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OPINIÃO
Os dois caminhos do antigo PaF
JOSÉ PACHECO PEREIRA
19/03/2016 - 00:05
Os caminhos são diferentes quando cada um fica sozinho. Até ao dia em que o PSD volte a ganhar eleições, coisa que o CDS é incapaz de fazer, e cada um precise do outro.
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TÓPICOS
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PSD
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António Costa
Sá Carneiro
Partidos políticos
Passos Coelho
CDS
Durante a discussão do Orçamento do Estado foi nítida a separação dos dois partidos do ex-PaF, o CDS e o PSD. Essa separação foi acentuada no congresso do CDS e por múltiplas declarações dos seus dirigentes. Os dois partidos consideram-se a “direita”, o que significa que entendem partilhar o mesmo campo ideológico e político, e por isso a separação anunciada e cada vez mais evidente não os impede de se situarem no mesmo lado da trincheira, caso se lhes coloque uma hipótese de governo que dependa de uma “sua” maioria parlamentar. Mas na oposição estão a separar-se cada vez mais e existem razões objectivas, que têm que ver com a sua dimensão — a dimensão é um factor fundamental na análise partidária —, com a sua relação com interesses económicos distintos e com a composição, currículo e carreira dos seus quadros dirigentes.
Esta “direita” é de construção recente, pesem embora os factores históricos que condicionam a ecologia de cada partido e que lhes dão o seu “programa não escrito”. A “direita” de que falamos é um produto destes anos de “ajustamento” e resultou da conjugação de dois factores: a absorção por parte da elite dirigente do PSD de uma vulgata económica e ideológica a que habitualmente se chama “neoliberalismo”, e o modo como no CDS e no PSD o “ajustamento” os tornou num instrumento político orgânico de uma parte dos interesses económicos especialmente favorecidos pela política europeia datroika e do FMI, e pela sua consolidação no Eurogrupo e na maioria do PPE nas instituições europeias, com a Alemanha à cabeça. O PSD abandonou uma “linha vermelha” de Sá Carneiro e passou a sentir-se bem dentro dessa classificação de “direita”, pese embora o uso vazio do termo “social-democrata”. Essa é uma mudança muito significativa e uma das razões que levaram a um frentismo governamental e a uma reacção unitária da esquerda. A “direita” mudou e a esquerda reagiu fazendo aquilo que ninguém esperava, uniu-se.
Depois há outra mudança fundamental, um antes e um depois. A relação entre o poder político e económico em Portugal existiu sempre e caracterizava-se por uma grande promiscuidade. A novidade é que passou da promiscuidade, que implicava um conúbio entre dois, para uma unicidade orgânica. A condução da política passou a ter como linha condutora principal a expressão desses interesses económicos de forma nua e crua, sem mediação, entendendo-se a acção política como um braço armado de uma certa interpretação da “economia”, a da TINA, do “não há alternativa”. Como Passos Coelho admitiu, o modelo passou a ser Singapura, entendida como utopia do “mundo dos negócios” ideal, combinando um total liberalismo económico com um mais ou menos latente autoritarismo político. O que aconteceu nos anos de “ajustamento”, que para actores políticos como Cavaco Silva e Passos Coelho era uma tarefa purificadora de pelo menos mais de duas décadas, foi exactamente isso.
Sabemos o que uniu esta “direita”, mas o que é que está a separar o PSD e o CDS dentro dessa “unidade”? Substancialmente duas coisas: a representação dos interesses e o papel de cada partido e dos seus “bens” na sociedade. O PSD joga no curto prazo e na crença de que o Governo PS e da esquerda cairá em breve. Contam para isso com a conjugação entre as “ordens” europeias e a dificuldade em manter as alianças parlamentares à esquerda, caso o PS considere que não pode deixar de as cumprir, o que, como tudo indica, acontecerá. Esperam também um agravamento significativo das condições económicas internas e externas e que a Comissão Europeia, em particular o Eurogrupo e as agências de rating, cumpram o seu papel. Desejam que os juros subam e que possa haver um cenário de resgate, porque perceberam que um cenário de resgate e de crise económica representa condições excepcionais para fazerem políticas anti-sindicais, e de recomposição social, que numa democracia normal, sem estado de excepção, não podem fazer. É uma estratégia agressiva e catastrofista, com pouca consideração pelo interesse nacional, mas não é uma estratégia irrealista. É até bastante realista e à esquerda menospreza-se esta possibilidade.
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