Depressão nacionalTantos medos desaguam nos consultórios. “O medo chega-nos em situações clínicas quando é permanente, cresceu o medo do futuro porque a queda das economias provocou insegurança, não só aos que sofreram directamente na pele, mas aos que sofrem por antecipação o que pode vir a acontecer”, constata Telmo Mourinho Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos.
“Umas das primeiras respostas ao medo é a fuga, a própria admissão do medo em homens é mais difícil porque foram educados para não ter medo”, relata o especialista. Mourinho Baptista destaca que não há um retrato-robô de quem sofre: “São as pessoas mais vulneráveis em função da sua história. Mais do que a idade, é na história de cada qual que um elemento social potencia a ameaça.”
Francisco Garcia dos Santos, presidente da Associação Portuguesa de Corretores e economista comportamental, refere um estudo, em curso, em Portugal, Espanha, Alemanha e Bélgica liderado pela York University do Canadá sobre os factores situacionais da crise. “Revela que a crise não tem uma relação directa com a saúde mental, mas há a percepção de que a crise financeira é uma ameaça que acaba por se reflectir na saúde psicológica”, afirma. Numa paleta de consequências: da exaustão emocional à depressão e ansiedade.
“A ameaça é influenciada pela crise, mas também pelos traços da personalidade — auto-estima, auto-eficácia e preocupação. Quem demonstrar ter mais capacidade de auto-eficácia sente-se menos ameaçado. O que tem que ver com o nível de competências, quanto mais competências tiver, menos se sente ameaçado”, destaca Garcia dos Santos.
Naquele estudo é confirmado um dado adquirido: que portugueses e espanhóis se sentem mais ameaçados do que alemães ou belgas. “A diferença detecta-se no número de pessoas que se sentem ameaçadas, não é o ambiente de contexto de macroeconomia que marca, mas a situação a nível individual”, assinala. No entanto, reconhece uma especificidade: “O contexto em Portugal é mais depressivo, embora, por si só, não seja determinante.”
Como se propiciou a depressão nacional ao ponto de ela ser específica? O filósofo José Gil fala de razões históricas: “Há um plano vertical que nos dá a força de viver, de existir, que tem que ver com a honra, com os antepassados.” Em contraponto, “o povo português é triste, não exterioriza as forças da vida que tem, o que se agravou muito”.
Os mais velhos têm o receio de perder os valores sociais, culturais e morais numa cultura em que as pessoas pouco contam."Fernando Sampaio, padre
Renato Miguel do Carmo, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, tem claro o filme deste agravamento. “Em 2010, nas entrevistas com os jovens trabalhadores precários, apareceu com muita força o medo do futuro, a possibilidade de prever o futuro.” Sublinha: “Era a ideia de que o futuro se fecha, esta dificuldade de projecção tem como sentimento associado o receio e o medo, o que está relacionado com o isolamento e o desemprego.”
A este fotograma sucede-se outro: “A ideia de que o futuro se fecha é dramática para jovens e não só. Com a crise, a incerteza passou a ser transversal, apareceu nos mais idosos pela redução dos rendimentos. Para eles, o que está em causa é a família-providência.”
Esta é também a experiência do capelão Fernando Sampaio. “Os mais velhos têm o receio de perder os valores sociais, culturais e morais numa cultura em que as pessoas pouco contam”, explica o sacerdote. “Há degradação nas relações pessoais e familiares, há queixas de maior agressividade, de abandono pelos familiares, como detectamos muito nos hospitais com os idosos.”
São exemplos extremos de uma realidade contraditória. “Vivemos em sociedades sós e menos solidárias, apesar de haver apetência para a solidariedade quando é mediatizada. É uma solidariedade que reage a estímulos, não é uma prática social genuína”, sintetiza Fernando Sampaio.
A mancha de azeite do medo alastrou com a sua exploração pela política. “O medo está muito ligado ao contrato político”, refere o sociólogo António Casimiro Ferreira, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra: “Uma coisa é a política governar e regular o medo, o que é normal. O que é amoral e perverso é governar através do medo, é uma forma perversa de intervir na sociedade pondo em causa os consensos e a legitimidade.”
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