segunda-feira, 8 de março de 2021

Boa noite, amigos e amigas!


 

MULHERES CONTRA O FASCISMO-(Texto identificado no final)

 MULHER, MULHERES (9)

HERCULANA CARVALHO (1900 - 1952) - a única mãe que visitou o filho e os outros presos políticos, no Campo de Concentração do Tarrafal - foi exemplar na luta que travou contra o fascismo. Uma lição de vida e de cidadania.
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HERCULANA CARVALHO (1900 - 1952)*
A mãe que visitou o filho, Guilherme da Costa Carvalho, e os outros presos políticos deportados no Campo de Concentração do Tarrafal - uma lição de vida e de cidadania.
1. Herculana de Jesus da Costa Dias Carvalho, sócia n.º 6 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, nasceu no Porto em 1900 e faleceu em Lisboa em 1952.
Em 1920 Herculana casou com Luís Alves de Carvalho, nascido no Porto em 1899, com quem teve um filho, Guilherme da Costa Carvalho (1921-1973), e uma filha, Luiza Herculana Alves de Carvalho.
O marido tinha o Curso Comercial, foi contabilista da primeira cooperativa de táxis existente no Porto e, mais tarde, ligou-se à Banca. Foi corretor de fundos públicos da Bolsa do Porto durante quase cinquenta anos.
Herculana era uma pessoa por temperamento recatada, que nunca saía de casa sem ser acompanhada, segundo refere a filha Luiza. Por altura do nascimento do seu primeiro neto, Luiza, estranhando a ausência da mãe, é surpreendida pela informação de que a mesma se tinha deslocado sozinha ao encontro do filho, preso no comboio (por denúncia de uma mulher), em Abrantes, pela GNR (1948). Não o tendo encontrado aí, rumou para Lisboa, localizando-o na prisão do Aljube. Aguarda aí alguns dias, mas não consegue obter autorização para o visitar. Esse acontecimento marca o início da sua saga pessoal de solidariedade para com o filho e todos os outros presos políticos, e que só vem a terminar com a sua morte.
A partir dessa data, D. Herculana, como era conhecida e reverenciada por todos, nunca irá deixar de estar ao lado do filho, que militava no Partido Comunista Português. Movimentava-se muitas vezes sozinha ou acompanhando o marido pelas prisões onde Guilherme ia estando preso. No dia da deportação deste para o Tarrafal, a 17 de Setembro de 1949, na hora da despedida no cais de Leixões, notando que alguém o olhava com o desprezo votado a pessoas criminosas, surpreendeu todos os amigos e outros antifascistas presentes com um discurso em voz alta, salientando a injustiça do governo que penalizava de modo brutal o seu filho que “era um bom e um homem honrado […] Lembrou que Salazar tinha afirmado em 1945 que os campos do Tarrafal já não existiam, mas que ali estava a prova evidente da existência desse sinistro campo, para onde agora seguia o seu querido filho. Disse que era preciso que o campo do Tarrafal acabasse e que seriam as mães portuguesas quem mais deveria lutar para que isso sucedesse, pois todas elas estão igualmente ameaçadas de verem seguir para lá os seus entes queridos.
Ainda que nunca se tendo pensado como política, de acordo com a sua filha Luiza, “aderiu aos ideais do seu filho, pois foi sempre apologista do partilhar e de dar felicidade aos outros”
Assumiu uma prática quotidiana de solidariedade com todos os presos políticos e suas famílias, prestando-lhes auxílios materiais e humanos.
Na primeira visita que fez ao filho no Tarrafal, por altura do seu aniversário, no Natal, como lhe tinha prometido, prestou homenagem a todos os presos políticos aí falecidos ao longo dos anos, tendo florido as suas campas. Esses gestos foram registados pelo marido, Luís Alves de Carvalho, que lhe fez uma foto individual junto de cada uma dessas sepulturas na ilha de São Tiago (no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, foi erigido um Ossário Monumento para a trasladação dos restos mortais dos 32 antifascistas falecidos no Campo de concentração, cuja construção foi custeada por uma subscrição pública nacional e, essencialmente pelo marido de D. Herculana que, juntamente com sua esposa, foram os autores da ideia).
