sexta-feira, 16 de agosto de 2013










O Pensamento de SAMPAIO BRUNO (1857-1915)








O Pensamento de SAMPAIO BRUNO (1857-1915):
( Através de CVC.instituto-camoes.pt)


..." Para Bruno, a verdade não é um absoluto dado, e nele se palpa, tanto no pensamento como na sua expressão escrita, o sentido do oculto, ou não fosse a verdade «o erro, aproximando-se indefinidamente da verdade verdadeira, desconhecida». Daí que seja habitualmente considerado um autor difícil, com uma prosa recortada, sinuosa e tantas vezes labirintica, nos antípodas da clareza dos geómetras.

Bruno abriu-se ao mito, à profecia, à revelação, às alucinações auditivas (de que disse ter sido alvo), às sociedades secretas, ao mesmo tempo que expurgou o messianismo do que considerava a sua dimensão acessória para o focar no essencial: a redenção do homem e, com ele e através dele, a redenção universal, acabando por nos traçar uma metafísica da redenção que parte do mistério das origens para terminar na redenção não só do homem, pois recusou a perspectiva antropocêntrica de um certo evolucionismo imperante que à luz do seu critério tem por imoral, mas a redenção universal e fraterna de toda a cadeia dos seres, da natureza no seu conjunto, num processo que se lhe apresentava como a revelação sucessiva de fins divinos, rumo à perdida perfeição de um absoluto misteriosamente alterado.

Há na sua obra permanente exigência de relação ao englobante e, ao mesmo tempo o sentimento de ser englobado no quadro de um monismo que rejeita o dualismo da metafísica cartesiana. Nela encontramos uma noção do real que passa pelo amor, pela comunicação e pela relação profunda do homem com os outros seres -- chegando ao ponto de se fazer vegetariano --, ao mesmo tempo que tudo refere ao passado de uma homogeneidade perdida, rumo ao longínquo e profetizado porvir de uma unidade final a restabelecer: «Em todo o mundo a paz será», a qual «chegará lá para os dias mais confiantes do longínquo porvir», escreveu na sua mais importante obra, a Ideia de Deus (1902).

Por isso, o papel heróico do homem, aquele em que a ideia de liberdade verdadeiramente se realiza não radica no prazer ou no gozo que as modernas conquistas das ciências e das técnicas (no apogeu do positivismo em Portugal e das grandes exposições universais) eventualmente proporcionem, mas num plano bem mais profundo e moralmente superior, qual o de libertar-se a si, libertando os outros seres de um mal gerado pelo mistério da queda e da cisão inicial.

Sobre esta redenção universal, desenvolvida em contexto não teológico mas teúrgico, define três momentos, ou como prefere dizer, «três instantes supremos do crescimento», expressando-os em texto síntese de A Ideia de Deus: «Um: é o espírito homogéneo e puro que foi e há-de voltar a ser. Eis o ponto de partida e eis o ponto de chegada. Outro: é o espírito puro, mas diminuído actualmente pelo destaque separativo do universo. Enfim, o outro ainda: esse universo que aspira a regressar ao homogéneo inicial».

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Pensamento de PAULO FREIRE(1921-1997)-in NET- Foto NET





















Verdades da Profissão de Professor


Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.
A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.
Paulo Freire

terça-feira, 13 de agosto de 2013




POEMA(inédito): HOJE, A SOLIDÃO É VERDE...










POEMA: HOJE, A SOLIDÃO É VERDE...


HOJE, A SOLIDÃO É VERDE…


Dantes, a meu lado, incómodo e adormecido,
estava meu-eu-não-liberto, inconsciente, escondido.

Mas esse lado cresceu…
Passeou pelas margens dos canais emparedados,
nos rios melodiosos -a-correr para trigais orgulhosos…
Viu águas-tempo-a-deslizar
nas flores a desdenhar os sopros de vento…
Alimentou-se e viveu na palavra que floriu, se libertou e viveu,
cheirosa, como cravo de Abril-do-contentamento.

Companheiro infatigável de cruzadas navegadas
à força de águas-mil, bebe comigo, agora, o fel que o fado
tinha reservado, numa guitarra chorosa de saudades
da alegria febril.

[A Pátria é o céu onde te perderes…
E quando de Ítaca regressares,
meu corpo te tocará no espírito que me habita.]

