terça-feira, 14 de junho de 2022


Extracto de um texto sobre o corpo,segundo Fernando Namora.

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 ...Por isso, o corpo - na sua unidade multifacetada - tornou-se um tema e um objecto de investigações históricas, sociológicas e antropológicas que reconhecem e acentuam que a relação com o eu, com os outros e com o mundo faz-se, e só pode fazer-se, com e pelo corpo. Ora, a medicina nunca teve outro objecto. De modo que aquilo que é uma surpresa e uma novidade para as ciências sociais é um tema antigo na literatura médica. E, como procurarei sustentar, enquanto a filosofia e a teologia insistiam na entificação diferenciada do corpo e do espírito, as artes de curar não o fizeram. É claro que as percepções do corpo doente e do corpo saudável foram mudando e que os limites que se colocavam à intervenção terapêutica, cirúrgica ou profiláctica se alargaram. Os sucessos da anatomia patológica, da técnica, da farmácia, da experimentação aprofundaram e aceleraram o processo de dessacralização dos corpos, sujeitos hoje a análises quantificadoras, a biópsias analíticas, a visualizações internas devassadoras, a cirurgias ressectivas e / ou reconstrutivas. Dir-se-ia, até, que pelos caminhos da especialização crescente, a medicina, hoje, envereda pelos caminhos da separação, distinguindo corpo e espírito, cada uma destas entidades ainda repartidas por um sem fim de especializações. Ao pesquisar as causas da doença, a medicina tende a situá-las ou no corpo ou na mente. Evidentemente, a medicina reconhece a interacção das duas e por isso a linguagem médica adoptou conceitos fragmentados: o bio-social, o psicossomático, o somato-social são expressões que pretendem dar conta das várias formas pelas quais os corpos exprimem o espírito individual ou os modos como o social se inscreve nos corpos(5)...

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