OUTRA LAVRA
Acordava cedo
e chegava ao rochedo no alto da montanha,
àquela ponta enxuta da falésia
onde onda nenhuma se atrevia a chegar,
fosse qual fosse a vontade do mar.
Sentava-me a ouvi-lo…eu, que sabia de cor
as suas tantas histórias passadas.
Olhos abertos sobre o horizonte a despontar,
via os braços do sol a libertarem-se
sobre o mundo, que tardava em acordar.
Aquele solão vermelho como boca de vulcão a vomitar,
parecia sair do fundo das águas azul-esverdeadas do
horizonte, que dividia o céu do mar.
Tal como quando me sentava à varanda a tomar
um fresco café para despertar,
este era um daqueles momentos que a vida nos põe na
concha das mãos, para nos encontrarmos connosco,
ao abrigo dos rumores dos pássaros a cantar
e das raízes da terra
a marulhar-o-germinar…
Do alto, via a planura imensa onde os lavradores,
atarefados, semeavam o
grão de milho e de trigo
…o nosso pão.
(Mãos doridas, mãos sofridas a chorar o sangue
do esforço de romper a terra…)
“Outra” lavra… esta dos navegadores do húmus…
os que punham as mãos em pala, sobre os olhos,
para sentirem se a
chuva estava para chegar.
*
Afazeres portugueses…
…afazeres com lágrimas no canto do olho…coisas de nada…
…areias imensas…o mundo inteiro-a-esperar…do princípio ao
fim…
…a espreitar o intervalo minúsculo entre os mares e as
praias
sulcadas em Português…desfeito em línguas africanas,
brasileiras,
malaias, pidgins de tantos outros humanos…*
Acordo cedo… Quero sentir os primeiros passos do mundo,
para poder pensar…
Aquela ponta enxuta da falésia continua à espera do que
sinto.
Ela espera-me, antes de qualquer Poema que possa escrever.
E o vento impele-me a apanhar, na face e nas mãos,
aquelas gotas de água de que necessita o lavrador, para
sentir que a sua poesia é tão trabalhosa e enigmática,
como um texto, em Português, de Clarice Lispector…
…a que Tudo pensou…a que tudo afirmava NÃO-saber…
…a que concluiu que não sabia Nada, pois pelo meio
havia um “OUTRO”mar, cheio de uma “Outra” Verdade…

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