Hoje, é verde, a solidão!
Verdes campos…………….verdes ventos…………..verdes madeiros
no mar da esperança de , a teu lado, navegar!
…verdes ramos a rebolar ao vento das madrugadas de verdes lembranças,
sob uma lua cigana de agitadas temperanças…
Hoje, a solidão é vermelha de rubor…
É fénix renascida em chamas de calor de lava a escorrer
pelas ravinas ,
em curvas de contentamento…
…e legiões de estrelas passam à margem de um mundo-dedo-de-mel
consciente…………..determinado…………..profundo como um batel…………..


[D’Antes-Outrora,
o Agora foi o Presente-inconsciente-do-Futuro.]

Nas brancas águas dos rios,
de sussurros imemoriais,
não há grilhetas que prendam ,
o ouro dos girassóis.

E em Paris,
no meio de tanto frio,
prometo enrolar-me a ti,
sem temer a neve
que possa cair no rio.

Nesse mesmo perene instante,
a solidão é de um verde forte…
Verde – Esperança que brilha-e-rebrilha,
nos olhos de uma criança…


Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
C.S.-(ERT)-FEV/013-REG 18
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SOBRE JOSÉ RÉGIO-Através de ciberdemocracia.blogspot.pt

Apesar das suas falhas teóricas, a teoria da arte de José Régio tem a seu favor o facto de partir de uma constatação empírica inquestionável: «Quem não vê em Portugal aestreiteza de personalidade dos nossos mais lidos escritores?» A leitura de dois ensaios, um de José Régio (Literatura Viva, 1927), outro de João Gaspar Simões (Individualismo e Universalismo, 1927), é suficiente para mostrar que o "objectivo pedagógico" número 1 do movimento modernista da Presença era denunciar amediocridade dos escritores portugueses e a própria mediocridade provinciana nacional. Todos os pares de categorias contrárias elaborados pelos presencistas visam traçar linhas de demarcação que permitam discernir e separar os simuladoresdos criadores autênticos. Aliás, José Régio afirma mesmo que o verdadeiro papel docrítico literário é discernir e separar estas duas categorias de escritores: Ossimuladores - a fauna pseudo-literária predominante em Portugal! - «existiram em todos os tempos, e são os responsáveis de toda a literatura morta de qualquer tempo. Os segundos - os criadores autênticos - também existiram em qualquer tempo, e é através deles que a arte literária chegou até nós viva, portanto susceptível de evolução. Os processos e as formas que eles descobriram eram os mais aptos a revelar a sua sensibilidade; e por certo foram inovação no seu tempo. É natural que a sensibilidade contemporânea já não caiba nessas fórmulas, consagradas por e para sensibilidades diferentes. Natural é, portanto, que os grandes artistas de hoje sigam o exemplo dos grandes artistas de ontem. O fundo eterno, imutável, contínuo, da humanidade e da arte manter-se-á poderosamente na obra de todos os grandes. E direi que é sobretudo nos inovadores que esse fundo aparecerá mais virgem». Com esta frase, a teoria estética de José Régio torna-se incapaz de historicizar a arte e os seus movimentos artísticos: a história da arte é vista como uma ampliação ou dilatação contínua da humanidade, das suas possibilidades virtuais e do seu mundo, que capta, em cada época, através das suas figuras artísticas geniais, o fundo imortal que define a essência da arte autêntica, actualizando possibilidades virtuais adormecidasalgures nos recônditos da alma humana. Para José Régio, a arte viva é a arte original. E o que é a arte original? A arte original é aquela que brota da «parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é, pois, ter uma personalidade e obedecer-lhe» (José Régio). O tema presencista da originalidade reconduz-nos directamente ao conflito entre o indivíduo e a sociedade, tal como foi explicitado pela primeira vez pela tragédia grega. O carácter individualista da arte vanguardista seduziu os presencistas pelo facto dos seus grandes criadores terem tido a coragem de romper com todas as normas, cânones e espírito de escola que aprisionavam a sua criatividade infantil. A estética que elaboraram para a arte de vanguarda retoma a teoria do génio, dando-lhe no entanto uma outra moldura teórica que João Gaspar Simões foi buscar à teoria dos sonhos de Freud. Reconhecendo as limitações do seu conceito de inocência e virgindade da alma individual, João Gaspar Simões foi obrigado a recorrer à teoria de Freud para mostrar como a alma individual logra emancipar-se da sua cultura, para reagir directa e virginalmente ante oespectáculo do mundo, de modo a reforçar a sua ideia de que a obra mais individual é também a mais universal: «Está claro que o fundamento de toda a criação infantil assenta no repúdio obrado pelo criador sobre a camada cultural adquirida, pois, se tal repúdio se não obrar, impossível lhe será realizar uma obra superiormente original. Mas que função exercerá assim sobre a alma criadora uma cultura que se repudia? Eis-nos diante dum mecanismo idêntico ao revelado por Freud na sua teoria dos sonhos. A cultura não é, na