quarta-feira, 25 de junho de 2014

Artigo de João Miguel Tavares


OPINIÃO
De BEStial a BESta


JOÃO MIGUEL TAVARES

24/06/2014 - 00:08


De nada vale pôr trancas ao galinheiro e deixar a raposa lá dentro. Sobretudo quando as raposas são muito mais do que as galinhas.




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O anúncio do nome de Amílcar Morais Pires para futuro líder do Banco Espírito Santo provocou um certo entusiasmo acrítico junto dos mais distraídos. Houve quem defendesse estarmos perante o fim de uma era. Houve quem celebrasse o abandono dos Espírito Santo da administração do BES. Houve até quem garantisse, como o professor Marcelo, que o nome de Morais Pires teria a bênção antecipada do Banco de Portugal. Diante de nós, pairaria enfim a solução para os problemas do banco mais emblemático do regime.

Mas será mesmo assim? Quando se olha com algum cuidado para a solução apresentada por Ricardo Salgado para o BES, cheira-me bem que não, não é assim. Para a liderança do banco, Salgado propôs o seu actual braço direito, Morais Pires, que, segundo nos informa o site do próprio BES, é responsável, entre outras áreas, pelo departamento financeiro e pelo controlo de gestão, função esta que é “partilhada com o Dr. Ricardo Espírito Santo Salgado” (sic). Além disso, Morais Pires assegura “a interligação com as sociedades BES Vida, BES Finance, BES Cayman, Bank Espírito Santo International, BIC International Bank”, e algumas mais.

O que o seu currículo não diz, mas o Ministério Público poderá confirmar, é que Morais Pires é arguido num processo de insider trading a propósito da compra de acções da EDP em Janeiro de 2008. Verdade seja dita que aquela administração é arguida praticamente de uma ponta à outra, e a habitual dificuldade de fazer prova em processos semelhantes faz supor que o caso vá acabar em absolvição. Mas quando se está à procura de uma figura idónea para liderar o banco, eu diria que ir buscar o administrador que tem a seu cargo as finanças do BES e a ligação a activos internacionais em boa parte responsáveis por um buraco no grupo que já se estima em 7300 milhões de euros, é capaz de não ser a melhor das ideias.

Mais: Salgado não propôs apenas o seu braço direito como solução para o banco. Propôs ainda a criação de um Conselho Estratégico remunerado onde pretende enfiar a família, e – cereja em cima do bolo – propôs o deputado do PSD Paulo Mota Pinto para chairman do BES, um cargo não executivo, mas de óbvia influência. E perguntam vocês: qual é a experiência de Paulo Mota Pinto no sector bancário? Resposta: nenhuma. Pior do que nenhuma: Mota Pinto é o actual presidente do conselho de fiscalização das secretas portuguesas. Ou seja, este é mais um daqueles saltinhos que a ética republicana dispensaria penhoradamente.

Claro que a ética republicana já viu melhores dias. E quanto à ética económica, então, nem se fala. Aquele que já foi o homem mais poderoso do país está a ver o dinheiro e a influência fugirem-lhe pelos dedos, mas recusa-se a sair de cena. Por um lado, óptimo: o buraco do BES não é justificável apenas com “negligência grave, mas não dolo” (Salgado dixit), e por isso é bom que seja ele a responder pelos seus erros, e não o seu contabilista. Por outro lado, péssimo: convém notar que a sua solução é uma não-solução. Se o Banco de Portugal está finalmente a fazer prova de vida, graças ao apoio do BCE e à necessidade de limpar a banca europeia (e ainda dizem que a crise não trouxe nada de bom), Carlos Costa não pode de forma alguma aceitar uma solução destas. Não é por acaso que as acções do BES estão a recuar para mínimos históricos desde sexta-feira. De nada vale pôr trancas ao galinheiro e deixar a raposa lá dentro. Sobretudo quando as raposas são muito mais do que as galinhas.

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