quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Depoimento de João Lobo Antunes sobre José Cardoso Pires, na NET












...









O grande choque, para mim, foi o seu discurso. Não havia dúvida, o José Cardoso Pires sofria de uma afasia fluente grave, ou seja, não era capaz de gerar as palavras e construir as frases que transmitissem as imagens e os pensamentos que algures no seu cérebro iam irrompendo A sua fala era um desconsolo: atabalhoada, incongruente, polvilhada de parafasias - palavras em que os fonemas estavam parcial ou totalmente substituídos. Sem fala, escrita e leitura, a Agência Lusa foi peremptória: morte cerebral, diagnóstico escandalosamente errado do ponto de vista médico, mas humanamente certeiro.

Também eu executei os tais testes, e lhe fiz as tais perguntas idiotas da praxe, para tentar perceber até onde a doença amordaçara a voz que tantas liberdades proclamava. Sei, agora, que uma nave espacial o tinha entretanto transportado para outra galáxia - metáfora que eu prefiro à sua, mais anedótica, da ilha dos três náufragos -, onde palavras como óculos, relógio, cama não tinham préstimo ou sentido, e onde, para designar todos os objectos conhecidos, e os mais que havia ainda por inventar, se aplicava o neologismo extraordinariamente eufónico que V. criara: "simoso".(...)

É claro que lhe podia enunciar cientificamente os possíveis mecanismos pelos quais se operou a sua "restitutio ad integrum". Não sei, nem para o caso importa muito, quais eles foram. Eu tenho duas outras explicações originais, uma talvez pouco científica, e a outra digna de mais madura reflexão.

A primeira é que V. simplesmente teve sorte, e não há nada de mal nisso.(...)

A segunda, é que a área que temporariamente V. deixou à sede e à fome, e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímio, era mais musculada que a do comum dos mortais. E isto não é treta, porque se sabe hoje que os donos do ouvido absoluto, que lhes permite identificação imediata de qualquer som - e Mozart tinha-o, e de forma admirável -, têm a área auditiva do córtex cerebral indiscutivelmente hipertrofiada.(...)







...




Toda a sua narrativa abala ainda mais os pilares em que se erigiu a Neurologia tradicional, que hoje só se mantém de pé por razões operacionais - e operatórias. De facto, o entendimento clássico é que uma lesão numa área determinada causa a perda de uma função específica, "ergo" esta função tem aí a sua sede. Haveria, assim, zonas eloquentes, de que fujo como o Diabo da cruz, já que a sua invasão equivale a desastre, e outras, chamadas na nossa ignorância de não-eloquentes, campo aberto para as minhas batalhas com o Inimigo.(...)

Sabe-se, hoje, que não existem centros individualizados, mas redes neuronais sincronizadas, ligando múltiplas áreas funcionais. Ao mesmo tempo, vamos tentando perceber a arquitectura neural de funções tão complexas como a consciência, a atenção, a vontade, a própria memória, para não falar já de outras, parece que únicas da raça. como o juízo moral ou o génio artístico.

Um dia, V. regressa, escritor que veio do branco, e imediatamente se põe a observar e a absorver, os dois passarões arruinados que o destino colocou ao seu lado, e enreda-os na sua trama criativa, instrumentos inocentes de uma terapia operacional que o redime. Aí, até eu participo, feito Godot ou General do seu labirinto. E a música de cena era a canção de esperança, "Forever", não o "Nevermore" do corvo agoirento. E foi retomando a leitura e a escrita, em pequenos passos, em golinhos servidos com delicadeza.

Estava finalmente pronto para a partida, recuperadas as coordenadas do espaço, do tempo e de todos os outros sentidos que são afinal mais que cinco. E Lisboa, que já dera por sua falta abre-lhe os braços.(...)

Uma última palavra. Para Keats, o desafio da poesia do futuro era "thinking into the human heart". Os cientistas deste e do próximo século sabem bem que a tarefa é "thinking into the human brain", pois continuamos todos sem saber porque é que o "binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo". Mas como dizia o personagem do nosso Eça, certas coisas não se sabem e é preferível não se saberem. Não será melhor assim?»

PIRES, José Cardoso, De Profundis, Valsa Lenta, do Prefácio de João Lobo Antunes, 1.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997, p. 69, pp. 7-18

Sem comentários:

Enviar um comentário