verdade, repudiada, senão recalcada, semelhantemente ao que se passa na nossa consciência com as duas funções criadoras de pensamentos, assinaladas pelo autor da "Psicanálise". Enquanto os produtos duma, desde que elaborados, participam logo da consciência do sujeito, os da outra são precipitados no vasto mar do subconsciente, não chegando até ela senão por intermédio da primeira. Como, porém, entre estas duas funções há uma espécie de censura que impede o livre trânsito de pensamento, só um meio resta àqueles que, recalcados, se acham inibidos de se tornar conscientes - surpreendê-la durante o sono, único instante em que sofre um relaxamento. O que de facto acontece. Todavia, por medida de precaução, recorrem os foragidos ao estratagema de um disfarce, que, em geral, se lhes oferece em forma de símbolos acentuadamente infantis. Donde o aspecto fantástico de quási todos os sonhos. /Ora, o mecanismo da reacção infantil duma alma culta aproxima-se deste, precisamente em que no momento da criação, a inteligência crítica do artista se elege em censora das ideias que, previamente repudiadas, se mantêm à margem, e as quais só logram iludi-la disfarçando-se, quer dizer alterando a sua conformidade própria mercê duma nova, adquirida com elementos da alma em que habitam. /De maneira que uma vez perdida a fisionomia primitiva com que para ela entraram, está ganha uma nova fisionomia, que, por ter sido elaborada com materiais estranhos, em nada se assemelha à primeira, mas sim àquela que caracteriza as criações da alma fornecedora dos materiais. Isto é, houve por assim dizer um rejuvenescimento dos resíduos culturais existentes na consciência do artista, uma infantilização, pois infantil é a fisionomia de todas as criações originais.» Este esclarecimento dado no ensaio Individualismo e Cultura (1927) visava salvaguardar o conceito de virgindade da alma individual - a alma isenta de preconceitos - da interpretação que lhe foi dada - pelos "nacionalistas", os inimigos declarados daPresença - como uma espécie de regresso a uma época pré-histórica da consciência humana. Para João Gaspar Simões, o carácter marcadamente individualista da arte de vanguarda revela-se na emancipação dos artistas e da sua visão do mundo dassujeições de escola. A revolta dos artistas de vanguarda contra o espírito de escola assume assim - nesta perspectiva - a forma de um antagonismo radical entre o indivíduo e a sociedade, ou seja, entre o pensar sincero - próprio das almas superiores - e opensar fraseológico (Ortega y Gasset) - próprio das almas inferiores. Em linguagem bergsoniana, João Gaspar Simões encara o processo de criação artística como o regresso do eu ao seu si próprio - o eu próprio, depois de ter andado perdido no mundo inautêntico do eu social que se limita a ser e a fazer aquilo que todos os outros impessoais são e fazem: a alma superior é aquela que se liberta do seu eu social e do seu sistema pré-fabricado de crenças e de esquemas automáticos adquiridos, censurando-os e criando o seu próprio universo isento de todos os preconceitos culturais e de todas as modas. Ao reassumir o seu eu próprio, a sua feição virginal, através do recalcamento e da censura dos elementos culturais estranhos interiorizados, a alma superior rompe com os automatismos sociais da escola e torna-se capaz derejuvenescer o mundo, comunicando-lhe uma nova visão da realidade e criando uma nova cultura unicamente sedimentada nela. Os conceitos de originalidade esinceridade são usados pelos presencistas para acentuar o carácter individualista do modernismo, por oposição à reacção meramente formalista, insincera e colectiva exibida pelas almas inferiores que se refugiam num automatismo sindical que lhes retira toda a qualidade vital. José Régio e João Gaspar Simões partilham a mesma estética, a mesma teoria da arte, mas cada um deles tende a usar uma terminologia própria que acaba por gerar algumas diferenças de perspectiva. Embora João Gaspar Simões esteja mais próximo de uma perspectiva social da arte, que procurei evidenciar mediante o recurso à linguagem de Bergson - uma figura idolatrada pela Presença e pelo pensamento portuense, o seu conceito de tradição eterna - a matriz a-histórica da estética presencista - garante a integridade do núcleo duro que partilha com José Régio: «Ora é neste poder natural de contínuo renascimento, nesta mocidade insuperável, que reside a virtude universalista das almas individuais. A um acto comum responde uma comum assimilação; sendo curta a vida de toda a obra vulgar, porque a sua trajectória vital descreve uma ínfima curva: mal sai do berço, entra no túmulo (que nesta metáfora significa o fundo da consciência assimiladora); enquanto a individual, a invulgar, se mantém em eterno nascimento, jamais abandonando a alma-matriz que a torna insusceptível de assimilação. (Todos os túmulos permanecem cerrados perante ela.) Daí a universalidade da obra individual fundamentar-se