segunda-feira, 9 de julho de 2018

Texto em Prosa Poética-- Obra Regªªªªªªªªªªªªª










IMPULSO


Ao longe, crescia a serra que, lentamente, ia perdendo aquela cor baça de elemento indistinto, à medida que o nevoeiro ia levantando. Entraria nela para poder conviver com a sua grandeza telúrica, com o rumor da sua voz natural e mística, com as rochas altas e musgosas, geometricamente indefinidas, com o ar quase irreal do mistério das origens
O mundo à minha volta pedia-me, naturalmente, a lucidez do deslumbramento.
Mas, quem pode dominar o impulso de um momento, em que toda a vida sabe a deslumbramento? Da fraga dura, anosa, sem idade precisa no mundo dos elementos, via o mar que me entrava nos sentidos, através de ondas de maresia que se ia espalhando pelos ares, tocadas pela força dos ventos. Incansáveis, insaciáveis de azul, as águas do oceano deambulavam pela baía em bolsas de mar largas e inquietas, que se projectavam ao sabor dos ventos correndo para trás e para diante, segundo a vontade das marés.
Os raios de sol, portadores do cheiro a malva-rosa que se desprendia da vida dos montes, batiam-me nos olhos e convidavam-me a entrar no feérico mundo-a-despertar nas asas das aves rumorosas, no sussurro das folhas nuas das árvores que se queixavam do frio do vento, no espectáculo natural do abrir das corolas das majestosas flores e no despertar dos fetos rodeados pelos verdes abetos.
Tudo funcionava no impulso natural da vida, no centro do mundo físico e metafísico que ali vivia no reverdecer das ervas da pontual Primavera do Ser. O Outono, o Inverno e o Verão pouco nos dizem de antemão. Sabemos, naturalmente, quando chegam, pelo que o corpo sente e nos diz. A Primavera é diferente…deixa-nos ver e saber o que ela mesma sente e vê!
Afinal, de longe, a serra prometia uma visão da própria Criação ao pôr-me as palavras no Ar, na Água , no Fogo e na Terra-em-que-Me-Sou. Minha inspiração maior não existe fora de uma particular simetria musical trazida pelo vento ao voo dos insectos ou à vida rumorosa de cada flor a abrir… Barco algum pode navegar por entre árvores disseminadas no silêncio das águas. Poema algum pode nascer sem que as palavras, por forte impulso, toquem a ponta dos dedos do poeta, que neles esconde a harmonia da pulsão do sangue a correr despejando sílabas no pleno voo da sua sinfonia…



Maria Elisa Ribeiro
Agosto/015


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