"As minhas palavras têm memórias ____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso _________o momento do mistério inquietante de me escrever"
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Editorial de "Público"
EDITORIAL
Editorial: Lições de uma legislatura
DIRECÇÃO EDITORIAL
08/07/2015 - 21:47
Daqui para a frente está tudo em aberto, mas é bom não esquecer o passado
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TÓPICOS
Editorial
Há dois anos ninguém imaginaria ver os dois partidos da coligação a aplaudirem largamente, e em uníssono, o primeiro-ministro, durante o debate do estado da nação. O que significa a descrença, então existente, sobre a possibilidade de esta maioria chegar, unida, ao fim da legislatura. Aliás, é um feito inédito, pois é a primeira vez que uma coligação consegue completar um ciclo político. A dois meses de eleições, esta experiência poderá ser útil à esquerda, que sempre se mostrou incapaz de construir blocos alternativos de poder, tolhida quer por velhas querelas históricas, quer pela incapacidade de um aggiornamento político e cultural. As razões ideológicas contam e fazem vítimas, mas a política é negociação e cedências mútuas, como se viu com as crises deste Governo. Até certa altura houve alguma fractura entre os defensores da ortodoxia financeira, capitaneados por Passos Coelho e Vítor Gaspar, e a facção de pendor democrata-cristão representada por Paulo Portas. O líder centrista, vencedor do braço-de-ferro sobre a TSU — a primeira grande crise deste executivo, em 2012 —, julgou ter condições para esticar a corda um ano depois, quando em cima da mesa estava a contribuição adicional sobre as pensões. Não teve e foi obrigado a capitular pelo seu próprio partido, que pela primeira vez se impôs à vontade líder. A moeda de troca foi o alargamento da influência do CDS no Governo, com a entrada de Pires de Lima e a subida do próprio Portas na hierarquia do executivo. O objectivo estratégico sobrepôs-se às linhas vermelhas como, de resto, Tsipras já admite fazer na Grécia.
A dificuldade da esquerda portuguesa nestas eleições, que se realizam num clima de desgoverno mundial e de grande fragilidade das instituições europeias, é essa incapacidade de oferecer soluções de estabilidade nesta situação de insegurança em que vivemos. Os resultados surpreendentes obtidos por António Costa na sondagem que hoje publicamos, bem acima dos do PS, talvez sejam o reconhecimento de uma das suas características políticas mais notórias: a capacidade de congregar vontades e de estabelecer acordos, patentes na solução de governo encontrada para a Câmara de Lisboa. Mas não é só isso. Significam sobretudo a grande hostilidade do eleitorado a Passos Coelho, que talvez tenha levado longe de mais a “frieza estratégica” que ontem invocou no seu discurso do estado da nação. Isto acrescido do facto de, até agora, a coligação se ter limitado a acenar ao eleitorado com uma mão-cheia de nada. Em vez do futuro, a maioria só olha para o passado, como se só isso bastasse para merecer o voto dos portugueses, e continua a fazer do medo uma espécie de programa político. Programa que estranhamente ainda não apresentou, como se quisesse esconder as suas intenções, e quando se sabe que há dúvidas na coligação sobre se deve ou não divulgar a sua proposta sobre as pensões. Ao que parece, o célebre “que se lixem as eleições!” já se transformou em mito urbano. Desta vez criado por Passos Coelho.
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