precisamente em que todos os homens a contemplarão e sofrerão o choque humaníssimo da sua vitalidade, sem lograrem sepultá-la em suas tumulares consciências». Este não é o "lugar" para analisar com detalhe histórico-hermenêutico a crítica presencista de alguns escritores portugueses consagrados por críticos literários e por um público cegos que desconhecem o cânone que permite avaliar uma obra de arte. A cegueira estética é a categoria que os presencistas forjaram para condenar os críticos literários e o público que consagram obras de artistas portugueses medíocres, em nome de preocupações de ordem política, religiosa, patriótica, social e ética, todas elas alheias à arte: as expressões utilizadas para denunciar essas obras medíocres - tais como desvirtuar a criação artística, esconder o seu vazio, falta de imaginação psicológica, caricaturas mumificadas dos imitadores, pobreza de personalidade, impotência de criar,estreiteza de personalidade, velhice precoce, esterilização, sonhar ser o que não se é, comodismo, cansaço, insinceridade e tantas outras - reenviam para uma mesma noção: a estreiteza de personalidade de certos artistas portugueses não lhes permite criar obras originais. A densidade psicológica das personagens dos romances de Fiódor Dostoiévski ou a riqueza interior de Marcel Proust são constantemente lembradas por contraste à pobreza psicológica das personagens dos romances portugueses consagrados pelos críticos literários. Em 1935, Adolfo Casais Monteiro publicou um ensaio curioso onde criticava o filme de Leitão de Barros, As Pupilas do Senhor Reitor: «Que é "As Pupilas do Senhor Reitor", romance de Júlio Dinis? Uma simples história aldeã, não muito rica de episódios romanescos, mais descrição de "tipos" do que estudos de caracteres, mas contendo uma acção definida, pondo em relação de interdependência um certo número de seres humanos. Disto, que resta no filme? Onde vemos nós a personalidade às figuras humanas? Quando nos revelam a sua maneira de ser, a sua qualidade individual? Vagos fantasmas, só os distingue a aparência física: dizem duas coisas, choram ou riem, mas sem que o espectador possa compreender porquê». A questão que preocupava deveras a Presença - O que são os portugueses? - tem aqui a sua resposta adequada: Vagos Fantasmas ou, como diríamos hoje,zombies, que choram ou riem sem saber porquê. A concepção da arte como expressão sincera da individualidade artística dirige-se fundamentalmente à condenação da estreiteza de personalidade não só dos artistas portugueses consagrados, mas também dos portugueses em geral. A sinceridade como categoria estética não é uma invenção presencista: ela encontra-se elaborada nalguns dos "manifestos" da arte de vanguarda, nomeadamente no primeiro grande manifesto da poética do expressionismo, o de Hermann Bahr. A arte que grita nas trevas do desespero, pedindo socorro e invocando o espírito, é o expressionismo: o homem privado da sua alma pelo impressionismo volta a reabrir a sua boca para reclamar a expressão sincera da sua alma. Assim, por exemplo, no teatro, Frank Wedekind opôs às convenções, às normas, à respeitabilidade e à mentira da sociedade burguesa, a sinceridade das paixões e a violência dos impulsos primitivos, enquanto que, na poesia, Georg Trakl sublinhou a exigência de fugir à vulgaridade e à dureza da sociedade civil, através do refúgio no "reino inalienável do espírito", onde nenhuma força externa pode penetrar e gerar a desordem. Os expressionistas - sobretudo os membros dos grupos Die Brücke (A Ponte) e Blaue Reiter(Cavaleiro Azul) - gritavam contra a realidade social que privava o homem da sua alma: eles liam O Capital de Karl Marx. O carácter individualista da arte - o resgate da alma - reclamado por Stirner realiza-se e consuma-se na arte de vanguarda. A estética presencista esteve, pois, à altura dos tesouros do seu século, quando procurou restituir a alma ao homem lusitano, mas o seu grito esbarrou contra a surdez e a cegueira dos portugueses. A fatalidade de ser homem português silencia todos os nossos gritos de protesto contra o espírito insincero de manada predominante nestas terras inóspitas portuguesas. O movimento cultural que girou em torno da Presença ansiava pelamodernização de Portugal. Mas como se pode modernizar a cultura e amentalidade portuguesa sem transformar radicalmente as condições de existência social dos portugueses? Para educar, os educadores precisam, eles próprios, ser educados: a educação para a liberdade e para a autonomia ocorre ao mesmo tempo que se transformam as estruturas e as condições sociais que bloqueiam o desenvolvimento mental e cognitivo dos portugueses. Revolução cultural e revolução social - sim, Portugal ainda não realizou realmente a sua revolução! - implicam-se reciprocamente. Ainda hoje - mais de trinta anos depois do 25 de Abril de 1974 - podemos escutar o eco do Grito da Presença: É preciso dar uma alma notável aos portugueses!

