"As minhas palavras têm memórias
____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso
_________o momento do mistério inquietante de me escrever"
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Crónica do Historiador Rui Tavares (in www.publico.pt)
Será coincidência que os ministros das finanças da UE, representando governos nacionais, sejam sempre mais inflexíveis com os outros governos do que até as instituições europeias? Após uma passagem relativamente desenvolta pela Comissão Europeia, o orçamento português chegou ao eurogrupo e logo tivemos o seu presidente e ministro das finanças holandês Jeroen Dijsselbloem a aumentar a pressão sobre Portugal, o ministro das finanças irlandês Michael Noonan a chamar o nosso governo de "extrema-esquerda" e, claro, o ministro das finanças Wolfgang Schäuble a dizer que a influência de Portugal sobre a economia europeia é mais séria do que os problemas do Deutsche Bank — cujos ativos são cerca de cinco vezes maiores do que o PIB português.
Que se passa aqui? Muito naturalmente, cada um destes ministros está preocupado com os seus orçamentos, os seus impostos, os seus parlamentos nacionais e — acima de tudo — com os seus cargos, os seus governos e os seus eleitorados. Que isto não dá grandes razões de solidariedade toda a gente reconhece; mas é importante notar que também não ajuda à racionalidade. Ao tentar usar Portugal como forma de distrair as atenções do mundo dos problemas do sistema bancário alemão, Schäuble só conseguirá puxar ambos para baixo.
O que é pouco notado, contudo, é que ao pretender fazer a União Europeia recuar na sua integração estaremos a agravar este problema. Para cada exigência de que o "nosso" ministro das finanças vá a Bruxelas e imponha a sua vontade aos outros, cada uma das opiniões públicas nacionais está a exigir o mesmo ao ministro das finanças "deles". Mesmo um inteiro regresso ao poder dos estados-nações não resolveria este problema: a chantagem financeira e económica entre países era ainda mais forte no passado.
Vivemos tempos complicados para os estados. Qualquer estado, mesmo os supostamente mais autónomos como a China, a Rússia ou os EUA, pode sentir a natural compulsão de por o pé em terra firme e exercer a sua soberania "à antiga". Mas a economia global tornou-se numa espécie de areia movediça: quanto mais achamos que queremos pôr o pé em terra firme, mais nos afundamos.
O que fazer, então? Em primeiro lugar, não ceder ao pânico. As políticas nacionais estão a tornar-se a arena das reações mais instintivas e de todos os oportunismos e demagogias. Manter a calma é essencial para não destruir o estado de direito democrático que demorou séculos a alcançar. Em segundo lugar, reconhecer que as interdependências globais aconselham à solidariedade e à integração, desde que democraticamente controladas, tanto ao nível nacional como europeu (ou supranacional). Em terceiro lugar, entender que para conseguir debelar esta crise é necessário um longo esforço cívico para construir uma democracia europeia e uma Europa social num ambiente de cinismo dominante.
Portanto está ainda de pé a pergunta: a questão não está em seguir Schäuble, ainda que em oposição a ele, mas em saber porque não haveria a esquerda em Portugal de se juntar àqueles que, de Tsipras a Corbyn, entenderam que só o envolvimento na refundação do projeto europeu nos permitirá afastar dos comandos dele este egoísmo reacionário que nos afunda.
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