quinta-feira, 8 de maio de 2014
















OPINIÃO
Cavaco contra Cavaco


JOÃO MIGUEL TAVARES

08/05/2014 - 00:16


Quem há ano e meio andava a alertar o país para espirais recessivas e círculos viciosos deveria ter um pouco mais de pudor na hora de a troikase ir embora.




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Cavaco Silva foi ao Facebook colocar um grande like no fim do programa de ajustamento, ao mesmo tempo que aplicava alfinetadas em vários “políticos, comentadores e analistas” que andaram por aí a agoirar nos últimos tempos.

Escreveu a figura pública Aníbal Cavaco Silva: “O que mais me vem à memória, no dia de hoje, são as afirmações peremptórias [ou, na linguagem AO90 utilizada em Belém, “perentórias”] de agentes políticos, comentadores e analistas, nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora?”

Sim, o que dizem agora? Ora aqui está uma bela pergunta, até porque também a mim me vêm à memória “afirmações peremptórias”, desgostosas e quase apocalípticas de alguns “agentes políticos” sobre este tema – incluindo o próprio Presidente da República e uma muito famosa mensagem de Ano Novo, a 1 de Janeiro de 2013. Como a memória é curta e o próprio Cavaco aconselhava no Facebook a visitarmos a “página oficial da Presidência da República na Internet”, pareceu-me uma excelente ideia seguir a sua sugestão e recordar a todos os leitores o que ele dizia, não há muito tempo – menos de um ano e meio –, sobre o estado da economia nacional e a estratégia seguida pelo Governo.

E se efectuarmos este exercício, rapidamente concluímos que há aqui um curiosíssimo caso de auto-incriminação: o Cavaco Silva do Facebook de 2014 ataca violentamente o Cavaco Silva da página oficial da Presidência da República de 2013. Ora reparem: “Muitas famílias foram obrigadas a reduzir as suas despesas do dia-a-dia. Muitas pequenas e médias empresas encerraram as suas portas. Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego.” Ui, mas esperem lá, Cavaco Silva também falou em “espiral recessiva”? Sim, é verdade: o Cavaco Silva que hoje lança tão espampanantes foguetes há apenas ano e meio estava convencido de que não iria haver festa.

Para o caso de alguém ainda estar com dúvidas, aqui vai mais uma citação: “Um processo de redução do desequilíbrio das contas públicas acompanhado de um crescimento económico negativo tende a tornar-se socialmente insustentável. O próprio objectivo de equilíbrio das contas públicas torna-se mais difícil de alcançar, porque a austeridade orçamental conduz à queda da produção e à obtenção de menor receita fiscal. Segue-se mais austeridade para alcançar as metas do défice público, o que leva a novas quedas da produção e assim sucessivamente. É um círculo vicioso que temos de interromper.” Pois é. A espiral era “recessiva”, o círculo “vicioso” e Cavaco alinhava com Ferreira Leite, Bagão Félix e PS.

Lembro-me, aliás, de nessa altura ter escrito um texto intitulado “O Presidente Cavaco e o pensionista Silva” exactamente para apontar as contradições de um discurso que dava uma no cravo (a aprovação do Orçamento de 2013) e outra na ferradura (a convicção de que esse orçamento agravaria a crise económica, financeira e social). As pessoas podem mudar de ideias, como é óbvio, e os Presidentes são pessoas. Mas esta tendência de Cavaco para ir reescrevendo a sua própria História, de forma a colocar-se sempre do lado certo da fotografia, é muito irritante. Quem há ano e meio andava a alertar o país para espirais recessivas e círculos viciosos deveria ter um pouco mais de pudor na hora de a troika se ir embora.

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