Depois da sua morte, o marido, em resposta aos pêsames recebidos dos presos do Tarrafal, comenta: “O seu pensamento constante eram os presos do Tarrafal. Quando vos beijava e abraçava era como se o fizesse aos seus filhos queridos. Quando aí no Cemitério colocava flores nas campas dos vossos queridos mortos e orava a Deus por eles, era como se fossem da sua própria carne” [Carta de 24 de Junho de 1952 de Luís Alves de Carvalho ao preso do Tarrafal João Faria Borda. Arquivo de Luiza da Costa Carvalho Lagoa].
Tomou ainda nota das moradas dos outros presos e prometeu-lhes regressar com notícias de todos os seus familiares. Para isso, teve de percorrer o país de Norte a Sul, a fim de localizar as respectivas famílias. De novo se encheram álbuns fotográficos com essas famílias, com destino a nova viagem ao Tarrafal.
2. Josué Martins Romão, aí prisioneiro, recordou-a mais tarde num texto a que deu o título: Singela homenagem à mulher dos antifascistas presos no Tarrafal, do qual se transcreve o relato do seu encontro com D. Herculana: “Nos longos anos que passamos no Tarrafal, […] tivemos apenas uma visita. […] Descrever todos os obstáculos que esta mãe teve de enfrentar, desde a respectiva autorização para a visita, ao fretar um avião, com um mínimo de segurança, ao barquinho de cabotagem da ilha do Sal para a ilha de S. Tiago (onde nos encontrávamos) era por ventura, só por si, uma epopeia digna de registo aparte […] mal abraçou o filho e de imediato, um a um, todos os companheiros dignos da sua condição de presos antifascistas, esta mulher, como que a pedir-nos desculpa desta ousadia, propôs-nos isto: « Amigos! A alegria, como deveis calcular, que eu sinto neste momento é imensa. Poderá, talvez, interpretar-se como egoísmo de Mãe estar aqui hoje presente. Mas ao vê-los a todos sinto-me como que envergonhada ao lembrar-me das vossas mães, das vossas companheiras, enfim de todos os vossos familiares que jamais poderão ter a sorte que eu tive, enquanto aqui permanecerem. Peço-vos do coração, que me forneçam uma lista com os vossos nomes e respectivas moradas de vossos familiares lá na terra”.
Segundo Alice Maldonado, D. Herculana levava para o Tarrafal, e também para outras prisões, muitos remédios para os presos através do seu marido, Maldonado Freitas, médico antifascista, que lhos fornecia.
3. D. Herculana Carvalho faleceu em Lisboa em 1952, no Hospital da CUF, vítima de doença cancerosa com cinquenta e um anos de idade. Pouco tempo antes de falecer, pôde ainda ver o seu filho Guilherme, na altura preso em Peniche, graças ao engenho do marido que ultrapassou os constrangimentos repressivos da PIDE - que, argumentando a eventualidade de evasão do detido, pretendia nem sequer cumprir a lei que permitia nestes casos estas visitas. A sua morte foi sentida profundamente não só pelos familiares e amigos próximos, mas por todos os presos que a conheceram, em especial os tarrafalistas.
