanda e Portugal tiveram “saídas limpas” em 2014, mesmo que o Eurogrupo mantenha o chicote na mão para obviar a qualquer desvio.

Mas a clivagem Norte-Sul que se acentuou durante a crise também deixou marcas profundas, feitas de preconceitos e de desconfianças, que hoje tornam mais fácil um entendimento como o de Atenas.
Merkel à procura de um consenso

Nos últimos dias, a chanceler tem-se multiplicado em encontros com os seus parceiros europeus para avaliar o que pode ou não pode ser feito para evitar a desagregação europeia. A própria Merkel também mudou muito. Foi obrigada a fazer um curso acelerado sobre os custos da liderança nos últimos anos. A crise ucraniana alterou a percepção de Berlim sobre a segurança europeia. Em 2012, a chanceler dizia que não ia pagar as “aventuras militares” da França (no Mali). Participa hoje militarmente na coligação que combate o Estados Islâmico. A crise dos refugiados, que continua à espera de soluções comuns mais eficazes, mudou o centro de gravidade das suas preocupações. O crescimento das forças nacionalistas e populistas (agora também na Alemanha, transformando em realidade o seu maior pesadelo) começa a ser um poderoso factor de desagregação que as lideranças europeias não podem ignorar. Finalmente, o "Brexit" fez soar todos os alarmes.

A chanceler ouviu quase toda a gente antes da cimeira de Bratislava, no dia 16, sobre o futuro da Europa. Encontrou-se com Renzi e Hollande (o novo grupo dos “três grandes” que irrita particularmente Madrid). Reuniu-se com os países de Visegrado em Varsóvia, tomando consciência da perigosa deriva nacionalista e antieuropeia em que se envolveram. Budapeste e Varsóvia, com dois governos nacionalistas, propõem-se "revolucionar" a Europa. Recebeu os Nórdicos em Berlim. Janta com António Costa (e mais os líderes da Lituânia, Letónia, Malta e Chipre) no próximo domingo (uma companhia na qual é possível, talvez, ler algum desagrado alemão com o Governo português). É neste quadro volátil que podemos olhar para a cimeira de Atenas. O que tem de novo e o que representa para os seus protagonistas.

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