EuroZombis e EuroCercados: o guião de uma "Stand-up tragedy"
SANDRO MENDONÇA | 7:00 Quinta feira, 11 de setembro de 2014
Portugal dentro da Europa dentro da globalização é um puzzle dentro de um colete-de-forças dentro de um carrocel. A relação Portugal-Europa é reveladora como a actual papel da União Europeia é, sobretudo, um constrangimento ao crescimento das economias da moeda única. A relação Europa-Mundo mostra como os países europeus perderam a noção dos seus interesses comuns e se deixaram tornar periféricos e perdedores num cenário global em recomposição.
De ZonaEuro a EuroZombi
Curiosamente um espaço de pluralidade como a &conomia na edição digital do Expresso tem insistentemente alertado para alguns problemas que continuam por resolver no estado das coisas económicas num país como Portugal numa Europa que se tornou algo muito diferente daquilo a que aderiu há quase 30 trinta anos.
Os autores podem ser economistas ou gestores, operando em meios privados ou públicos, vivendo uns em Portugal e outros fora, mas assinalam afinal traços de um retrato-robot que acaba por ser muito consistente
Na última 2f Diogo Agostinho analisava o modo como Portugal se auto-paraliza naquilo que deveria ser um objectivo óbvio de coesão e competitividade;
Nesta 4f Alexandre Abreu demonstrava que a aversão ao investimento na economia real não representa poupança mas sim uma perda permanente da capacidade de sustentar o desenvolvimento ;
Na 3f Paulo Barradas argumentava que, no fundo, a nova política monetária da Eurozona redunda num incentivo a um maior endividamento do sistema bancário ;
Na passada 6f Aurora Teixeira mostrava como uma política de excessivamente baixas taxas de juro penaliza aforradores e agita especuladores, sobre-estimula a banca no curto prazo e sobre-carrega o Estado no long prazo .
Eu próprio, convidado por outro jornal a pronunciar-me sobre o momento actual da política pública nacional e europeia , tive oportunidade de submeter uma perspectiva adicional e talvez também complementar. Creio que é possível albergar a opinião que a presente política monetária prova como o governo da Zona Euro tem sido incompetente (curioso como é uma incompetência sem consequências para os autores das medidas!) e como as assimetrias nacionais na Europa serão umas das suas consequências mais duradouras (curioso como as supostas soluções agravam as profundas causas da crise que consistem em divergências artificiais de produtividade e competitividade entre os Estados-membro!).
De "Fortaleza Europa" a "Europa Cercada"
Contudo, os problemas europeus não são apenas os de uma "neo-estagflação" misturada com "hiper-desigualização".Com certeza, esse foi o resultado de uma obcessão financista e anti-social. Por outras palavras, a promoção da financeirização (o tratamento "supply-side": o estímulo à "cadeia de valor" BCE-Banca) e do austeritarismo (o tratamento "demand-side": repressão de trabalhadores, jovens e pensionistas) tem redundado em numa recessão persistente e assimétrica no continente.
O problema que se tem insinuado de modo cada vez mais visível tem ultrapassado a questão económica em sentido estrito. Os desafios que circundam a Europa começam a ser claramente político-militares e geo-económicos. Ou seja, uma Europa sonâmbula abdicou estruturalmente de uma política externa virada para a auto-preservação (dissuasora de risco e insegurança) e de uma política industrial virada para a auto-promoção (construtura de competividade estratégica).
A Europa deixou-se cercar. Do ponto de vista de segurança e defesa permitiu que interesses e incongruentes e míopes minassem o seus interesses a sul e a leste. A estabillidade no Norte de África, no Médio Oriente e nas fronteiras com a Rússia está minada. Isto vai custar caro durante as próximas décadas. Do ponto de vista industrial e competitivo a Europa tem tolerado um euro caro face a outras divisas e uma erosão das suas competências científico-tecnológicas. Uma alternativa teria sido edeficar parcerias produtivas viradas para grandes objectivos comuns com os BRICS, com África, com a América Latina, etc.... ao invés disso o mais que se falou foi de um acordo aduaneiro com os EUA.
De "Stand-up comedy" a "Stand-up tragedy"
No meio desta fragilidade estrutural o elenco da nova Comissão Europeia é um momento de viragem épica.
Nomeia-se como super-comissários um núcleo de ex-Primeiros Ministros fieis à abordagem germânica (para a frente interna) e norte-americana (para a frente externa) .
Entre os vários comissários tem-se um relações públicas para a regulação financeira , um ajudante de campo do negócio do endividamento para a política de inovação , um amigo dos hidro-carbonetos com a pasta da mudança cimática , um membro de um partido agressivo contra os media como defensor da sociedade aberta , etc., etc.
Passámos dos Monty Python para os Monty Junker .
Bra-vo!
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/conomia-a-5=s25739#ixzz3DBVlx3F7
Sem comentários:
Enviar um comentário