Campanha sem dramatismo nem mobilização
Nuno Ribeiro
17/01/2016 - 08:21
Morna, sem tensões, subjugada pelas decisões do Parlamento e do Governo, sem polémicas atraentes, assim tem sido a corrida para Belém.
Desinteresse da cidadania pode traduzir o apagamento da função presidencial
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Terminada a primeira semana de campanha para as presidenciais serão os derradeiros dias de propaganda mobilizadores? Há dúvidas consistentes que tal venha a acontecer. Os especialistas no comportamento eleitoral e nas sondagens colocam a questão na equação abstenção versus segunda volta. Não serão pois, as opiniões políticas, a concitar as intenções. Aliás, uma campanha sem dramatismo de opções, sem confronto, não leva às urnas.
“Uma campanha presidencial é sempre uma campanha de tensões. Se o ambiente foi de bipolarização nas legislativas de 4 de Outubro ou era falso ou está agora escamoteado”, analisa o ex-ministro do PSD Ângelo Correia. “O tom geral é o pior de uma campanha presidencial até hoje e ainda faz sonhar alguns nostálgicos da monarquia”, ironiza.
Para a actual situação, o antigo ministro socialista João Cravinho toma como referência a existência de uma maioria de esquerda no Parlamento que tornou o hemiciclo de São Bento o centro da vida política. “Esta é, na verdade, uma campanha atípica pelo número de candidatos e pela sua diversa origem, mas a campanha coincide com uma mudança de ciclo político, o Governo e o Parlamento vão suscitando debates que na percepção popular limitam muito a relevância dos discursos dos candidatos presidenciais”, diz o antigo ministro de António Guterres.
Dito de outro modo: a tensão no Parlamento sobre a governabilidade retira dramatização às presidenciais para que fossem mobilizadoras. A resolução do caso Banif, a reversão dos exames no ensino básico ou os diferentes ritmos em jogo para o regresso das 35 horas à função pública são exemplos consecutivos.
No entanto, João Cravinho não partilha a opinião de que a figura presidencial se desvalorizou. “Nesta crise, os portugueses aperceberam-se que o Presidente da República é, para bem ou para o mal, o árbitro. Até à crise do irrevogável [a crise do Verão de 2013 suscitada por Paulo Portas], embora dando apoio institucional ao Governo, Cavaco Silva mantinha alguma identidade. A partir de então, Passos Coelho meteu Cavaco e Portas no bolso e, de uma maneira muito perceptível, o Presidente passou a ser o escudo do Governo”, destaca. Daí, Cravinho enuncia uma consequência. “As pessoas passaram a considerar que não é bom ter um Presidente que se partidarize”, afirma.
“A campanha é morna, os partidos do defunto arco da governação são responsáveis e o PS dividiu-se”, constata o antigo presidente do CDS José Ribeiro e Castro. “É uma eleição na qual os candidatos principais não têm uma missão, embora os de esquerda tenham encontrado o objectivo de derrotar Marcelo Rebelo de Sousa”, prossegue.
Ao contrário de João Cravinho, o ex-dirigente centrista admite um apagamento da função presidencial, através de uma menorização do Presidente, cuja eleição por sufrágio universal e directo choca com uma crescente dependência da vida partidária das lideranças e da sucessiva consolidação dos directórios dos partidos. “Há propostas para a eleição indirecta [no Parlamento] do Presidente e de um único mandato alargado, mas creio, no entanto, que o sistema semipresidencialista funcionou bem como válvula de escape”, retrata. “O Presidente da República pode, contudo, ter um papel determinante ao ‘colar o papel rasgado’, ou seja, a fazer pontes e mediações”, sinaliza.
Os especialistas em sondagens são também unânimes na apreciação do tom da campanha. “A proliferação dos debates que decorre da lei e do acordo das televisões com a Comissão Nacional de Eleições vulgarizou a campanha, não contribuiu para a mobilização, vamos ter provavelmente a maior abstenção das eleições presidenciais”, admite Rui Oliveira e Costa. O responsável da Eurosondagem aponta, ainda, que a ausência de candidatos naturais e a falta de empenhamento forte dos principais partidos está na origem do desinteresse.
“Não me admira o estilo da campanha, o acto de votar é o produto combinado de simpatia e motivação, o que é um risco para quem se apresenta como favorito, mas não se vai reproduzir o duelo de 1986 entre Mário Soares e Freitas do Amaral”, considera António Salvador, da Intercampus. “A existência de dez candidatos, alguns que o são pelo lado lúdico do gozo pessoal ou da vaidade, é um esforço de brio pessoal, é um exercício democrático, mas também é a demagogia que a política permite”.
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