Por que motivo foi absolvida a inspetora da PJ acusada de matar a avó do marido?Mais de 80% das pessoas que enfrentam um julgamento acabam condenadas. A inspetora Ana Saltão é uma das exceções. Mesmo que o tribunal não tenha ficado convencido da sua inocência.
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Rui Gustavo |20:38 Terça feira, 9 de setembro de 2014
REGRESSO Ana Saltão, ao centro, foi totalmente absolvida e já se apresentou ao serviço na PJ / FOTO PAULO NOVAIS / LUSA
Assim que encontraram o cadáver de Filomena Gonçalves, os inspetores da brigada de homicídios da PJ de Coimbra classificaram o caso como grau 4 - classificação dada quando o suspeito é um elemento da própria PJ ou uma figura pública de relevo. Isto é, desde o primeiro momento que a inspetora Ana Saltão é a única suspeita de ter assassinado com 14 tiros a avó do marido para poder beneficiar de um eventual herança ou para não ter de pagar um empréstimo de 1500 euros.
Ana Saltão era suspeita porque Filomena Gonçalves, que tinha 80 anos e algum dinheiro amealhado com a exploração e venda de um talho, foi morta com 14 balas compatíveis com as disparadas pelas armas da PJ. E 15 dias antes do homicídio, a arma de serviço de uma colega de Ana Saltão desapareceu do móvel onde estava guardada.
Assim, para a PJ, Ana Saltão, que estava de baixa por causa de uma operação e tomava antidepressivos, roubou a arma da colega e matou a avó do marido. O tribunal de Coimbra não acreditou nesta tese. Pelo menos totalmente.
Psicopata, quem?
O assassino disparou 14 tiros. E a desconstrução da acusação começa com este facto: de acordo com um perito ouvido em tribunal, só um psicopata ou alguém com problemas antigos para resolver com a vítima poderia disparar tantos tiros, já com a vítima morta e prostrada no chão.
Para o tribunal é óbvio que Ana Saltão não é psicopata porque passou nos testes psicotécnicos da PJ e porque angariou dinheiro para uma colega que tinha cancro, logo preocupava-se com os outros. E como só se casou em 2007 e o crime foi em novembro de 2012, não poderia ter questões antigas com uma pessoa que conhecia há pouco tempo e com quem tinha um relacionamento escasso.
Matar para quê?
Ana Saltão e o marido, também inspetor da PJ, viviam com relativa dificuldade. O dinheiro mal dava para pagar todas as contas, tinham dívidas com os cartões de crédito e tiveram de pedir dinheiro emprestado à vítima: 1500 euros que iam pagando todos os meses. Para a acusação, Ana Saltão matou não só para não ter de pagar a dívida como também para poder beneficiar de uma herança através do marido. Para o tribunal não é crível que se mate alguém só pela hipótese de receber dinheiro (os herdeiros da vítima eram os filhos e não o neto) e a situação económica do casal não era tão grave que justificasse uma solução tão extrema.
Prova contaminada
Uma das provas mais fortes da acusação era um casaco de Ana Saltão com vestígios de pólvora. A peça de vestuário foi entregue pela suspeita aos colegas e terá sido atirada para o chão de um gabinete da PJ do Porto, onde esteve guardada antes de ser sujeita a análises. Além de criticar este procedimento "inexplicável", o tribunal conclui que o casaco pode ter sido contaminado.
Quando foi detida, Ana Saltão tinha um ferimento na mão direita, a que usava para disparar, e que, segundo a PJ, terá tentado esconder. Mas o tribunal também não aceita este indício como prova. Um perito disse em julgamento que o ferimento podia resultar de uma série de disparos, mas também de uma queimadura, confirmando assim a versão de Ana Saltão, que disse ter-se queimado na cozinha.
De Maia a Coimbra são duas horas de distância
No dia do homicídio, Ana Saltão estava em casa a recuperar de uma operação relativamente grave que a impedia de andar normalmente. Foi vista por um vizinha depois das duas e meia da tarde a ver o correio. Estava de pijama e casaco. Filomena foi morta antes das cinco da tarde. O tribunal fez as contas e concluiu que entre a casa da vítima, em Coimbra, e a da suspeita, na Maia, seriam mais de duas horas de carro e que só muito dificilmente a arguida conseguiria vestir-se, pegar no carro e cobrir a distância em tão pouco tempo. O depoimento da vizinha não foi enviado pela PJ ao juiz de instrução criminal que decretou os seis meses de prisão preventiva para Ana Saltão.
Arma roubada?
A arma do crime não foi encontrada pela PJ, que deduziu tratar-se da Glock 9 mm que desapareceu do armário da inspetora Liliana Vasconcelos, colega de Ana Saltão. A arma estava numa gaveta fechada à chave e o tribunal chegou à conclusão que, sem chave, o móvel só poderia ser aberto se fosse virado ao contrário e com o recurso a algumas pancadas na gaveta. Algo que uma pessoa sozinha só muito dificilmente conseguiria fazer sem ajuda. Logo, o tribunal não conseguiu convencer-se que foi Ana Saltão quem roubou a arma, ou que a mesma tivesse sido realmente roubada e utilizada para matar Filomena Gonçalves.
No dia do crime, Ana Saltão desligou o telefone para, segundo a acusação, não ser detetada em Coimbra. "Não teria sido mais simples mantê-lo em casa e não atender as chamadas?"
Com todas as dúvidas, não foi suficiente para o Tribunal a considerar culpada, mas também é insuficiente para a declarar inocente. E, na dúvida, absolveu-a.
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