segunda-feira, 14 de março de 2016

Artigo de Francisco Louçã in Blogues.publico.pt

Francisco Louçã

11 de Março de 2016, 08:45
Por
Francisco Louçã







O “se” do “colapso moral europeu”


Escreve Assis: nos “próximos dias” podemos ter o “colapso moral” da União Europeia. Tudo quase perdido. Para um político que fez da União o seu santo e senha, as palavras serão certamente bem medidas: “Aquilo que até há pouco tempo se afigurava impensável poderá estar prestes a tornar-se realidade: a União Europeia, abjurando todo o património de que tem sido portadora no campo dos direitos humanos, dispõe-se a pôr em causa o direito de asilo e a violar de modo grosseiro algumas convenções internacionais que ela própria originou. O sórdido pré-acordo estabelecido esta semana com a Turquia demonstra quão frágeis são as presentes lideranças políticas europeias”. Assis ainda acredita numa redenção, para evitar esta “abjuração de todo o património dos direitos humanos”, se os proponentes do acordo com a Turquia, os governos de direita e os social-democratas (ou as suas coligações) se revoltarem contra si próprios. Assim, “nos próximos dias, ainda algo se poderá fazer para evitar este verdadeiro colapso moral por parte da Europa”.

Estamos então no tempo do tremendismo, e como Assis tem razão! Devolvendo ou entregando à Turquia milhares (ou centenas de milhar?) de refugiados desesperados, dando ao mesmo tempo a Erdogan a luz verde para fechar os jornais de oposição ou para bombardear os curdos, a União é cúmplice do desastre, esse é o seu “colapso moral”. Nesta semana, na próxima semana, o que estes timoratos líderes europeus parecem preferir é desbarretarem-se perante a força dos tiranetes, contando cuidadosamente as moedas que lhes vão pagar para que o trabalho sujo da Europa seja executado para lá do Bósforo.

O “se” deste “colapso moral” está então datado: veremos o que decide a cimeira da próxima semana, que pode fechar esta conta difícil. Ainda é possível haver um recuo, pois a pressão da opinião pública, das organizações que protegem os refugiados, das Nações Unidas, até do parlamento europeu, pode criar maiores contradições entre os governos.

Mas repare que, mesmo se este plano sinistro fracassar à última hora, o que parece difíil, o que é certo é que a União Europeia não está a preparar uma alternativa, muito menos a que seria necessária e humana, baseada na passagem dos refugiados, na sua protecção contra as mafias, num plano para o fim das guerras que os perseguem e em medidas decentes contra o frio e a fome.

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