"As minhas palavras têm memórias ____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso _________o momento do mistério inquietante de me escrever"
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
POEMA GRANDIOSO DO NOSSO POETA JOSÉ RÉGIO:"CÂNTICO NEGRO"(através de WWW. releituras.com)
Cântico negro
José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos

Bagão Félix e o "roubo" das pensões-recebido por email
Trabalho notável . Não deixem de ler tudo. E não esqueçam ?
BAGÃO FÉLIX - TRIBUTAÇÃO SOBRE PENSÕES
Pelas razões da sua inegável oportunidade e importante valia da forma e do conteúdo, com a devida vénia, transcrevemos do? Público, o excelente artigo do Dr. António Bagão Félix.
A GROSSEIRA INCONSTITUCIONALIDADE
DA TRIBUTAÇÃO SOBRE PENSÕES
Aprovado o OE 2013, Portugal arrisca-se a entrar no "Guinness Fiscal" por força de um muito provavelmente caso único no planeta: a partir de um certo valor (1350 euros mensais), os pensionistas vão passar a pagar mais impostos do que outro qualquer tipo de rendimento, incluindo o de um salário de igual montante! Um atropelo fiscal inconstitucional, pois que o imposto pessoal é progressivo em função dos rendimentos do agregado familiar [art.º 104.º da CRP], mas não em função da situação activa ou inactiva do sujeito passivo e uma grosseira violação do princípio da igualdade [art.º 13.º da CRP].
Por exemplo: um reformado com uma pensão mensal de 2200 euros pagará mais 1045 ? de impostos do que se estivesse a trabalhar com igual salário (já agora, em termos comparativos com 2009, este pensionista viu aumentado em 90% o montante dos seus impostos e taxas!)..
Tudo isto por causa de uma falaciosamente denominada "contribuição extraordinária de solidariedade" (CES), que começa em 3,5% e pode chegar aos 50%. Um tributo que incidirá exclusivamente sobre as pensões. Da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações. Públicas e privadas. Obrigatórias ou resultantes de poupanças voluntárias. De base contributiva ou não, tratando-se por igual as que resultam de muitos e longos descontos e as que, sem esse esforço contributivo, advêm de bónus ou remunerações indirectas e diferidas.
Nas pensões, o Governo resolveu que tudo o que mexe leva! Indiscriminadamente. Mesmo - como é o caso - que não esteja previsto no memorando da troika.
Esta obsessão pelos reformados assume, nalguns casos, situações grotescas, para não lhes chamar outra coisa.
Por exemplo, há poucos anos, a Segurança Social disponibilizou a oferta dos chamados "certificados de reforma" que dão origem a pensões complementares públicas para quem livremente tenha optado por descontar mais 2% ou 4% do seu salário. Com a CES, o Governo decide fazer incidir mais impostos sobre esta poupança do que sobre outra qualquer opção de aforro que as pessoas pudessem fazer com o mesmo valor...
Ou seja, o Estado incentiva a procura de um regime público de capitalização (sublinho, público) e logo a seguir dá-lhe o golpe mortal. Noutros casos, trata-se - não há outra maneira de o dizer - de um desvio de fundos através de uma lei: refiro-me às prestações que resultam de planos de pensões contributivos em que já estão actuarialmente assegurados os activos que caucionam as responsabilidades com os beneficiários.
Neste caso, o que se está a tributar é um valor que já pertence ao beneficiário, embora este o esteja a receber diferidamente ao longo da sua vida restante. Ora, o que vai acontecer é o desplante legal de parte desses valores serem transferidos (desviados), através da dita CES, para a Caixa Geral de Aposentações ou para o Instituto de Gestão Financeira da S. Social!
O curioso é que, nos planos de pensões com a opção pelo pagamento da totalidade do montante capitalizado em vez de uma renda ou pensão ao longo do tempo, quem resolveu confiar recebendo prudente e mensalmente o valor a que tem direito verá a sua escolha ser penalizada. Um castigo acrescido para quem poupa.
