sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sobre o "Estado Islâmico", in "O SOL"

Internacional

9/2014 12:05:42


"Existem muitas células extremistas adormecidas no continente e as forças de segurança europeias têm de estar mais alerta"

'O EI é pior que a al-Qaeda'



Miguel Mâncio |
09/0


Daban Shadala, representante do curdistão em Espanha e Portugal, destaca papel dos curdos a lutarem contra a barbárie do Estado Islâmico em nome da comunidade internacional. E pede todo o apoio, antes que o terror nos toque à porta.

Porque veio a Portugal?

Portugal é um país europeu e membro da NATO e nós estamos bastante receptivos em cooperar. No Iraque somos praticamente os únicos a combater o Estado Islâmico (EI). Com a ajuda dos nossos militares, os peshmergas, defendemos os direitos humanos e a democracia e conseguimos construir uma zona segura em que as pessoas estão a salvo das barbaridades do EI. Mas agora enfrentamos um grave problema: temos cerca de 1,7 milhões de refugiados. Só este ano há mais 800 mil, entre cristãos, xiitas, sunitas e sírios. Temos de derrotar o EI nas nossas fronteiras. Por isso é que precisamos de ajuda humanitária, apoio militar e apoio diplomático, porque todo o mundo pode ser afectado.

De quem é que o Curdistão já está a receber apoio militar?

Dos EUA, Alemanha, Austrália, Dinamarca. E outros países estão dispostos a ajudar, porque agora não estamos a lutar pelo nosso território, estamos a lutar em representação da comunidade internacional.

Quando é que os líderes curdos se aperceberam da gravidade do EI?

No final do ano passado. Avisámos o Governo iraquiano e as entidades internacionais que o EI é mais perigoso do que a al-Qaeda e que tínhamos de contê-los imediatamente. Nouri al-Maliki (primeiro-ministro iraquiano cessante) disse-nos para nos preocuparmos com a fronteira, que o resto resolvia ele. Foi de uma enorme ignorância.

Há o sentimento no Curdistão de que Maliki só protege os xiitas?

Maliki foi eleito pelos partidos xiitas para ser PM. Maliki retirou o poder aos sunitas, insultou-os. Há dois anos avisámo-lo que esta não era uma boa forma de governar o país. Avisámos os EUA e a ONU que o Iraque caminhava para uma direcção errada e perigosa, mas ninguém nos levou a sério. Há um ano virou-se para os curdos. Acusou-nos de sermos separatistas, que estávamos a exportar ilegalmente petróleo, que não respeitávamos a Constituição e que os peshmergas não eram militares oficiais. No início deste ano sofremos um embargo económico e retiraram-nos a representação no Governo central.

Defendem um Governo federal?

O modelo actual não funciona, dividiu-nos e deixou-nos nesta situação. Temos de formar um novo Governo iraquiano onde todos os grupos étnicos estejam envolvidos. O problema não é só militar mas também político. Mas para isso os sunitas têm de se sentir envolvidos e têm de fazer parte do Governo.

As acções de Maliki potenciaram o crescimento do EI? De início o EI teve apoio de sunitas moderados.

Claro. É verdade, alguns líderes tribais, membros do antigo regime de Saddam, viam com bons olhos o EI porque representava uma força contra Maliki. Mas a governação de Maliki não serve de desculpa para tudo, o EI é um grupo de assassinos, são contra os direitos humanos e contra a democracia.

O EI está a ganhar terreno na Síria e há uma grande comunidade curda nesse país. O Curdistão pensa intervir na Síria?

Não, isso é outro território, é outro assunto. Primeiro temos de diminuir o território deles no Iraque, com a ajuda da comunidade internacional. Porque o EI é uma organização mais perigosa do que a al-Qaeda ou os talibãs. Controlam muito terreno, têm muitas armas, muito dinheiro, e são financiados por alguns países do Golfo.

Como é possível europeus combaterem ao lado do EI?

São jovens pouco integrados, com uma fraca educação nas escolas, e que são passíveis de sofrer lavagens cerebrais. A Europa precisa de melhores programas de integração. Existem muitas células extremistas adormecidas no continente e as forças de segurança europeias têm de estar mais alerta. Nunca se sabe, estas pessoas podem voltar e podem cometer ataques terroristas. Mas sinceramente fiquei muito surpreendido com a quantidade de jovens europeus que estão a combater na Síria e no Iraque.

miguel.mancio@sol.pt

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