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INSÓNIAS…
Chove.Sinto-me bem na intimidade do lar. Janelas fechadas, lareira acesa. Fixo a lenha que arde, fulgurantemente, dando-me a segurança de um pijama quentinho, de tons vermelho-amarelados…Ali, ao canto, está o meu aquário, onde os peixinhos, ainda acordados, absorvem, amiúde, a minha atenção. Ali estão todos juntos, mas cada um no seu “agregado familiar”:”zebras” com zebras,”néons com néons, um “beta” de um azul fortíssimo, mais escuro que as águas do mar ou que o azul do céu; o “limpa vidros”, permanentemente agarrado às paredes de vidro, limpa tudo o que seja comestível e o “come-caracóis”mantém as plantas livres desses simpáticos bicharocos, que podem tornar-se uma praga…
Oiço música. Sinead O’CONNOR… “Nothing compares to you”…
Pego num cigarro, maquinalmente e aproximo-me da janela; levanto os estores e dou de caras com a chuva, a “bategar”…
Não posso deixar de dizer que gosto do Inverno, estação do ano que, para mim tem mais magia que os sufocantes dias de Verão, que me não deixam respirar. Amo o Sol, astro-rei, quando não queima e me deixa numa lassidão de impotência.
Continuo com a música da RFM e sinto, para já, o cérebro voluntariamente vazio de ideias…Mas esta sensação é momentânea! A música da chuva a cair, batendo, furiosamente na janela, faz-me lembrar o gozo de FERNANDO PESSOA no poema Interseccionista “Chuva Oblíqua” (parte II) quando diz:”Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, /E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça… (…) / Alegra-me ouvir a chuva…E sente-se chiar a água no facto de haver coro… Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar… (…) “.
A música que oiço abraça o mundo e penso que precisa de irradiar num espaço mais vasto que o do meu próprio cérebro… talvez neste mundo complexo, vário, ruidoso, corrupto, “dividido” (como diz SOPHIA…), mecâ nico, acelerado, diverso, difícil, em que vivemos e onde a música não consegue soltar-se para abraçar os ideais de Paz e Amor.
Impossível, por conseguinte, tal como eu previa, fumar o meu cigarro e ouvir música, sem pôr o cérebro a funcionar! Bem queria repousar das atitudes meditativas… mas, não sendo acéfala, costumo meditar, pensando e assim, sou mais activa do que reactiva! Melhor dizendo: sem pensamento, não há acção nem reacção! Sonho acordada…
Não há vivalma na rua… nem passam carros, nem se ouvem cães a ladrar nem miam gatos…Não há pássaros pelo ar… E quem é que se importa com as alheias meditações?
A noite de tormenta- estranhamente alegra o meu coração, nesta intimidade de quatro paredes. Incongruência? Incoerência?
Não! Questão de carácter que se reflecte no próprio dia a dia quando, a passear ou a caminhar mais naturalmente, viro os olhos mais para o chão que para o ar. Se pensar bem, sei que o mundo exterior está descoberto e que, por isso, a minha arte está em procurar o meu mistério interior.
Mas, em mim, tudo está ligado à infância e à juventude, que não foram momentos de realização interior e sim tormentos massacrantes na constante insatisfação de viver, ao sentir e constatar que não tinha um ombro de pai ou de mãe, para me apoiar.
Atiro impropérios contra essa infância que não o foi, mas que ainda encontro no cheiro da viela, onde continuo a ouvir as vozes do leiteiro e da padeira, que, como se sabe, iam, antigamente, levar-nos esses bens a casa. Fragmentos de mim , unidos na Pessoa que hoje sou…há outros fragmentos, mais duros, de que não quero falar.
O ruído da chuva e esta música acolhedora deveriam ter o dom de abafar tudo o que hoje me veio à memória…Mas é precisamente porque se trata de MEMÓRIA, que eu lembro…É claro que ninguém se importa com esses meus desvarios rememorativos; são problemas meus…
E eu quero ter a consciência do que procuro, do que não encontro, do sossego interior que abarca os respiros do meu viver!
Felizmente , há noites de chuva com música a condizer.Ajudam-me, naturalmente, a procurar o meu próprio “D. Sebastião”… o meu outro EU.
Para me espevitar, desprezo-me ao ir-me abaixo, deste modo tão confessional mas reparo que essa atitude me obriga a reagir…Oiço “Wish you were here”, cantado por alguém que não os “PINK FLOYD”…Decididamente, hoje não virá a lua…E amanhã é outro dia, será outro lado da lua…a vida será novamente maravilhosa, as ruas estarão lavadas, o “Muro de Berlim” já caiu…Georges Bush desapareceu do mapa… POL POT arde nos Infernos…os vampiros de Stephenie Meyer “andam “ à solta no “CREPÚSCULO dos deuses e da lua nova e eu vou ver se durmo, pois daqui a pouco o mundo vai despertar, novamente, para novas tristes realidades…
Até sempre!