Morte de pescadores: “Era a primeira vez num mês que os homens iam ao mar”
ANA HENRIQUES
16/04/2016 - 10:22
(actualizado às 20:45)
Mar levou dois homens em Ílhavo. Um deles deixa um filho pequeno e a mulher grávida. Filho do mestre da embarcação ainda tentou socorrer o pai.
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Este sábado foi o primeiro dia em que os pescadores de Ílhavo se aventuraram a ir ao mar, depois de um mês em que o mau tempo não lhes permitiu sair. Dois deles já não voltaram a terra: uma volta de mar mais furtiva, como a descreve o presidente da Associação de Pesca Artesanal da Região de Aveiro, Adelino Vieira, fez uma das pequenas embarcações que saíram à procura de choco virar-se. Dois pescadores com idades entre os 40 e os 50 anos morreram afogados. Um deles deixa um filho pequeno e a mulher grávida, diz Adelino Vieira, que conhecia bem as vítimas. “O filho do mestre da embarcação naufragada tinha também ido à pesca noutro barco e ainda tentou socorrer o pai. Mas não conseguiu”, adianta. “Aqui todos temos na família pessoas mortas em naufrágios”.
Depois de um mês presos em terra, os homens fizeram-se por fim ao mar. “As pessoas têm de comer”, justifica o dirigente associativo, explicando que o tempo já o permitia. Se levavam ou não coletes é uma questão que irá ainda ser apurada – apesar de os corpos terem sido encontrados logo a seguir ao acidente, pouco passava das 7h. "A primeira informação que a Polícia Marítima recebeu é que não teriam coletes, mas os pescadores estão a dizer que tinham", referiu o comandante do Porto de Aveiro, Luciano Oliveira. Em declarações à CMTV, o único sobrevivente, Paulo Granata, contou que foi uma onda na rebentação, “mais puxada que as outras todas”, que fez o Boa Vida virar-se. “Ficámos todos a gritar por socorro”. O pescador diz que conseguiu empoleirar-se em cima do barco virado, ao contrário dos colegas. “Um sabia nadar pouco e o outro também não sabia nadar muito”, acrescentou. “Companheiros de outros barcos tentaram chegar a nós, mas não conseguiram."
Pedido de socorro foi interrompido abruptamente
As vítimas ainda tiveram tempo de pedir socorro às autoridades. Segundo o mesmo comandante, a chamada foi, porém, “interrompida abruptamente". A capitania do porto de Aveiro enviou para o local o barco da estação salva-vidas local e uma embarcação da Polícia Marítima, tendo sido também accionado um helicóptero da Força Aérea e um navio-patrulha. Os cadáveres dos dois pescadores foram encaminhados para o gabinete médico-legal de Aveiro.
Quanto às causas do acidente, Luciano Oliveira confirmou que os pescadores "estariam a largar ou a recolher redes próximo da rebentação, muito junto à praia, tendo sido surpreendidos pelas ondas".
“As praias estão muito perigosas para nós, por causa das reposições de areia”, queixa-se o presidente da Associação de Pesca Artesanal da Região de Aveiro. “Estendem-se muito pelo mar adentro e há muitos baixios. Se o mar estivesse mais fundo não rebentava tanto”, acrescenta. E as pequenas embarcações não podem afastar-se demasiado da costa. O mestre do Boa Viagem também tinha um barco de pesca de cerco, de maiores dimensões, para a captura da sardinha. Mas não o podia pôr na água, explica o mesmo dirigente, porque este tipo de pesca só é permitida a partir de Maio.
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