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

POEMA DE ANTÓNIO FEIJÓ (1859-1917)-in O Citador







O Amor e o TempoPela montanha alcantilada 
Todos quatro em alegre companhia, 
O Amor, o Tempo, a minha Amada 
E eu subíamos um dia. 

Da minha Amada no gentil semblante 
Já se viam indícios de cansaço; 
O Amor passava-nos adiante 
E o Tempo acelerava o passo. 

— «Amor! Amor! mais devagar! 
Não corras tanto assim, que tão ligeira 
Não pode com certeza caminhar 
A minha doce companheira!» 

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados, 
Abrem as asas trémulas ao vento... 
— «Porque voais assim tão apressados? 
Onde vos dirigis?» — Nesse momento, 

Volta-se o Amor e diz com azedume: 
— «Tende paciência, amigos meus! 
Eu sempre tive este costume 
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus! 

António Feijó, in 'Sol de Inverno'

domingo, 11 de agosto de 2013

O REINADO DE D.DINIS-(via slide.share.net)

 D. Dinis – Lavrador e Trovador• DA HISTÓRIA DE PORTUGAL Quando o rei D. Dinis subiu ao trono, já tinham acabado as lutas com os mouros. No reinado de seu pai, D. Afonso III, os portugueses conquistaram definitivamente o Algarve, que era a região mais a sul. Assim, D. Dinis pôde reinar em paz. Ficou até conhecido como O Lavrador, porque tomou medidas para desenvolver a agricultura. Preocupou- se também com o desenvolvimento do comércio dentro do país, criando feiras, e desenvolveu o comércio entre Portugal e outros países da Europa, protegendo muito os mercadores. D. Dinis era um homem muito evoluído para o seu tempo, porque recebeu uma educação bastante completa. Veio até de frança um mestre chamado Emerico D’Erbard, de propósito, para o ensinar quando ele era ainda um príncipe. Talvez por isso tomou o gosto pela cultura e pela língua portuguesas. Foi ele quem ordenou que todos os documentos oficiais passassem a ser escritos em português e não em latim como era costume. Fundou a primeira universidade portuguesa. E na sua corte havia grande animação, pois o rei gostava de se ver rodeado de poetas e músicos que nessa época se chamavam jograis e trovadores. O próprio rei fazia versos muito bonitos, por isso alguns lhe camam «O Rei Poeta». Sua mulher, a rainha Santa Isabel, tornou-se célebre pela sua imensa bondade. Ocupava o tempo a fazer bem a quantos a rodeavam, visitando e tratando doentes, distribuindo esmolas pelos pobres. Foi ela quem teve a ideia de criar um «Hospital de Meninos» em Santarém. Conta a lenda que o rei, já irritado por ela andar sempre misturada com mendigos, a proibiu de dar mais esmolas. Mas certo dia, vendo-a sair furtivamente do palácio, foi atrás dela e prguntou o que levava escondido por baixo do manto. Era pão. Mas ela aflita por ter desobedecido ao rei, exclamou: - São rosas, senhor! - Rosas, em Janeiro? – duvidou ele. De olhos baixos, a rainha Santa Isabel abriu o regaço e o pão se tinha transformado em rosas, tão lindas como jamais se viram. in Uma visita à corte do rei D. Dinis PB / BIBLIOTECA ESCOLAR EPADD -

sábado, 10 de agosto de 2013

HISTÓRIA DE PORTUGAL: A DINASTIA AFONSINA (RESUMO)

