quarta-feira, 9 de outubro de 2013

POEMA: VOO












POEMA: VOO

Voaria,
se a vida e o sonho o permitissem,
até ao infinito-de-mim…

Mas não posso…
…eu não tenho infinito!

O meu voo é nas palavras, inconformes e alienadas,
que os dedos desenham
pela ponta da pena-escrava
quando se enlaça à mensagem .


Poema-meu…
… ilha errante na orla constante de um início…

…poema-queixa…
…poema-revolta…
…POEMA-POEMA
onde viajo na réstea de liberdade
de uma cantata à solta!


(Ícaro…interstício-do –engano-da-verdade)


O sonho interroga a poesia no alvo aparecer do dia!
Olho os céus na ponta das palavras e voo pelas nuvens
com lexemas nas aragens do pensamento,
à procura de luzes eternas e brilhantes
que sedimentem o corpo do poema .


Os ventos, em espiral, num etéreo voltear,
escalam sonhos das noites e sopram soltos o Universo,
onde páro para me encontrar.
Apanho brisas de horas, que perpassam pelas
vazias asas que não possuo…
…mas sinto-as nas gotas de orvalho, quando sofro palavras
que voam ao sol ardente e se desfazem em cera-poesia!

Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
(MERR)


- OUT/012-MSG-CP15

Crónica de Pacheco Pereira,Historiador, do dia 1 de Outubro/013






TERÇA-FEIRA, OUTUBRO 01, 2013

Às portas do Inferno - crónica de Pacheco Pereira

"Amanhã vota-se nas eleições autárquicas. Apesar do enjoo que suscitam no pedantismo nacional e no engraçadismo que substituiu o debate público, foram e são particularmente interessantes. São-no pelo seu significado nacional e local, são-no pela imensa participação cívica, pelo que revelam de tendências mais profundas da vida político-partidária, com a emergência de "independentes" fortes, mas são-no acima de tudo porque mostram um fugaz retorno da política e da democracia ao país da "emergência financeira". Durante um mês, não fomos "intervencionados", seja por escapismo irrealista, seja por liberdade, a política soltou-se. Não é por acaso que os partidários do "estado de excepção financeira" as tratam tão mal, como à democracia.

Estas eleições foram eleições livres da troika, para a asneira e para a coisa boa, capazes de ainda manter algum espaço saudável em que o garrote vil das "inevitabilidades" não entra. Foram eleições em que o PSD e o CDS prometeram pontes e calçadas, túneis e aquedutos, livros gratuitos e medicamentos para todos, óscares de Hollywood e prémios internacionais de arquitectura, ou seja, foram eleições que ocorreram nos bons e velhos idos do esbanjamento no seu máximo esplendor. Sócrates devia sentir-se em casa, no meio dos cartazes autárquicos, Passos Coelho devia pintar a cara de preto por não conseguir convencer os seus dos méritos de empobrecer. Mas, bem pelo contrário, andou nas arruadas soterrado por círculos e círculos de guarda-costas e polícias. Estranho, não é?

Depois de amanhã, voltamos ao Portugal da troika, em pleno pós-"crise Portas", com o fantasma da instabilidade que o "irrevogável" fez sair da lâmpada e que não volta outra vez para lá, a habitar os escritórios assépticos da Moody"s e da Fitch. O Governo está paralisado, diria eu mais uma vez, se não fosse esse o estado mais habitual. Se os portugueses soubessem como são os Conselhos de Ministros, como todo o trabalho orçamental está bloqueado pelas resistências de ministros e pela espera das decisões da troika, percebiam muito do que é o estado do país. A coisa está tão negra e tão confusa, tão desesperançada, que nem o ministro da propaganda Maduro está com força anímica para inventar mentiras eficazes.
O último produto do laboratório orwelliano governamental para responder às decisões do Tribunal Constitucional é contraditório e pífio. Por um lado, diz Portas, o essencial da "reforma laboral" passou no Tribunal Constitucional (os feriados e os dias de férias...), e o menos importante (os despedimentos sem regras, estão mesmo a ver a irrelevância...) chumbou. E logo a seguir, dito pelo mesmo, o mantra ameaçador da perplexidade dos mercados face às decisões do Tribunal. Não percebo por que razão tendo tido o Governo vencimento de causa constitucional no que era mais importante, cai o Carmo e Trindade da Comissão, do BCE e do FMI, pela parte que era menos importante... Já nem sequer se preocupam em elaborar mentiras com algum nexo.

Mas o essencial do enorme impasse em que está a governação reside na conjugação da tempestade perfeita: a "crise Portas" deitou fora a "credibilidade" de Gaspar, e é natural que assim seja porque Portas saiu "irrevogavelmente" por considerar que a política de austeridade estava esgotada e queria mostrar resultados na "economia" e pôr atroika na rua. Está-se mesmo a ver como é que esses "sinais" são lidos pelos "mercados", até pela sua inconsequência. Portas é o directo responsável pela crise dos juros portugueses e anda por aí em campanha eleitoral a falar de "recuperação económica". Se houver segundo resgate, como muito provavelmente haverá, de forma aberta ou encapotada, agradeçam-lhe num lugar de honra. Não é o único, bem pelo contrário, mas foi de todos aquele que mais mal fez ao país, pela futilidade da sua vaidade e do seu gigantesco ego.

