quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Editorial de "Público"-in www.publico.pt"





EDITORIAL
Corrupção: aqui a percepção conta


DAVID DINIS

16/11/2016 - 06:27


No caso da corrupção, não basta ser sério. A percepção também conta – e pode dar conta de tudo o resto.




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Quando falamos de democracia, o que é que conta mais: os factos ou as percepções? A resposta mais válida é que contam ambas. Daí que o barómetro da corrupção da Transparência Internacional, que o PÚBLICO hoje lhe mostra em primeira mão, seja de enorme importância no momento político em que vivemos.

Diz-nos este estudo que metade dos portugueses entendem a corrupção como o terceiro maior problema que Portugal enfrenta. Acima dele, só a economia/desemprego e a saúde. Verdade ou não, neste caso a percepção de corrupção torna-se um facto. E perigoso, porque a isto se junta o entendimento de que o fenómeno não envolve apenas políticos – alastra-se às forças policiais e juízes como as profissões onde a corrupção mais alastra.

Se olharmos para os detalhes, há mais dados neste estudo que podem ser preocupantes para as autoridades. Como a resposta muito clara de que as denúncias não se fazem por medo de represálias – mostrando um país de crime sem castigo; e passando pela ideia muito maioritária de que o fenómeno piorou no último ano, em 2015, quando o caso José Sócrates inundou os noticiários; em que a Justiça começou a investigar o caso BES, em que rebentou o dos vistos Gold.

A verdade é que, semana a semana, nos últimos anos, fomos conhecendo buscas diferentes, casos novos, investigações sucessivas. Que podem criar uma ideia de especial atenção ao fenómeno, mas também a percepção de um problema grave que acaba sem consequências.

Mas é verdade, o caso português ainda não é gritante. Olhando para os restantes países analisados pelo barómetro, percebemos que os portugueses sentem, mais do que outros, que o seu governo faz alguma coisa para lutar contra o fenómeno; também sentem menos a influência dos mais ricos; e entendem a denúncia como algo positivo (o que não acontece noutros países da Europa, por exemplo).

Mas convém manter os olhos atentos: quando mais de 30% dos portugueses acredita haver corrupção generalizada na Presidência, Governo, Parlamento e empresas públicas, é porque já existe algum campo fértil para discursos populistas como os que estamos a ver noutros países do Ocidente. É verdade que, nas últimas presidenciais, o candidato que mais tentou aproveitar esse espaço, Paulo Morais, perdeu e por muito. Mas este é o campo onde ninguém pode descansar. É que, no caso da corrupção, não basta ser sério. A percepção também conta - e pode dar conta de tudo o resto.

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