Dinastia de Borgonha em Portugal[editar]

A Dinastia de Borgonha, também chamada Afonsina (pelo elevado número - quatro - de soberanos com o nome de Afonso) foi a primeira dinastia do Reino de Portugal. Começou em 1096, ainda como mero condado (autonomizado em reino em 1139-1143) e terminou em 1383. D. Afonso Henriques tornou-se Príncipe de Portugal depois de vencer os nobres galegos, os Peres de Trava, aliados de sua mãe, D. Teresa, na batalha de São Mamede em 1128. Foi apenas em 1179 que oPapa Alexandre III reconheceu Portugal como um Estado independente, o que na época era fundamental para a aceitação do reino no mundo cristão. D. Sancho I sucedeu a D. Afonso I, seu pai. À semelhança do anterior continuou o processo de Reconquista da Península Ibérica sob domínio Mouro. A D. Sancho I sucedeu D. Afonso II, seu filho. Em 1223 o seu filho D. Sancho Mendez II sucedeu-lhe. O reinado deste não durou muito tempo e em 1248 seu irmão subiu ao trono, D. Afonso Mendez III. Foi ele que terminou com a presença muçulmana em Portugal, re-adaptando o título de Rei de Portugal e do Algarve. Com as fronteiras do território definidas através do Tratado de Alcanizes (1297), D. Dinis, filho de Afonso III e herdeiro da coroa, começou um processo de exploração da terra do reino. Em 1325 sucedeu-lhe D. Afonso IV, cujo filho, D. Pedro I, protagonizou um dos episódios mais conhecidos da História de Portugal, que Luís de Camões incluiu n’Os Lusíadas, o amor de Pedro e Inês de Castro. Com a morte de D. Pedro I, o filho primogénito, D. Fernando subiu ao trono em 1367. Em 1383 sua filha, D. Beatriz, casou-se com João I de Castela, o que complicou a continuidade da dinastia. Em 1383, com a morte de D. Fernando, o reino entra em anarquia total, com a ameaça de anexação pelo reino de Castela. Após a eleição de D. João I como rei nas Cortes de Coimbra de 1385, considera-se iniciada uma nova dinastia, pela quebra na sucessão legítima, ainda que o novo soberano descendesse directamente do rei D. Pedro I. No ano de 1390 o Conde Pedro I vindo da Casa Real dos Mendes unificou o Reino de Portugal, por definitivo.

POEMA: MADRIGAL AO ANOITECER...









UM MADRIGAL, AO ANOITECER…


Ao rés da noite, o sol despede-se e o céu enche-se de estrelas
que fogem da solidão de um firmamento, a latejar.

Desperta a alma, em orquestra-flor-corpo!
Grinaldas de sentidos, enfeitadas de feitiços
cúmplices das madrugadas, encantam um vermelho cálice
dos instintos ,que se desfazem em madrigais de amor.
E nosso sono, acordado e intranquilo, embriaga-se de aromas do orvalho de Gaia
que vão surgindo em cada folha de vida, em pose-de-fervor.
                       *                Ao rés da noite,
                                                           nas dunas,
                                                                    mil gaivotas rumorejam
                                                                                                 numa túnica de luz,
                                                                                                             que o inquieto luar desfaz…  *


O vento quebra o espelho do mar,
 calmo a dormitar na cantiga das ondas de espessa e sensual escuma…

Mais ávidas de amor que de palavras de embalar
as sereias descobrem o peito-perfeito-de-ensombrar…
Nas cascatas, há risos de água, sonantes,
que teimam em cair nas lagoas do céu dos deuses,
entorpecidos pelo vinho de ambrósia amadurecida.
Quebra-se, então, a intimidade dos grãos -de-areia
onde os búzios amam,
afastados dos rumores das línguas de mar-maré-cheia…

                                                       *Ao rés da noite,
                                                        acordamos a suar sentidos embriagados
                                                        a disparar emoções…
                                                      - e o perfume cheira a ciúme________________________
                                                      -e os olhos são flores de lume_______________________
                                                      -e há magma de um vulcão a escorrer perdição!*