Haverá casos em que a soma de todos os tributos numa cascata sem decoro (IRS com novos escalões, sobretaxa de 3,5%, taxa adicional de solidariedade de 2,5% em IRS, contribuição extraordinária de solidariedade (CES), suspensão de 9/10 de um dos subsídios que começa gradualmente por ser aplicado a partir de 600 euros de pensão mensal!) poderá representar uma taxa marginal de impostos de cerca de 80%!
Um cataclismo tributário que só atinge reformados e não rendimentos de trabalho, de capital ou de outra qualquer natureza! Sendo confiscatório, é também claramente inconstitucional. Aliás, a própria CES não é uma contribuição. É pura e simplesmente um imposto.
Chamar-lhe contribuição é um ardil mentiroso. Uma contribuição ou taxa pressupõe uma contrapartida, tem uma natureza sinalagmática ou comutativa. Por isso, está ferida de uma outra inconstitucionalidade. É que o já citado art.º 104.º da CRP diz que o imposto sobre o rendimento pessoal é único.
Estranhamente, os partidos e as forças sindicais secundarizaram ou omitiram esta situação de flagrante iniquidade. Por um lado, porque acham que lhes fica mal defender reformados ou pensionistas desde que as suas pensões (ainda que contributivas) ultrapassem o limiar da pobreza. Por outro, porque tem a ver com pessoas que já não fazem greves, não agitam os media, não têm lobbies organizados.
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Pela mesma lógica, quando se fala em redução da despesa pública há uma concentração da discussão sempre em torno da sustentabilidade do Estado social (como se tudo o resto fosse auto-sustentável...). Porque, afinal, os seus beneficiários são os velhos, os desempregados, os doentes, os pobres, os inválidos, os deficientes... os que não têm voz nem fazem grandiosas manifestações. E porque aqui não há embaraços ou condicionantes como há com parcerias público-privadas, escritórios de advogados, banqueiros, grupos de pressão, estivadores. É fácil ser corajoso com quem não se pode defender.
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Foi lamentável que os deputados da maioria (na qual votei) tenham deixado passar normas fiscais deste jaez mais próprias de um socialismo fiscal absoluto e produto de obsessão fundamentalista, insensibilidade, descontextualização social e estrita visão de curto prazo do ministro das Finanças.
E pena é que também o ministro da Segurança Social não tenha dito uma palavra sobre tudo isto, permitindo a consagração de uma medida que prejudica seriamente uma visão estratégica para o futuro da Segurança Social. Quem vai a partir de agora acreditar na bondade de regimes complementares ou da introdução do "plafonamento", depois de ter sido ferida de morte a confiança como sua base indissociável?
Confiança que agora é violada grosseiramente por ditames fiscais aos ziguezagues sem consistência, alterando pelo abuso do poder as regras de jogo e defraudando irreversivelmente expectativas legitimamente construídas com esforço e renúncia ao consumo.
Depois da abortada tentativa de destruir o contributivismo com o aumento da TSU em 7%, eis nova tentativa de o fazer por via desta nova avalanche fiscal. E logo agora, num tempo em que o Governo diz querer "refundar" o Estado Social, certamente pensando (?) numa cultura previdencial de partilha de riscos que complemente a protecção pública. Não há rumo, tudo é medido pela única bitola de mais e mais impostos de um Estado insaciável.
Há ainda outro efeito colateral que não pode ser ignorado, antes deve ser prevenido: é que foram oferecidos poderosos argumentos para "legitimar" a evasão contributiva no financiamento das pensões. "Afinal, contribuir para quê?", dirão os mais afoitos e atentos. Este é mais um resultado de uma política de receitas "custe o que custar" e não de uma política fiscal com pés e cabeça.
Um abuso de poder sobre pessoas quase tratadas como párias e que, na sua larga maioria, já não têm qualquer possibilidade de reverter a situação. Uma vergonha imprópria de um Estado de Direito. Um grosseiro conjunto de inconstitucionalidades que pode e deve ser endereçado ao Tribunal Constitucional.
