Realizadora de documentário sobre Snowden processa governo norte-americano
CLÁUDIA LIMA CARVALHO
14/07/2015 - 17:39
Laura Poitras foi detida sem explicação mais de 50 vezes nos últimos anos.
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Laura Poitras, realizadora que este ano venceu um Óscar com Citizenfour, o documentário sobre as revelações de Edward Snowden, vai processar o governo dos Estados Unidos, exigindo saber porque tem sido repetidamente sujeita a uma “perseguição kafkiana”. Poitras queixa-se de ter sido várias vezes detida em aeroportos sem qualquer explicação.
A realizadora que é também jornalista, de 51 anos, alega ter sido detida mais de 50 vezes nos últimos anos, muitas delas ficando retida nos aeroportos durante horas. Segundo o The Guardian, Laura Poitras nunca teve grandes explicações sobre o sucedido. Diversas vezes, as autoridades limitaram-se a dizer que a norte-americana estava numa lista de pessoas impedidas de voar. Aconteceu-lhe também ver o seu equipamento confiscado sem que lhe fosse depois devolvido. Laura Poitras queixa-se ainda de ter sido ameaçada em diferentes ocasiões por estar a tirar a notas.
No processo em questão, Poitras refere-se aos anos entre 2006 e 2012, quando trabalhava num filme sobre o fundador da Wikileaks, Julian Assange. A perseguição parou exactamente há três anos, explica a realizadora, quando falou publicamente sobre o que se estava a passar, ainda antes de Edward Snowden ser o foco de todas as atenções, já em 2013.
Ao recorrer à justiça, Poitras pretende explicações sobre tudo o que lhe aconteceu, exigindo que lhe seja dado acesso a toda a documentação do seu caso, dos registos das detenções aos inquéritos a que se viu obrigada a responder. Em 2013, um pedido semelhante foi-lhe negado pela justiça norte-americana.
Num curto comunicado publicado no site The Intercept, que actualmente dirige, a cineasta norte-americana explica que vai processar o governo dos Estados Unidos pelo facto de este, nas fronteiras, ignorar o Estado de Direito. “Isto não pode simplesmente ser tolerado numa democracia”, escreve Poitras, explicando ainda que avança para os tribunais para que mais ninguém seja sujeito a “perseguições kafkianas”. “Temos o direito de saber como é que este sistema funciona, e porque é que somos alvos.”
Não é a primeira vez que a norte-americana se queixa de ser perseguida. Poitras já tinha protestado por estar numa watch list dos serviços secretos, sem que alguma vez tenha sido acusada de algum crime.
A situação acalmou em 2012, quando Glenn Greenwald escreveu um artigo a denunciar o que se estava a passar. Foi com Greenwald que Poitras realizou, um ano mais tarde, Citizenfour, filmado quase exclusivamente durante os dias em que Edward Snowden, o antigo analista da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla original), esteve hospedado num hotel em Hong Kong, onde lhes entregou toda a documentação que retirara ilegalmente dos servidores da maior agência de serviços secretos do mundo. Tratou-se da maior fuga de informação da história dos serviços secretos norte-americanos.
No ano passado, Poitras e Greenwald partilharam o Pulitzer com Ewen MacAskill e Barton Gellman. O júri do prémio, que foi assim também partilhado pelo The Guardian e pelo Washington Post, destacou como aqueles jornalistas "ajudaram o público a perceber de que forma as revelações se enquadram na discussão mais abrangente sobre segurança nacional". Já este ano, a realizadora recebeu o Óscar de Melhor Documentário porCitizenfour.
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