Fernando Lopes Graça, que acompanhou entre dezenas de pessoas o seu funeral ao Porto, compôs uma Elegia em sua memória. Mulheres e homens que a conheceram, quiseram individualizar as suas homenagens através dos jornais a esta mulher tão solidária com todos. Maria Florinda da Palma Carlos, escreveu para o República, pouco depois da sua morte, evocando a sua generosidade: “tínhamos credos diferentes, ela sabia-o, mas o que era isso para o seu feitio generoso e compreensivo? Era assunto em que nem ao de leve se tocava. Eu era uma Mãe amargurada e que mais seria necessário para vir junto de mim?” [República, 7/6/1952]. Manuel Lavrado, no primeiro aniversário do falecimento, escreve também no jornal República: “é certo que no pensamento das pessoas da sua convivência não morreu – nem morrerá! a lembrança das suas desassombradas atitudes, de coragem, de abnegação, e de solidariedade humana. […] Foi uma democrata, talvez sem saber que o era…” [República, 16/5/1953]. Humberto Lopes, um amigo dos tempos de estudante de seu filho, recordou-a: “com esse supremo equilíbrio moral e intelectual buscou e encontrou outras certezas, outras auroras, outras razões de querer, de esperar e de lutar” [República, 16/10/1952]. Durante muitos anos foi recordada neste jornal, e sempre com a nota final de agradecimento da redacção ao seu marido, que entregava quantias generosas “destinadas aos protegidos de Republica em memória da sua sempre saudosa esposa, do seu querido pai e também dos seus saudosos amigos Silo Cal Brandão e Rocha Martins” [República, 16/5/1967]. Em 16 de Maio de 1964, os antifascistas da Marinha Grande desenharam e fizeram, para oferecer ao seu filho Guilherme, uma jarra de vidro, com uma reprodução da foto de D. Herculana, sobre a qual inscreveram a seguinte dedicatória «Democratas da Marinha Grande oferecem a Guilherme da Costa Carvalho em memória da sua saudosa mãe». Um ano depois da sua morte, a 19 de Outubro de 1952, o corpo foi trasladado de um jazigo de amigos, para um construído especialmente para D. Herculana e que tem o seu nome, sobre uma escultura, que reproduz uma das pombas de Picasso.
No dia da trasladação dos restos mortais, falaram na cerimónia, e segundo relato nos jornais, “os srs. João da Silva Campelo, prof. Doutor Rui Luís Gomes, eng.ª Virgínia de Moura, drs. Humberto Lopes e Lino Lima, Leopoldo Lino, D. Alice de Almeida e Maria do Carmo de Almeida, que exaltaram os predicados da malograda e saudosa senhora. Entre as pessoas que se encontravam no cemitério, distinguimos, ao acaso, os srs. Eduardo dos Santos Silva, António de Macedo, Mário e Carlos Cal Brandão e coronel Hélder Ribeiro” [República, 19/10/1952].
4. Luís de Carvalho, o marido, prestou-lhe ainda uma homenagem ao inaugurar no jardim de sua casa o busto de Herculana, em cuja coluna se lê uma das frases que costumava dizer em relação a Guilherme da Costa Carvalho - “se voltasses ao meu seio, meu filho, e eu pudesse defender-te, como quando te criei morria feliz” - e outra em relação ao seu marido – “dava tudo por ti, Luís”. Mais tarde, no XV aniversário da sua morte, Luís da Silva Carvalho editou, para circulação entre amigos, um conjunto de 42 pequenos poemas do seu filho Guilherme dedicados à memória de sua mãe e das suas avós, quando tinha 42 anos. O livro intitula-se 42 Hai-Kais, Relâmpagos do meu coração. Esses poemas foram escritos por Guilherme em papel de mortalha. A letra das palavras era tão minúscula que só foi possível decifrá-las à lupa e, segundo a própria irmã, também deverão ter sido escritas do mesmo modo. Os papéis saíram da prisão do Aljube onde se encontrava, e que nos poemas chama de Catóquio, palavras inventada como outras, prevenindo eventuais buscas da PIDE, muito escondidos nos enchumaços de um casaco que ia para a lavandaria.
Guilherme da Costa Carvalho teve, na morte, igual destino ao de sua mãe. Faleceu com a mesma idade no Instituto de Oncologia em Lisboa, a 23 de Março de 1973. Tinha sido posto em liberdade pelo facto de estar já muito doente.
(*) Texto biográfico de Lúcia Serralheiro, inserido no Dicionário no Feminino. Lisboa, Livros Horizonte, 2005.
Helena Pato


