terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Editorial de "Público", sobre MERKEL


EDITORIAL
Apontar as armas para o lado errado


DIRECÇÃO EDITORIAL

08/02/2016 - 23:30


Merkel condena a intervenção da Rússia na Síria, mas imagina a NATO a conter os refugiados.




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Na guerra síria já não há mais alertas vermelhos para acender. O que se imaginava como cenários mais dolorosos são hoje realidade, e só em assomos de retórica o mundo vai aliviando a sua pesada consciência. Angela Merkel indigna-se com a Rússia, acusando-a de violar resoluções da ONU, a Rússia indigna-se com Ban Ki-moon, ou seja com a ONU, e naturalmente também se indignará com Merkel, mas a verdade é que as bombas continuam a cair em Alepo, Latakia, Homs, Hama, Deir-al-Zor, ao mesmo tempo que os soldados de Assad vão progredindo no terreno e afugentando ou abatendo adversários, sejam eles terroristas no autoproclamado EI ou opositores “apadrinhados” a Ocidente. Como resultado desta imparável progressão militar, a onda de refugiados engrossa e avança, como um animal ferido sem saber para que esconderijo se dirigir. E é aqui que confluem todos os receios e também todas as indignações. Aos milhares (já na casa dos milhões) de fugitivos aos pavores da guerra, já nada é oferecido a não ser desumanas esperas em campos onde os vão concentrando sem perspectivas de futuro; perseguições, com vista a escorraçá-los para lugares onde não os querem; ou até mesmo uma barreira militar com armas habitualmente usadas noutras guerras. Na Turquia, a chanceler alemã (“horrorizada”, e justamente, com os bombardeamentos russos na Síria) foi pedir contas pela contenção dos refugiados sírios, inquirindo Ancara acerca do destino dos 3000 milhões de euros que recebeu com esse fim. O primeiro-ministro turco disse, claro, que vão pensar no assunto. E na próxima semana o governo turco, garantiu, já terá “as primeiras ideias”. Antes destas, porém, já Merkel teve as suas: apelar à NATO para ajudar a conter as vagas de refugiados. Como se fosse eles “a” guerra. Como se a verdadeira guerra, a que os faz arriscar a vida longa da pátria, não fosse mais abaixo. Lá, onde a morte espreita, sem que saibam calar com eficácia as armas dos criminosos.

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