segunda-feira, 14 de maio de 2018

Sobre o nosso José Régio...


De Massaud Moisés, sobre José Régio, in Pesquisa Net
...
No sucedâneo do primeiro grupo modernista português, surgiram poetas que
exploraram o mesmo enfrentamento, elaborando uma produção poética que tenta a
destituição da metafísica em favor da observação atenta ao indivíduo no exercício de
sua liberdade, velada unicamente pelo juiz da própria consciência. A esse grupo de
poetas a crítica tratou logo de nomear “Geração Presença”, posto que as primeiras
idéias foram publicadas na Revista Presença, em 1927. Desse grupo participaram os
dois poetas que destacaremos aqui para uma abordagem: José Régio e Miguel Torga.
Segundo José Régio, essa geração de escritores pregava uma arte livre, original,
em que o Ideal nada tivesse “com o do moralista, do patriota, do crente, ou do
cidadão” (apud. Moisés 2005: 258); contrário disso, precisaria se moldar à
individualidade, à consciência desperta e isenta de um parâmetro superior
estabelecido. A arte se vincula, dessa forma, mais fortemente ao ser-no-mundo,
particularizando a visão que se tem da realidade, de forma que ela seja multifacetada,
vária. O nada em que se apóia a realidade é dito por poetas que tentam preenchê-lo
com o acontecimento da palavra.
José Régio apresenta, em sua poesia, o homem mergulhado na relatividade,
carente do Absoluto. Há uma angústia nesse modo de viver, pois o vazio permanece e
é necessário viver, ainda que sem uma causa maior aparente. Daí deriva o
enfrentamento contínuo entre o eu pensante e a sua própria consciência. De acordo
com Massaud Moisés, “o debate íntimo nasce do fato de sentir a necessidade do
Absoluto, que lhe dá a medida de sua relatividade” (Moisés 2005: 260). Resta-lhe,
então, o desabafo; “a desesperança vence o orgulho, o poeta arrasta-se, despoja-se”
(idem).
O poema a ser analisado em seguida nos fornece um recorte dessa consciência
de si de que estamos falando, e que é comum ao poeta José Régio.
2.2 – “NÃO VOU POR AÍ...”
Há nítida relação entre o poema “Cântico Negro”, de José Régio, e o poema
“Lisbon Revisited (1923)”, de Álvaro de Campos. Certamente José Régio foi leitor de
Fernando Pessoa e, em contato com a produção heteronímica, extraiu dela aspectos
que viria a explorar em sua poética.
“Cântico Negro” pertence à obra inicial de José Régio e nos oferece uma síntese
quase completa da mundividência do poeta.
Cântico Negro
“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...(Continua)...

Sem comentários:

Enviar um comentário