 


 


 


 

Meu artigo, muito breve, sobre este dia da Mulher






 "Dia Internacional da Mulher"

Bom dia a todas vós ,minhas irmãs!
Continua a nossa luta por uma sociedade justa ,pois no mundo em que vivemos ainda não temos os mesmos direitos...Ah! Mas temos muitos mais deveres!
A felicidade suprema temo-la nós, no entanto: somos Mães! Rimos com os nossos filhos, choramos com eles e por eles, sacrificamos os nossos desejos pelos desejos deles, com a ajuda dos homens que nos estão ao lado. Muitas vezes retiramos o "joio" das nossas vidas e fazemo-los homens sem ajuda, pois chegamos à conclusão de que mais vale só, que mal acompanhado.
Não quero voltar ao tema das Sufragistas, que foi, realmente, o princípio da nossa luta, como Mulheres, pois é um tema mais que "batido", mas que significa o princípio de todas as nossas lutas.
Feliz Dia Internacional da Mulher!
Não esqueçam- nunca!-que todos os dias são dias nossos! Todos os dias criamos filhos, trabalhamos para uma vida melhor, fazemos refeições, fazemos a vida das casas, eu sei lá que mais fazemos...


Maria Elisa Ribeiro-Foto do Google
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Identificados os autores do texto e do trabalho, em si, no fim do artigo