PS1: Com a antecipação em "cima da hora" da passagem da idade de aposentação dos 64 para os 65 anos na função pública já em 2013 (até agora prevista para 2014), o Governo evidencia uma enorme falta de respeito pela vida das pessoas. Basta imaginar alguém que completa 64 anos em Janeiro do próximo ano e que preparou a sua vida pessoal e familiar para se aposentar nessa altura. No dia 31 de Dezembro, o Estado, através do OE, vai dizer-lhe que, afinal, não pode aposentar-se.
Ou melhor, em alguns casos até poderá fazê-lo, só que com penalização, que é, de facto, o que cinicamente se pretende com a alteração da lei. Uma esperteza que fica mal a um Governo que se quer dar ao respeito.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
POETAS PORTUGUESES: FLORBELA ESPANCA

Poema de Florbela Espanca :
"Aos olhos dele
Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa;
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!
Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:
Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!"
Florbela Espanca - Citações e Pensamentos-NET
EsPEREMOS QUE ISSO TENHA REPERCUSSÕES, NESTE MOMENTO EM QUE OS PORTUGUESES ESTÃO"COM A CORDA AO PESCOÇO"!
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terça-feira, 17 de setembro de 2013
POEMA(MEU), a recordar. "O AR RASTEJA"


O AR RASTEJA
…e eu voltei nele, como árvore a reviver,
ao explorar a luz do prazer de respirar.
Plantei-me no húmus da floresta-giesta-em-flor
efervescente de odores, do tempo abolido no Outono passado,
em nevoeiros iridiscentes…
O ar rastejava na floresta deitada ao sol,
que abria as portas da vida ao druidico ambiente
aquecendo os orvalhos que ,
lentamente, deslizavam pelas folhas em ténue corrente…
Encho-me de ar puro, que deixo rastejar em mim…
Sorvo calor, numa doce dolência, assente em delírios de sensações,
estímulos tão naturais como o doce caminhar dos ribeiros de lisos leitos,
desfeitos nos seixos… ao som da LUA-QUARTO-CRESCENTE…
(…e tu, já não estás presente no meu Presente…)
Uma espiral de insectos gira em torno de uma flor suculenta…
…sensual bailado de borboletas em-cio-vida
lembra o suspirar das árvores entrelaçadas, como par enamorado
em abraço de amor.
Aranhas entorpecidas acordam nas brisas e passeiam
nas teias vivas tecendo conspirações…
Altas e maduras, as relvas onde brincámos recordam
alegrias sem ambições …pura ternura dos nossos corações.
Não esqueci, amor, as gargalhadas sonoras, molhadas de vida,
nas horas do sorrir da natureza aos nossos raios de sol.
Aprendi, com o tempo a seguir os trilhos do odor de ti, pormenor –de-mim…
Oiço o rastejar do ar que suspira por te reviver.
…tenho-te ainda na poesia desnuda…
…emigro de letra em letra na palavra que soletra sílabas
que grito, chamando por ti…
Perante meu espelho interior, nua no meu pudor a descoberto,
vejo o reverso de mim.
.o presente tem-me aqui.
.o taciturno passado fala de ti e dói o Futuro que não vi.
De dentro das rochas prenhes de areia, ressalta o rumor de uma canção de amor
onde serei o que tu podes querer…na ânsia de viver.
Maria Elisa Ribeiro
R-C13N- (vds) -FEV/012-33
Marilisa Ribeiro
FAZ HOJE ANOS, QUE NASCEU O NOSSO GRANDE GUERRA JUNQUEIRO (1850-1923)
EvoluçãoArde o corpo do sol, brotam feixes de luz:
O que é a luz?
Sol que morreu.
Dardeja a luz, dardeja e pulveriza a fraga:
Vai nesse pó, que há-de ser terra,
A luz extinta.
Gerou a terra a seara verde:
Hastes e folhas da seara verde
Comeram terra.