Maria Elisa R.Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)

REG-17CR-Abrl/013-(ERTS)  

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

POEMA: MELODIAS DA ÂNSIA

POEMA:MELODIAS DA ÂNSIA






MELODIAS DA ÂNSIA


.ânsia de espreitar
pela tarde
o repouso do teu olhar-

.a mão que esconde
o sol
acena aos pássaros-a-voar
brancos como areia
de praia engalanada
por espuma tropical-

.melodia aguda
do entardecer-a-expirar
numa arritmia,
do dia
no suspiro que estala no ar-

.corpo no erótico
da margem do
rumo do murmúrio,
de um mar caótico-

.vida em teia-baba
girândola espiral
do nascer o dia,
sem suposta resposta
do fragor sensual-

.um beijo convoca
a melodia da harpa
que geme a sonata humana…

…reaprender o Amor?
! só na respiração de tuas mãos
a navegarem meu leme
sem rumo
que geme as tempestades
vulcânicas de um oceano
de magma-sumo…



Maria Elisa R. Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)
CQ16-Mrç/013-(MR)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O PENSAMENTO DE EÇA DE QUEIRÓS










Política de Interesse


Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. 
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade. "


O pensamento de Eça de Queirós (1845-1900)-in O Citador

Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

POEMA: UMA MELODIA-A-FUGIR...










POEMA: UMA MELODIA-A-FUGIR...



UMA MELODIA-A-FUGIR…




Falam os ares atormentados, de Saudade,
engolindo ,em seco, lapsos de felicidade.
Alma ferida chora Horas em que o Momento não vem…
E repica o sino do lamento!

Eu era a música delicada com sabor de pele macia,
que se oferecia…

Mas os ares mudavam de direcção
e a minha desilusão crescia
roubando-me a natural harmonia…

(Parecia que uma fanfarra triste e assíntona se calou, dentro de mim!
Não saíam notas melodiosas de dentro da dor, sem fim…
Meu ego adormecido arredou a Alma…tecido de que sou feita…
Refeita…desfeita…numa solidão assim! -calada, dentro de mim…

Montanhas de desalento, atravessadas pelo Vento cortante,
queixam-se dessas rajadas de ar arrogante!
Tal tu, quando deixaste que um amor pujante
se desfizesse em pó de ar distante…

Musgos e líquenes,
fetos, urzes e abetos, esperam ver-me sorrir,
para voltarem a florir, na natural força do Renascer!

O rio, que tão contente, desliza entre colinas,
canta, chorando, a corrente fugidia,
dentro de margens definidas…
Lento cantar …que o leva para o Mar!

E eu, lama incandescente de um vulcão
sobre as colinas da Ilusão,
escorro, perenemente, para o Sonho de um abrigo!

Sonho desfeito nas areias de um deserto espiritual…

Piam mochos, nas nocturnas desgarradas do brilho das estrelas…
ainda apagadas.
Descansa a luz dos raios de luar, habituada a um constante viajar…

Tudo Sinto…Tudo vejo…Tudo vivo…
…mas não ESTOU aqui, COMIGO!

O brilho dos meus olhos mora nas alamedas
que percorro sozinha
sem ter uma mão na minha…
A lembrança do amor…arrebata-me,
tal a torrente impetuosa dos Sonhos em que sumimos!

O semblante de qualquer ser-amado é como o da Terra-mãe…
…lemos nele o que desejamos ler…
E eu li-me em ti…pedaço absurdo da Verdade da Vida!
Presunção de enamorada
namorada da cantiga mais apetecida…

Nunca estarás de Chegada…
Dei-te ordem de Partida!

Mas viajo, encantada, pela rota da Esperança
que é a crença na Vida!

É então que componho a minha Sonata!
Dedilho folhas de verdes ramos…
TOCCATA e FUGA!
Saem acordes divinos dos botões em flor
que germinam com o amor de meus dedos a acariciar
sua pele macia ,em acto de louvor!

Eu, pedaço da Natureza em acordes musicais,
sobrenaturais,
toco a música preferida…esta…a da Vida,
que se vê e que se sente
em quem não engana ou Mente!





Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)

C11L-23MRÇ) - 011

TEXTO SOBRE O AMOR DO escritor José Luís Peixoto












Escuta, Amor Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.

José Luís Peixoto, in 'Abraço' ---in O Citador-Foto Net