MULHER, MULHERES (4)
MARIA HELENA MAGRO (1923 - 1956) viveu praticamente toda a vida na clandestinidade. Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, (incluindo no seio partidário), foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres no trabalho político como forma de emancipação. Em meados de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, com apenas 22 anos de idade, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. O curso de Direito, de que era destacada aluna, fica incompleto. Depois de onze anos de clandestinidade sem nunca ser presa, vem a falecer em 1956, devido a dificuldades de assistência imediata, num parto difícil. Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político do PCP.
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MARIA HELENA MAGRO (1923 - 1956)
Viveu, lutou e morreu na clandestinidade. Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, (incluindo no seio partidário), foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres no trabalho político como forma de emancipação. Em meados de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, com apenas 22 anos de idade, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. O curso de Direito, de que era destacada aluna, fica incompleto. Depois de onze anos de clandestinidade sem nunca ser presa, vem a falecer em 1956, devido a dificuldades de assistência imediata, num parto difícil. Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político do PCP.
1. Filha de Francisco Magro (1896-1946) e de Flora Alves Magro ; irmã de João e José Alves Tavares Magro; cunhada de Aida Magro (1918-2011). Maria Helena Alves Tavares Magro nasceu no primeiro dia de Janeiro de 1923, em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho. Filha de Francisco Félix Tavares Magro e de Flora Carlota Alves. Emancipada pelo pai aos 18 anos, desde muito cedo se envolveu na luta social e política, primeiro no bairro de Alcântara, onde viveu até aos 22 anos e depois, quando entrou para a Faculdade de Direito no ano lectivo 1940/41, nas lutas académicas que então ocorreram contra o aumento das propinas.
Boa aluna, Maria Helena Magro sempre «alcançou nas escolas altas classificações que lhe permitiram ganhar a isenção de matriculas e vários outros prémios». Frequentou o Liceu Filipa de Lencastre [onde Alda Nogueira se tornou sua amiga inseparável]. Matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa no ano lectivo de 1940/41 e participou nas greves académicas de 1941.
Militante do PCP desde 1943, Helena Magro frequentava o 4.º ano (1945) quando foi incentivada pelo irmão José a integrar os quadros clandestinos do Partido ["no pequeno jardim defronte da Casa da Moeda", naquele que seria o último encontro entre ambos]. Aluna com elevadas classificações, deixou então o curso por concluir e viveu durante onze anos na clandestinidade, sem nunca ser presa.
2. Na clandestinidade tornou-se companheira de Joaquim Pires Jorge (1907-1984), de cuja união nasceu a filha Clara. Na clandestinidade desempenhou tarefas politicamente importantes, nomeadamente na redacção do jornal O Camponês, colaborando regularmente no jornal Avante, no Militante (boletim teórico); e no jornal clandestino A Voz das Camaradas, onde tinha uma colaboração "com grande sentido pedagógico" (1). O seu último artigo, sobre “A Importância da Cultura Geral”, data de Novembro de 1956. [Assinava com o pseudónimo Manuela, e em O “Militante” assinava com o nome de Clara].
Em Dezembro de 1956, em vésperas de completar 34 anos, morreu no hospital por complicações de parto do segundo filho.
Margarida Tengarrinha, nos livros Quadros da Memória e Memórias de uma Falsificadora, evoca a comoção deste desenlace, que acompanhou porque Pires Jorge se encontrava então em sua casa, e Helena Magro, que nunca conheceu pessoalmente, tivera enorme importância na sua adaptação à vida clandestina (2). Aquando da morte de Maria Helena Magro, José Dias Coelho escreveu no jornal Avante! palavras sentidas e o seu retrato em gravura, da autoria de Margarida Tengarrinha, iria ser publicado no número de Abril de 1961 de A VOZ DAS CAMARADAS das casas do partido.
Com cerca de dois anos de idade, Clara, foi entregue à família da mãe e criada pelo tio João Luís e pela avó Flora Magro que, durante vinte e três anos consecutivos, em condições inimagináveis, andou a caminho das cadeias políticas para visitar o filho (José Magro), a nora (Aida Magro) ou o genro (Pires Jorge), encarcerado entre 1961 e 1971, a quem levava a filha nas visitas de fim-de-semana ao Forte de Peniche (3).
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3. Júlia Coutinho, no seu blogue “As Causas da Júlia”, evocou Helena Magro, em 2009, na data em que completaria 86 anos de idade, num artigo que dá bem a dimensão politica e intelectual desta mulher, que morre com 33 anos:
«Com o irmão José e a cunhada Aida, a que se juntam outros jovens da zona como «Mário Castrim» e Alda Nogueira desenvolvem intensa actividade na freguesia de Alcântara e arredores: pedem livros e fundam uma biblioteca, organizam bailes e quermesses para realização de fundos, angariam roupas e medicamentos para apoio aos presos políticos e famílias» (4). (...) Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, incluindo no seio partidário, foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres no trabalho político como forma de emancipação. Assim, em Maio de 1948 escrevia no boletim 3 Páginas (que antecedeu A Voz das Camaradas), dando-se como exemplo, na tentativa de incutir nas funcionárias comunistas o gosto pelo trabalho político, para além da principal tarefa da guarda das casas clandestinas» (5).
Notas:
(1) O último artigo que escreveu, «A Importância da Cultura Geral», foi publicado em A Voz das Camaradas de Novembro de 1956. Nele faz um apelo ao estudo abrangente e metodológico de forma a que os comunistas assimilem os conhecimentos humanos acumulados ao longo dos anos, enriquecendo a memória e desenvolvendo o sentido crítico, concluindo: «O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (...) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»
(2) «Sem a ter conhecido, tinha-me tornado sua amiga, pois o Pires Jorge apercebera-se das minhas dificuldades de adaptação à vida clandestina, assim como a angústia pelo estado de saúde da minha mãe, e começou a trazer-me cartas de uma camarada (não disse ser sua companheira) que demonstravam uma grande solidariedade e compreensão pêlos meus problemas, dizendo que também tinha passado por dificuldades semelhantes. Palavras que me ajudaram a ultrapassá-las. A partir daí mantivemos uma troca de correspondência que me ajudou muito, pois a Helena Magro, além de inteligente, era uma mulher de grande sensibilidade. Foi depois da sua morte que Pires Jorge me disse que era ela a minha correspondente, de quem me tinha tornado grande amiga. Saber que ela era a minha amiga desconhecida ainda me fez lamentar mais a sua perda. Chorámos juntos e o Zé escreveu sobre ela umas palavras que, anos mais tarde, transcrevi (…) no Avante de Janeiro de 1962» Margarida Tengarrinha, MEMÓRIAS DE UMA FALSIFICADORA, Edições Colibri, 2018.
(3) «Flora Magro contou-me que teve sempre alguém da família nas prisões, pois chegou a ter o filho, José Magro, em Peniche, a nora Aida Magro em Caxias; e o genro Pires Jorge, depois da prisão deste em Dezembro de 1961, no Aljube, tendo a seguir passado para Caxias e acabando por cumprir pena em Peniche. D. Flora dizia, sorrindo, que essa tinha sido a sua Via Sacra. Foram vinte e três anos a correr de uma prisão para outra. Criou duas netas, Manuela, filha de José e Aida Magro e a Clarinha, filha de Pires Jorge e de sua filha Maria Helena Magro.
Sofreu o mais terrível choque, que a deixou arrasada, quando teve a notícia de que a sua filha Maria Helena, há vários anos na clandestinidade, tinha morrido num hospital na sequência de uma gravidez muito difícil. Soube-o três meses passados, sem ao menos ter podido vê-la, numa última despedida.» - Margarida Tengarrinha, Memórias de uma Falsificadora - a Luta na Clandestinidade pela Liberdade em Portugal, Ed. Colibri, 2018.
(4) «Conta-nos Aida Magro a estratégia utilizada para conseguirem o apoio do padre da freguesia: a cedência do espaço em troca de uma parte dos lucros para a paróquia. Ousados, chegam a convidar a mulher de Carmona para inaugurar uma das quermesses; a senhora não comparece mas contribui com uma nota de 100 escudos, o que para a época era uma fortuna». Júlia Coutinho, em As Causas da Júlia, http://ascausasdajulia.blogspot.pt/.../lembrando-maria...
(5) «Tenho a meu cargo, entre outras tarefas, a do recorte dos jornais: recorto os artigos sobre a vida nacional e internacional que têm maior interesse, e vou-os catalogando conforme os assuntos: Assembleia Nacional, Organização Corporativa, etc. Colo depois estes artigos, com indicação da data e nome do jornal, em folhas que entram nas secções respectivas. Assim, os camaradas podem encontrar facilmente as noticias e dados concretos de que precisem para o seu trabalho. Esta leitura cuidada do jornal, que todas nós devíamos fazer diariamente, tomando-a como uma tarefa partidária, é muito útil porque alarga o nosso conhecimento sobre as condições de vida do povo, política salazarista, política internacional, etc.» e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (...) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (...) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas. (...) Fora das fileiras partidárias, Helena Magro recorda as palavras de Lenine: «esquecendo as mulheres, é impossível interessar as massas pela política», para defender, num documento da sua autoria, que a «palavra de ordem que mobilizará as mais amplas massas femininas é a luta pela Paz» porque «a luta pela Paz é comum a todas as camadas, a todas as classes, une as pessoas de todas as ideologias e crenças.» Reconhecendo que em todos os campos - económico, social, político e jurídico - as mulheres têm reivindicações específicas a apresentar e advogando a criação de «uma organização feminina nacional, legal, que defenda as justas reivindicações da mulher em todos os campos», Helena Magro salienta, por outro lado, a necessidade de homens e mulheres se manterem lado a lado na luta por interesses comuns.
Através do referido 3 Páginas, de Maio de 1948, ficamos a saber como foi o início da sua vida na clandestinidade. «Quando eu vim, nos primeiros meses senti-me deslocada: não conhecia o camarada, a vida era muito diferente da que eu tivera, e também daquela que eu julgara vir encontrar e, principalmente, tinha um medo muito grande de não acertar, de não conseguir ser útil ao Partido. Mas tudo isso passou já e não esqueço o que o nosso jornal contribuíu para isso». O camarada a que alude é Joaquim Pires Jorge, que foi o seu companheiro de vida.» - Júlia Coutinho, em http://ascausasdajulia.blogspot.pt/.../lembrando-maria...
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Fontes:
Margarida Tengarrinha, Memórias de uma Falsificadora - a Luta na Clandestinidade pela Liberdade em Portugal, Ed. Colibri, 2018.
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Biografia da autoria de Helena Pato
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Retrato da autoria de Margarida Tengarrinha, publicado em A Voz das Camaradas, em 1956, por ocasião do falecimento de Maria Helena Magro..
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Dia Internacional da Mulher: POEMA 1 DE FLORBELA ESPANCA

