terça-feira, 20 de maio de 2014

De Fernando Pessoa (obra ortónima)




Minha querida amiga Maria Elisa.
Como não tenho jeito para escrever poesia mas, gosto muito de todos os poemas que posta vou dedicar-lhe este poema de Fernando Pessoa. ( poeta que muito aprecio).

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê.
Quem sente não é quem é.

Atento ao que sou o vejo,
Torno-me eles e não sou eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem.
Diverso, móbil e só,
Nem sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li.
O que julguei que senti.
Releio e digo. "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa — com Maria Elisa Ribeiro.

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