quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

POEMA:

 







CANTO A CHORAR

 

 

Dizem que chorei quando nasci.

Agora, canto para abafar as dores

E afastar os, mais que naturais, cansaços demolidores.

Canto deslizando a voz chorosa como as águas do rio,

E como as ondas do mar, que me querem levar. Canto,

Porque estou tão triste que,

 Se me alegro, não sei deixar de chorar. Estende-se meu sangue

Com uma voz poderosa, pela solidez da terra que nos ouve existir.

 

Na sua sólida harmonia ,pedem-me as ondas do mar, que cante

As rotas de viajar,as riquezas achadas, as ilhas sonhadas e todas as belezas

 não encontradas.

E eu canto...

Canto os batéis a despejarem bens nos naufrágios e nas areias dunais...

As canelas, as pimentas, os damascos-pano, os corais, os jasmins...e que mais?

 

Canto para afogar a dor de saber que os valentes nem sempre

Tornaram ao cais de partida...

Aos lenços de acenar o adeus à casa da lareira acesa, onde ,quente,

Esperava a pobre-riqueza do jantar.

 

Mesquinho formigar do Homem-do-Mundo

Que nada compreende

Do profundo canto da Cigarra do calor!

...e canto mais ainda o perfume do orvalho que me beija

Ao alvorecer,

 depois de ter fechado a noite sob as minhas pálpebras.

Canta o mundo a acordar os insectos, as ramas dos arbustos,

As oliveiras e as árvores de fruto.

 

Sento-me à mesa a tomar o café e canto o sabor...

...Só com as flores, nem me lembro de empalidecer...

 

 

 

©Maria Elisa Ribeiro

Direitos reservados

DEZ/2020

 

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