 






A MULHER I


Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta; sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então os vis: «Olhem, vejam
É aquela a infame!» e apedrejam
A pobrezita, a triste, a desgraçada!

domingo, 7 de março de 2021

HISTÓria de PORTUGAL

 

EFEMÉRIDE | CRISTÓVÃO COLOMBO CHEGA A LISBOA, NO REGRESSO DA SUA 1.ª VIAGEM
NO DIA 4 DE MARÇO DE 1493, CRISTÓVÃO COLOMBO CHEGA A LISBOA, A BORDO DA CARAVELA NIÑA, CONCLUINDO A EXPEDIÇÃO PARA A QUAL PARTIRA EM 1492, COM A IDEIA DE DEMONSTRAR A POSSIBILIDADE DE CHEGAR À ÍNDIA NAVEGANDO PARA OESTE, VIA OCIDENTE, CONTRARIAMENTE AO QUE SE PENSAVA NA ÉPOCA.
Sob as ordens dos «Reis Católicos», o navegador e a sua armada iniciaram então a viagem com um objectivo bem definido. Partiu do porto de Palos de la Frontera, Huelva, em Agosto de 1492, com uma frota de três navios composta pelas caravelas Pinta e Niña e pela nau Santa Maria. Um erro nos seus cálculos levaria à chegada deste navegador não à India como estava planeado, mas a umas ilhas da América, continente desconhecido.
Acabou por chegar às Bahamas no dia 12 de Outubro de 1492, tornando-se no primeiro europeu a alcançar este território, tendo esta expedição representado o inicio do processo de colonização das Américas, mesmo que a ocupação humana destes territórios já fosse uma realidade, tendo em conta a existência de várias tribos indígenas.
Poucos meses depois, acabaria por dar inicio à sua viagem de regresso à Europa, com destino a Castela, mas não sem antes passar por Portugal onde seria recebido pelo rei e permaneceria alguns dias.
Após diversas tempestades no mar, que dificultaram a viagem de regresso, Cristóvão Colombo refugia-se nos Açores, de onde parte depois para Lisboa, onde chega no dia 4 de Março de 1493, a bordo do seu navio, a caravela Niña.
Foi recebido por D. João II, dando-lhe a conhecer alguns dos resultados obtidos nesta expedição que ganhara um novo rumo em relação ao que estava planeado à priori.
Após saber das novidades e apesar de se saber que Cristóvão Colombo tinha partido para esta expedição sob as ordens dos «Reis Católicos», o monarca português acaba por entrar em negociações com Castela, acabando por reclamar para o reino de Portugal todas as terras descobertas para Sul das Ilhas Canárias, tal como estava estipulado no tratado de Alcáçovas-Toledo.
Tais negociações entre os dois reinos acabariam por resultar num novo tratado, o tratado de Tordesilhas de 1494, dando lugar a uma grande alteração das diretrizes relacionadas com a navegação e a descoberta do que se chamaria o «Novo Mundo».
Dias mais tarde, Cristóvão Colombo acabaria por partir para Castela, tendo chegado ao porto de Palos, Huelva, no dia 15 de Março de 1493, de onde tinha saído anteriormente e onde daria então, por concluída, a sua 1.ª viagem.