A seara é grada, o trigo é loiro:
Deu trigo loiro,
Morrendo ela.
O trigo é pão, é carne e é sangue:
Sangue vermelho, carne vermelha,
Trigo defunto.
Em carne e em sangue, eis o desejo:
Vive o desejo,
De carne morta.
Arde o desejo, eis o pecado:
Que são pecados?
Desejos mortos.
Queima o pecado o pecador:
Nasceu a dor; findou na dor
Pecado e morte.
A alma branca, iluminada,
Transfigurada pela dor,
Essa não vai à sepultura
Porque é já Deus na criatura,
Porque é o Espírito, é o Amor.
Na vida vã da terra sepulcral
Só o amor é infinito e só ele é imortal.
Morreu a luz, pulverizando a fraga,
Morreu a poeira, alimentando a seara;
Morreu a seara, que gerou o trigo;
Morreu o trigo, que deu vida à carne;
Morreu a carne, que nutriu desejo;
Morreu desejo, que se fez pecado;
Morreu pecado, que floriu em dor;
Morreu a dor, para nascer o Amor!
E só o Amor na vida sepulcral
É infinito e é imortal!
Guerra Junqueiro, in 'Poesias Dispersas'
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
O pensamento de Blaise Pascal
O Pensamento de Blaise Pascal (1623-1662):
(via NET)
"A Nossa Dignidade Consiste no Pensamento
O homem é apenas um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para o aniquilar: um vapor, uma gota de água, bastam para o matar. Mas quando o universo o aniquilasse o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque sabe que morre, e a superioridade que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso.
Toda a nossa dignidade consiste portanto no pensamento. É daí que deveremos elevar-nos e não do espaço e do tempo, que não poderíamos preencher. Esforcemo-nos pois por pensar bem: eis o princípio da moral."
Blaise Pascal, in "Pensamentos"
(via NET)
"A Nossa Dignidade Consiste no Pensamento
O homem é apenas um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para o aniquilar: um vapor, uma gota de água, bastam para o matar. Mas quando o universo o aniquilasse o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque sabe que morre, e a superioridade que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso.
Toda a nossa dignidade consiste portanto no pensamento. É daí que deveremos elevar-nos e não do espaço e do tempo, que não poderíamos preencher. Esforcemo-nos pois por pensar bem: eis o princípio da moral."
Blaise Pascal, in "Pensamentos"
POEMA: VIAGENS...
VIAGENS…
Correr madrugadas raiadas de ansiedade, a saudar estrelas
___________________adormecidas_________________
____ao som da vacuidade da luz enfraquecida____
Saltar nas águas do mar, a repousar o olhar entontecido
____dos deuses e das ninfas que já não sabem navegar____
Saudar as montanhas vivas de cor, no temor ágil de não
___saberem renascer, ao som dos ventos-a-correr___
_________por entre copas floridas___________
(Abrir janelas no céu, para descobrir onde nasce a luz dos olhos teus…)
Sorrir às flores graciosas, conscientes de formosura,
________pejadas de tons rosa- florescente__________
___a descansar ,por momentos, em naves-corolas-quentes___
Viajar nas águas calmas e limpas do ribeiro da Verdade,
______que se esconde da universal claridade______
___ao deslizar, perenemente, para um mar de eternidade___
Ser –Eu,
na demanda do amor que, indiferente,
vai pousando, alegremente, de flor-em-flor,
nas asas das borboletas-a-desvendarem-aromas de fervor…
Ligar verbos, no Poema…
Construir casas-lexemas…
Pontuar e Ser-Mensagem,que desnuda o Interior…
Não esquecer Nunca –Nunca !que
“Ser-poeta-é-ser-maior”…
Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)
REG:48CP/MSG/AGT/013
domingo, 15 de setembro de 2013
DO JORNALISTA HENRIQUE MONTEIRO, ATRAVÉS DO JORNAL" EXPRESSO"
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A imoralidade do corte das pensões (e outras imoralidades)
Henrique Monteiro 9:00 Domingo, 15 de setembro de 2013
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TEXTOAAIMPRIMIRENVIAR
Há um certo consenso sobre a imoralidade inerente ao corte de pensões. Por um lado, porque há uma quebra de confiança num contrato com o Estado; porque atinge pessoas que não têm idade nem capacidade de, contando com aqueles rendimentos, poderem ir buscar outros (arranjar emprego, emigrar, fazer biscates); porque, enfim, a maioria não tem organizações representativas que os defendam, que façam lóbi.
