EUA admitem cooperar com o Irão para travarjihadistas no Iraque
ANA FONSECA PEREIRA
16/06/2014 - 11:36
Países querem parar a progressão do ISIS, mas os seus interesses no terreno coincidem pouco para além disso.
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Confrontados com uma ameaça comum, os Estados Unidos e o Irão estudam a possibilidade de cooperarem para travar os jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS) e impedir que se aproximem de Bagdad. Um diálogo arriscado e cheio de condições, mas que oferece aos dois velhos inimigos um atalho para uma aproximação limitada.
O Presidente iraniano, Hassan Rohani, eleito o ano passado com a promessa de quebrar o círculo de isolamento do país, anunciou no sábado que Teerão admitia uma cooperação se visse da parte de Washington vontade para “agir contra os grupos terroristas”. A Administração de Barack Obama ainda não respondeu em público, mas no domingo uma fonte governamental norte-americana disse ao Wall Street Journal que os EUA se preparam para negociar directamente com o rival uma estratégia para travar os ultrafundamentalistas que, em menos de uma semana, tomaram várias cidades importantes do noroeste do Iraque.
Ambos prometeram apoio militar ao Governo de Nouri al-Maliki, ainda que os EUA tenham responsabilizado o primeiro-ministro iraquiano por ter fomentado a actual crise, ao alienar a minoria sunita ao ponto de muitos preferirem os jihadistas a um Governo dominado pelos xiitas. Até por isso,Obama exclui à partida a hipótese de voltar a enviar soldados para o Iraque, estando a ponderar “todas as opções” para além desta. Para já, deu ordens ao porta-aviões George HW Bush para se dirigir para o Golfo Pérsico e reforçou a segurança da sua embaixadas em Bagdad.
O Irão não confirma que meios pôs já à disposição de Maliki, mas fontes no terreno citadas pela estação britânica BBC dizem que 130 instrutores dos Guardas da Revolução estão já no país a dar formação aos voluntários xiitas que responderam aos apelos para se juntarem ao Exército na luta contra o ISIS.
A acontecer, o diálogo directo passará por Viena, onde as delegações dos dois países voltam a reunir-se nesta segunda-feira para continuar as negociações internacionais sobre o programa nuclear iraniano. Rohani definiu o espinhosodossier como prioridade na sua política de abertura e foi à margem das negociações que norte-americanos e iranianos voltaram a falar frente-a-frente, depois de mais três décadas de contactos esporádicos – sempre em sigilo e apenas em situações de crise.
O Wall Street acrescenta que Mohammad Zarif, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano e chefe da equipa de negociadores nucleares, serviu também de interlocutor com Washington depois dos atentados de 11 de Setembro – tal como acontece agora com o ISIS, os taliban eram radicais sunitas que os dois países tinham interesse em derrubar.
Diálogo arriscado
Um porta-voz da Casa Branca garantiu que não houve ainda contactos directos entre os dois países sobre a crise no Iraque, mas o Departamento de Estado reforçou a ideia de que o diálogo pode começar já nesta segunda-feira ao revelar que o subsecretário de Estado Bill Burns estará presente nas negociações de Viena. O chefe da diplomacia norte-americana, John Kerry, sublinhou, no entanto, que “qualquer diálogo que possa acontecer será à margem ou fora das negociações nucleares”. “Não queremos as coisas ligadas ou misturadas”, afirmou.
Mas esse não é, no entanto, o único risco de um diálogo necessariamente tenso. Washington sabe que qualquer sinal de aproximação ao Irão será mal vista pelos seus aliados na região – tanto as monarquias árabes como Israel –, da mesma forma que qualquer cooperação militar com a potência xiita poderá incendiar ainda mais a revolta da minoria sunita iraquiana, numa altura em que várias milícias e grupos rebeldes optaram por uma aliança de conveniência com os jihadistas.
A Administração Obama reconhece também que, para lá do objectivo comum de impedir que os jihadistas se aproximem de Bagdad, os dois países têm visões e interesses divergentes quer para o Iraque, quer para a região. Teerão não só apoia as políticas de Maliki que marginalizaram os sunitas como treina e financia as milícias xiitas que Bagdad usa contra a rebelião, compensando o mal equipado e desmoralizado Exército deixado pelos americanos.
Do outro lado da fronteira, os dois países apoiam campos opostos (o Irão o regime sírio, Washington a rebelião secular), ainda que tenham como inimigo comum o ISIS. “Este é um caso em que o inimigo do nosso inimigo continua a ser nosso inimigo”, disse ao Wall Street uma fonte do Pentágono, sublinhando que “quaisquer interesses comuns” que os EUA partilhem com o Irão “se limitam ao Iraque”.
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