sexta-feira, 11 de março de 2022

REFLEXÃO







 E hoje estou assim:

"O que venho fazer a esta página em branco, fria e inexpressiva? Um impulso me trouxe até aqui. Mas não brota a capacidade para gritar o que anda atravessado na minha garganta e no meu cérebro. Indignação? Revolta? Tristeza e lágrimas? Tudo insuficiente. Tintas que se derretem logo que tento dar-lhes corpo. A chuva a embebedar-se de sol e a escorregar desequilibrada pelas veredas da alma. Estou triste, sim, os meus olhos não suportam o que as imagens arremessam, a cada momento, ante o sofá, junto da lareira, onde crepita o calor e o bem-estar. Quase sinto vergonha do meu conforto e da minha inércia. Que seres abjectos habitam o mundo? E que Deus é este que assiste, silencioso e indiferente, a tanta desumanização? Venham falar-me do livre arbítrio, que explica o que não tem explicação: não, obrigada, não me convencem. Estou triste, sim. Tomara ir para além deste mísero desabafo. Olho as crianças, olho a dor estampada nos rostos de mulheres tão belas e desamparadas, e nasce em mim o desejo de as trazer para a minha sala, de lhes restituir o que lhes foi roubado, a dignidade e a alegria de ainda acreditarem na vida. Queria ser capaz de estender os meus braços, alongá-los até lá, enormes, elásticos, aquecer o corpinho daquele menino que atravessa o deserto do sofrimento, sozinho, mas caminhando, caminhando, caminhando. Não posso, não posso. Sou um pontinho invisível, neste oceano de loucura. Se chegares até mim, menino, eu abro-te os meus braços limitados no seu tamanho humano, mas sequiosos de corrigir a destruição organizada de certos monstros do Poder. Então, ó deuses, não fazeis nada?
11/3/2022.

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