Ou seja, que a medida é imoral não me levanta dúvidas.
O problema é o que fazer para cortar a despesa do Estado. Henrique Medina Carreira que foi visto como uma Cassandra, mas que é hoje evidente que tinha razão, afirmava há anos que só havia duas maneiras de equilibrar as contas - cortar nos salários da administração pública e nas prestações sociais (porque isso corresponde a quase 80% da despesa). Claro que há muito por fazer noutros setores, nomeadamente em privilégios inacreditáveis que subsistem (e que por não terem ainda sido feitos, tornam o corte das pensões ainda mais imoral).
É vergonhoso que um país tenha chegado a esta situação, da qual, mesmo a crescer 1% como aconteceu no último trimestre, demorará oito anos a sair. Tem de haver culpados -e não só no BPN e não só na banca; e não só na regulação do Estado sobre a banca; e não só na construção civil e nas traficâncias entre os partidos os empreiteiros. Era preciso haver Justiça, porque toda a política se faz para que haja justiça. Para que - havendo mais ricos e mais pobres - isso decorra da Justiça do esforço, da capacidade, do conhecimento, da criatividade serem recompensados. Mas em Portugal nada disto é recompensado, porque os impostos chegaram a níveis extrativos em que o Estado saca aos trabalhadores esforçados e preparados, metade, dois terços ou mais daquilo que o patrão gasta com eles. E isto também é imoral porque obriga um indivíduo a entregar cada vez mais dinheiro ao Estado em troca de cada vez menos.
Curiosamente, o corte nas pensões - que escandaliza (e bem) tantas personalidades, elas próprias pensionistas - leva a que o líder da oposição venha dizer (sem saber se o pode fazer) que reporá a situação anterior quando for Governo. Mas não ouço ninguém prometer o resto.
Ou seja, prometer-me a mim e aos muitos que estão na minha situação:
1) Que repõem os impostos ao nível de, digamos, 2002;
2) Que repõem a perspetiva de reforma que eu tinha quando já trabalhava, por exemplo, há 30 anos (2008);
3) Que devolvem as deduções aos impostos que tínhamos direito quando ganhávamos, em termos líquidos e absolutos, mais do que hoje;
Porque isto não é menos imoral do que o prometido aos reformados. É que, ainda menos do que aqueles, os quadros médios, os trabalhadores por conta de outrem que têm salários razoáveis ou bons, acima da baixíssima média portuguesa, são provavelmente os mais entalados nesta crise e ninguém os defende. Nem as associações patronais, a que não pertencem, nem os sindicatos que os têm por feitos com o patronato. Aqueles que, como eu, dentro dos oito anos que isto leva a compor-se, já entraram na idade legal da reforma, nem esperança têm.
E aqui têm porque já nem sequer me indigno.
Eu sei que isto vai ser cada vez pior.
Não tenho dúvidas. O britânico Antony Beevor, um dos grandes historiadores do nosso mundo, dizia sexta-feira ao 'Diário de Notícias' esta ideia que eu (com a devida vénia, como se dizia) aqui deixo para reflexão: "Na Europa, nos últimos tempos, começámos a convencer-nos de que um certo nível de vida se tornou, de alguma forma, um direito humano básico (...) A presunção de que iremos continuar a usufruir de um certo estilo de vida simplesmente porque vivemos na Europa é uma ilusão perigosa. Não podemos pôr de parte a possibilidade de partes da Europa poderem vir a regredir para os níveis dos países em desenvolvimento".
