quarta-feira, 16 de março de 2022

Sobre Simone Veil e outros filósofos-artepensamento.ins.com.br






 Os gregos antigos e os romanos helenístas atribuem duas dimensões axiais ao olhar: o olhar receptivo (ver como receber) e o olhar ativo (ver como buscar, captar). No discurso de Lucrécio e Epicuro, figuras impalpáveis (simulacros) vêm ao encontro dos nossos olhos trazidos pela luz solar, estelar ou lunar. Tal chuva de simulacros possui um nome: conhecimento.

A física clássica do século XVII retoma a teoria atomística de Lucrécio. Mais adiante, no século XX, novas partículas nucleares proliferam e os físicos passam a procurar unidades básicas ainda mais fundamentais.

O olhar filosófico concebe em vez do plural, o uno. Em vez de milhões de partículas mutantes, um Ser primordial, Uno-Todo. Tal pensamento, elaborado pela dialética de Platão, tem seu fundo religioso e vem à tona pelo movimento de buscar no espírito a superação da finitude carnal.

O dilema, entre corpo e espírito, herdado da epistemologia antiga pelo racionalismo clássico, não se encontra no texto evangélico. A visão que contempla o homem, aqui e agora, alcança, nesse ato de percepção, a divindade, “que está no céu”, “que está no meio de vós” e “que está dentro de vós”.

A doutrina neoplatônica medieval para a qual a mortificação dos sentidos, o desapego a toda a fantasia e a renúncia ao prazer são condições necessárias para aceder à visio beatifica se apresenta problemática para a poesia religiosa, dependente de imagens esplendorosas e da força das paixões. A linguagem de Dante Aligheri, poeta católico, só é possível porque explora o olhar cristão originário pelo qual o Verbo se faz carne e habita entre nós. Na viagem de Dante as almas falam, são vistas, vêem, choram, suspiram, se manifestam fisicamente. Como isso é possível? Estácio, um escritor latino pagão, explica para Dante no Purgatório que as sombras dos seres formam corpos sutis mas de certo modo consistentes, pois suas “figuras” variam conforme seus desejos e angústias.

Na Renascença, o olhar/perspectiva. O olhar que vê a linha, a massa, o relevo, a proporção, os tons. A arte realiza a aliança de corpo e alma, aparência e transcendência que a encarnação cristã já havia anunciado.

No pensamento de Marx, de Kierkegaard, de Nietzsche, de Freud, de Max Weber, de Heidegger e de Sartre o olhar se situa no interior de uma existência finita e vulnerável, mas inquieta, interrogante. A psicanálise, a sociologia do saber, a antropologia cultural e algumas vertentes da fenomenologia da existência habitam o mesmo espaço.

Enquanto Sartre parte do olhar ferino do outro, cuja percepção necessariamente me coisifica (e daí me vem a certeza da sua temível existência), o olhar fenomenológico, segundo Merleau-Ponty, “envolve, apalpa, esposa as coisas visíveis” (O visível e o invisível).

O pensamento de Simone Weil se desloca para o eixo que vai de Espinosa a Hegel cujo discurso de sentido totalizante lhe serve para fundar uma teoria da ação. A filósofa propõe que a educação da atenção é o único meio para vencer a opressão na política e nos meios de produção. Seu discurso se baseia em quatro dimensões estruturais: a perseverança, o despojamento, o trabalho, a contradição.

O olhar fenomenológico e estético de Merleau-Ponty une corpo, alma e mundo. Para Simone Weil, essa união é uma reconquista que a divisão do trabalho e o Estado totalitário parecem tornar cada vez mais difícil.


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