sexta-feira, 17 de julho de 2015


Prémio Gulbenkian para o médico que tratou 21 mil mulheres vítimas de violação


ANDREIA SANCHES

17/07/2015 - 08:14


Denis Mukwege já disse que aquilo que vê nos corpos das mulheres que trata parece “obra de Satanás”. São violadas por grupos de homens, por vezes à frente das famílias. Ficam destruídas. O ginecologista congolês vem a Lisboa receber distinção.Denis Mukwege quando recebeu o prémio Sakharov em 2014 VINCENT KESSLER/REUTERS




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Estudou ginecologia e obstetrícia, queria ajudar a trazer ao mundo vidas novas. Mas a sua primeira doente no Hospital de Panzi, em Bukavu, na República Democrática do Congo (RDC), não foi uma mulher em trabalho de parto e sim uma vítima de violação, cuja vagina e o recto tinham sido destruídos com uma faca. Denis Mukwege, 60 anos, é especialista em cirurgia reconstrutiva. Tratou mais de 21.000 mulheres violadas no seu país. O vencedor do Prémio Sakharov 2014 estará em Lisboa na segunda-feira. Foi ele o escolhido para receber o Prémio Calouste Gulbenkian 2015, no valor de 250 mil euros, pela sua “extraordinária acção humanitária”, lê-se no comunicado da fundação.

Denis Mukwege tem sido descrito internacionalmente como “um herói”, um “dos maiores especialistas mundiais na reparação e tratamento de danos físicos” provocados por violações, ou L’homme qui répare les femmes — “O homem que repara as mulheres” —, título do documentário dos belgas Colette Braeckman e Thierry Michel que se estreou este ano sobre o congolês que já foi nomeado para o Nobel da Paz mais do que uma vez.

Uma das suas frases mais citadas voltou a sê-lo por vários jornais, como o francês Le Monde, a propósito, precisamente, da estreia do documentário: “as mulheres são as primeiras vítimas” dos conflitos e “as suas vaginas tornaram-se num campo de batalha”.

No Hospital de Panzi, que fundou em 1999, chegou a trabalhar 18 horas seguidas, operando dezenas de vítimas de violação num só dia. Chegam com lesões internas gravíssimas. Só na região de Kivu do Sul, onde se situa Bukavu, dados das unidades de saúde locais citados recentemente pelo jornal britânico The Guardian apontam para que, ainda hoje, 40 mulheres por dia sejam alvo de violência sexual.

Todas as quinta-feiras, Mukwege dá consultas no hospital. São dias muito ocupados, portanto. Às sextas opera. Ainda assim, o médico arranjou nesta quinta-feira uns minutos para falar ao PÚBLICO, ao telefone. Diz que a média deste ano está em “seis vítimas de violação por dia” que recorrem ao hospital. Já foi pior. A maioria são raparigas e mulheres adultas, mas também há crianças, “às vezes com menos de cinco anos”.

Em Novembro do ano passado, o Parlamento Europeu emitiu um comunicado que fazia o ponto da situação sobre o que se passa na RDC: “Alimentados pelo ressentimento étnico, pela impunidade que resulta da fragilidade do Estado e pelos lucros do roubo e exploração ilegal de recursos naturais, os grupos armados proliferam.” São as milícias, mas também, em muitos casos, membros das próprias forças armadas, que cometem estes crimes, lê-se no comunicado.

Tentativa de assassinato
Os prémios e distinções que Mukwege tem ganho — o Prémio dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 2008, o Prémio Olof Palme para resultados excepcionais na promoção da paz, o título de “cidadão do mundo” da Fundação Carter, o Sakharov, no ano passado, entre outros — têm-no ajudado a atrair as atenções para “as violações em massa”. Mas, como sublinhava ontem ao PÚBLICO, não deixou o terreno. “Continuo a cuidar das minhas doentes.”

Os prémios têm também ajudado a desenvolver outros projectos. “Temos um programa destinado a integrar as mulheres vítimas de violação nas comunidades, depois de elas serem tratadas no hospital. O dinheiro dos prémios que recebi no ano passado e este ano é para esse programa especial de integração social e económica das vítimas”, contou ao telefone. Será esse também o destino do Prémio Gulbenkian.

O congolês não pára. Mesmo depois de em Outubro de 2012 um grupo de desconhecidos ter tentado matá-lo à porta de casa. O seu segurança morreu, ele escapou por pouco.

“A violência sexual nunca foi levada verdadeiramente a sério. Quando armas químicas são usadas num conflito considera-se que uma linha vermelha foi ultrapassada. Onde está a linha vermelha na violência sexual?”, questionava, em Novembro de 2013, numa entrevista a Anne Senges, uma ex-jornalista que trabalha para o Banco Mundial. “As armas químicas, biológicas, nucleares têm efeitos a longo prazo. É o mesmo com a violação. As pessoas aparentemente ficam vivas mas na realidade as famílias, as aldeias, as sociedades permanecem destruídas ao longo de gerações”, disse no ano passado quando recebeu o Prémio Sakharov.

Muitas mulheres que chegam ao Hospital de Panzi foram violadas por grupos de homens. Muitas não sabem dizer quantos foram porque, quando aconteceu, desmaiaram a certa altura. Maridos e filhos são por vezes obrigados a assistir às violações. O médico tem contado em diversas ocasiões que algumas das suas vítimas aparecem com os órgãos destruídos com baionetas, pedaços de madeira, espingardas — os violadores querem garantir que ficam estéreis. Muitas acabam por voltar ao hospital, porque voltaram a ser violadas e destruídas e precisam de cirurgia de novo.

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