Há ainda quem pense que se trata apenas de uma conspiração. Mas para quem conhece o mundo isto é muito claro.
Twitter:@HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro Facebook:http://www.facebook.com/pages/Henrique-Monteiro/122751817808469?ref=hl
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-imoralidade-do-corte-das-pensoes-e-outras-imoralidades=f830456#ixzz2ezD5kWcz
Poema da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
Esta GenteEsta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"
O pensamento do nosso poeta EUGÉNIO de ANDRADE(1923-2005)
Fragmento do HomemQue tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão. "
Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio'
sábado, 14 de setembro de 2013
O Pensamento do nosso filósofo Agostinho da Silva
Pensamento de Agostinho da Silva

1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas, embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades.
2. A visão mais alta que podemos ter com Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus.
3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm adiante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.
4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização, social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito critico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para um bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.
(in “A Doutrina Cristã” editado em 1943)
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
POEMA: AZUL-VIDA

POEMA
POEMA: AZUL DA VIDA
AZUL DA VIDA
Dispersa-se, o azul da vida,
por colinas que falam aragens,
nevoeiros densos, intensos,
brumas a desvendar…
Meu AZUL…MINHA MÍSTICA-RIZOMÁTICA
que IRRADIA para espaços, gentes e lugares…
EU, CENTRO DO MUNDO, DO MEU MUNDO…
Vulcão profundo da POESIA lateral,
lanço minha lava natural pelas colinas da vida
por onde o FOGO vai passar!
Meu mistério, de azul vestido,
É minha COLECTÂNEA DE PALAVRAS.
Com elas me torno EU, a caminhar para o MUNDO,
CENTRO DE MIM…NO CENTRO DELE!
Navego –me numa eterna circum-navegação,
Na escolha de vocábulos que sirvam a transformação,
Em ELEMENTOS DE UNIÃO ENTRE O NADA E A MENSAGEM
DA CORAGEM DE VIVER-SOBREVIVER-ESTAR/SENDO.
ODISSEIA DOS SIGNOS LINGUÍSTICOS
Que contam histórias como a MINHA
E a de todos os UNIVERSAIS-USANTES-DO-PLANETA-LINGUÍSTICO.
Tocam TAMBORES-NO-RUMOR-DA-HUMANA-VONTADE-DE- ENTENDER…
CENTRO CÓSMICO…
…EU ACONTEÇO na MENSAGEM que crio----------------------------------
LUZ-ENTENDIMENTO CREPUSCULAR-----------------------------------------
Verdade a brilhar no TEMPO –A- RETOMAR –O- SEU CURSO-
NO RUÍDO DO RELÓGIO MÍSTICO-------------------------------------------------
PALAVRA- empreendimento - feito-de-astúcia------FADO/PERIGO
No meu descer AO INFERNO DA VERDADE!
Pelo caminho, mato males que vulcanizam MENSAGENS-AMOR.
ESCORREM LAVAS VELHAS…
RESSURGEM VOCÁBULOS COM VONTADE DE CAMINHAR!
VAI, POETA! LEVA AS PALAVRAS! SOLTA-AS!
C10J-12-JAN/011(MSG)
Maria Elisa R. Ribeiro
(Marilisa Ribeiro) —
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
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![Foto: Bagão Félix e o "roubo" das pensões-recebido por email
Trabalho notável . Não deixem de ler tudo. E não esqueçam ?
BAGÃO FÉLIX - TRIBUTAÇÃO SOBRE PENSÕES
Pelas razões da sua inegável oportunidade e importante valia da forma e do conteúdo, com a devida vénia, transcrevemos do? Público, o excelente artigo do Dr. António Bagão Félix.
A GROSSEIRA INCONSTITUCIONALIDADE
DA TRIBUTAÇÃO SOBRE PENSÕES
Aprovado o OE 2013, Portugal arrisca-se a entrar no "Guinness Fiscal" por força de um muito provavelmente caso único no planeta: a partir de um certo valor (1350 euros mensais), os pensionistas vão passar a pagar mais impostos do que outro qualquer tipo de rendimento, incluindo o de um salário de igual montante! Um atropelo fiscal inconstitucional, pois que o imposto pessoal é progressivo em função dos rendimentos do agregado familiar [art.º 104.º da CRP], mas não em função da situação activa ou inactiva do sujeito passivo e uma grosseira violação do princípio da igualdade [art.º 13.º da CRP].
Por exemplo: um reformado com uma pensão mensal de 2200 euros pagará mais 1045 ? de impostos do que se estivesse a trabalhar com igual salário (já agora, em termos comparativos com 2009, este pensionista viu aumentado em 90% o montante dos seus impostos e taxas!)..
Tudo isto por causa de uma falaciosamente denominada "contribuição extraordinária de solidariedade" (CES), que começa em 3,5% e pode chegar aos 50%. Um tributo que incidirá exclusivamente sobre as pensões. Da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações. Públicas e privadas. Obrigatórias ou resultantes de poupanças voluntárias. De base contributiva ou não, tratando-se por igual as que resultam de muitos e longos descontos e as que, sem esse esforço contributivo, advêm de bónus ou remunerações indirectas e diferidas.
Nas pensões, o Governo resolveu que tudo o que mexe leva! Indiscriminadamente. Mesmo - como é o caso - que não esteja previsto no memorando da troika.
Esta obsessão pelos reformados assume, nalguns casos, situações grotescas, para não lhes chamar outra coisa.
Por exemplo, há poucos anos, a Segurança Social disponibilizou a oferta dos chamados "certificados de reforma" que dão origem a pensões complementares públicas para quem livremente tenha optado por descontar mais 2% ou 4% do seu salário. Com a CES, o Governo decide fazer incidir mais impostos sobre esta poupança do que sobre outra qualquer opção de aforro que as pessoas pudessem fazer com o mesmo valor...
Ou seja, o Estado incentiva a procura de um regime público de capitalização (sublinho, público) e logo a seguir dá-lhe o golpe mortal. Noutros casos, trata-se - não há outra maneira de o dizer - de um desvio de fundos através de uma lei: refiro-me às prestações que resultam de planos de pensões contributivos em que já estão actuarialmente assegurados os activos que caucionam as responsabilidades com os beneficiários.
Neste caso, o que se está a tributar é um valor que já pertence ao beneficiário, embora este o esteja a receber diferidamente ao longo da sua vida restante. Ora, o que vai acontecer é o desplante legal de parte desses valores serem transferidos (desviados), através da dita CES, para a Caixa Geral de Aposentações ou para o Instituto de Gestão Financeira da S. Social!
O curioso é que, nos planos de pensões com a opção pelo pagamento da totalidade do montante capitalizado em vez de uma renda ou pensão ao longo do tempo, quem resolveu confiar recebendo prudente e mensalmente o valor a que tem direito verá a sua escolha ser penalizada. Um castigo acrescido para quem poupa.
Haverá casos em que a soma de todos os tributos numa cascata sem decoro (IRS com novos escalões, sobretaxa de 3,5%, taxa adicional de solidariedade de 2,5% em IRS, contribuição extraordinária de solidariedade (CES), suspensão de 9/10 de um dos subsídios que começa gradualmente por ser aplicado a partir de 600 euros de pensão mensal!) poderá representar uma taxa marginal de impostos de cerca de 80%!
Um cataclismo tributário que só atinge reformados e não rendimentos de trabalho, de capital ou de outra qualquer natureza! Sendo confiscatório, é também claramente inconstitucional. Aliás, a própria CES não é uma contribuição. É pura e simplesmente um imposto.
Chamar-lhe contribuição é um ardil mentiroso. Uma contribuição ou taxa pressupõe uma contrapartida, tem uma natureza sinalagmática ou comutativa. Por isso, está ferida de uma outra inconstitucionalidade. É que o já citado art.º 104.º da CRP diz que o imposto sobre o rendimento pessoal é único.
Estranhamente, os partidos e as forças sindicais secundarizaram ou omitiram esta situação de flagrante iniquidade. Por um lado, porque acham que lhes fica mal defender reformados ou pensionistas desde que as suas pensões (ainda que contributivas) ultrapassem o limiar da pobreza. Por outro, porque tem a ver com pessoas que já não fazem greves, não agitam os media, não têm lobbies organizados.
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Pela mesma lógica, quando se fala em redução da despesa pública há uma concentração da discussão sempre em torno da sustentabilidade do Estado social (como se tudo o resto fosse auto-sustentável...). Porque, afinal, os seus beneficiários são os velhos, os desempregados, os doentes, os pobres, os inválidos, os deficientes... os que não têm voz nem fazem grandiosas manifestações. E porque aqui não há embaraços ou condicionantes como há com parcerias público-privadas, escritórios de advogados, banqueiros, grupos de pressão, estivadores. É fácil ser corajoso com quem não se pode defender.
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Foi lamentável que os deputados da maioria (na qual votei) tenham deixado passar normas fiscais deste jaez mais próprias de um socialismo fiscal absoluto e produto de obsessão fundamentalista, insensibilidade, descontextualização social e estrita visão de curto prazo do ministro das Finanças.
E pena é que também o ministro da Segurança Social não tenha dito uma palavra sobre tudo isto, permitindo a consagração de uma medida que prejudica seriamente uma visão estratégica para o futuro da Segurança Social. Quem vai a partir de agora acreditar na bondade de regimes complementares ou da introdução do "plafonamento", depois de ter sido ferida de morte a confiança como sua base indissociável?
Confiança que agora é violada grosseiramente por ditames fiscais aos ziguezagues sem consistência, alterando pelo abuso do poder as regras de jogo e defraudando irreversivelmente expectativas legitimamente construídas com esforço e renúncia ao consumo.
Depois da abortada tentativa de destruir o contributivismo com o aumento da TSU em 7%, eis nova tentativa de o fazer por via desta nova avalanche fiscal. E logo agora, num tempo em que o Governo diz querer "refundar" o Estado Social, certamente pensando (?) numa cultura previdencial de partilha de riscos que complemente a protecção pública. Não há rumo, tudo é medido pela única bitola de mais e mais impostos de um Estado insaciável.
Há ainda outro efeito colateral que não pode ser ignorado, antes deve ser prevenido: é que foram oferecidos poderosos argumentos para "legitimar" a evasão contributiva no financiamento das pensões. "Afinal, contribuir para quê?", dirão os mais afoitos e atentos. Este é mais um resultado de uma política de receitas "custe o que custar" e não de uma política fiscal com pés e cabeça.
Um abuso de poder sobre pessoas quase tratadas como párias e que, na sua larga maioria, já não têm qualquer possibilidade de reverter a situação. Uma vergonha imprópria de um Estado de Direito. Um grosseiro conjunto de inconstitucionalidades que pode e deve ser endereçado ao Tribunal Constitucional.
PS1: Com a antecipação em "cima da hora" da passagem da idade de aposentação dos 64 para os 65 anos na função pública já em 2013 (até agora prevista para 2014), o Governo evidencia uma enorme falta de respeito pela vida das pessoas. Basta imaginar alguém que completa 64 anos em Janeiro do próximo ano e que preparou a sua vida pessoal e familiar para se aposentar nessa altura. No dia 31 de Dezembro, o Estado, através do OE, vai dizer-lhe que, afinal, não pode aposentar-se.
Ou melhor, em alguns casos até poderá fazê-lo, só que com penalização, que é, de facto, o que cinicamente se pretende com a alteração da lei. Uma esperteza que fica mal a um Governo que se quer dar ao respeito.](https://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-ak-prn2/p480x480/1231594_729889380360967_1915579307_n.jpg)