O menosprezo do Presidente pelos factores políticos da crise, que levou a manter em funções o "navio-fantasma" do governo da diarquia Passos-Portas, apoiado pela opinião publicada que assume o discurso da "inevitabilidade", pela imprensa económica e peloestablishment financeiro, assente na fraqueza de Seguro, impediu que a solução, arriscada, imperfeita, e com custos, das eleições antecipadas pudesse alterar os dados da questão e permitir mais espaço de manobra política. Conheço muita gente que nem queria ouvir falar de eleições e hoje começa a perceber que elas permitiriam alterar os dados políticos, que o actual impasse não permite.

Por tudo isto, depois de amanhã vamos acordar na antecâmara do Inferno. Pensam que estou a exagerar? Na verdade, nestes dois anos, a realidade tem sido sempre pior do que a minha mais perversa imaginação, porque as coisas são como são, tão simples como isto. E são más. A partir de amanhã, haja convulsão mansa no PSD, ou forte no PS, acabarão por milagre as pontes, túneis e medicamentos gratuitos, que ninguém fará, nem pode fazer, e vai começar o discurso puro e duro da violência social contra quem tem salários minimamente decentes, quem tem emprego no Estado, quem recebe prestações sociais, quem precisa de serviços de saúde, quem quer educar os seus filhos na universidade, quem quer viver uma vida minimamente decente, quem quer suportar uma pequena empresa, quem paga, com todas as dificuldades, a sua renda, o seu empréstimo.

O que nos vai ser dito, com toda a brutalidade, é que os nossos credores entendem que ainda não estamos suficientemente pobres para o seu critério do que deve ser Portugal. Apenas isto: vocês ganham muito mais do que deviam, não podem ser despedidos à vontade, têm mais saúde e educação do que deveriam ter, trabalham muito menos do que deviam, vivem num paraíso à custa do dinheiro que vos emprestamos e, por isso, se não mudam a bem mudam a mal. Isto será dito pelos mandantes. E isto vai ser repetido pelos mandados da troika, sob a forma de não há "alternativa" senão fazer o que eles querem. Haver há, mas nunca ninguém as quer discutir, quer quanto à saída do euro, quer quanto à distribuição desigual dos sacrifícios, de modo a deixar em paz os mecânicos de automóveis e as cabeleireiras e olhar para os que se "esquecem" de declarar milhões de euros, mas isso não se discute.

Por que é que, dois anos depois de duros sacrifícios, estamos pior do que à data do memorando, por que é que nenhum objectivo do memorando foi atingido, por que é que o Governo falhou todos os valores do défice e da dívida, porque é que o desespero é hoje maior, a impotência mais raivosa, o espaço de manobra menor, isso ninguém nos explicará do lado do poder. Vai haver um enorme atirar de culpas, à troika, do PSD ao CDS ao PS, à ingovernabilidade atávica dos portugueses, aos sindicatos comunistas, aos juízes conservadores do Tribunal Constitucional, e o ar ficará denso de palavras de raiva e impotência. Mas "vamos no bom caminho", dirá o demónio de serviço à barca do Inferno. Depois de amanhã ouviremos essas palavras".

Pacheco Pereira

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Boa noite, meus amigos!


Poema de Amor , de VINICIUS de MORAES




Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes

O Pensamento de Eduardo Lourenço



Tempo e Poesia, Gradiva

“Como a palavra comum, e mais do que ela, a escrita é um risco total. De uma maneira geral ninguém a lerá como o seu autor a concebeu. Ela será ocasião inevitável de desentendimento, desatenção, porventura irritação ou desprezo, mas igualmente de comunhão possível, de entusiasmo, sobretudo de veículo para o transporte do próprio sonho.”


“À obsessão de julgar a Obra, antepôs-se-me a urgência de uma espécie de osmose com ela, de modo a que o meu discurso sobre ela fosse uma espécie de duplo, não do seu próprio discurso – o que nenhuma Obra é -, mas da claridade, da evidência interna, do movimento, em suma, da vida iluminante que na Obra existe, por ser o que é.”


“Decidi, por conseguinte, que os Poetas seriam os meus guias e não os críticos, quero dizer a espécie crítica que vive na ilusão de uma superioridade de estado do seu próprio estatuto crítico e da instância (quando não instituição...) em que se constitui.”


“O acto crítico autêntico é um contínuo acto de amor que não precisa de outra justificação que a da invenção mútua de existência em que todo o amor consiste […].”


“Em sentido radical não há nada a dizer de um poema, pois é ele mesmo o dizer supremo.”


“Se nada mais ficar do propósito que os meus textos «críticos» quiseram encarnar, que sobrenade ao menos a paixão e o fervor nunca desmentido pela Poesia mesma, lâmpada miraculosamente intacta no tempo de plurais trevas que a cercaram sem a poder dissolver.”


“Espírito da Terra capaz de romper através da vida obscura da inércia animal para oferecer uma face de Deus ao apelo universal da luz, a Esfinge é encarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana. E ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia.”


“Compreender a Esfinge, compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. É aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que nos impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes.”


“A Saudade é a sensível existência humana, a si mesma inacessível e próxima. Inacessível porque próxima.”


“O amor pela poesia, como todo o amor, é a história dum equívoco.”


“A importância única da geração de Orpheu reside nessa aceitação sem limites da seriedade da poesia, ou, se se prefere, da poesia como realidade absoluta.”


“O universo de «Orpheu» é o de um abalo radical que num segundo de terror e êxtase confunde na terra desolada os deuses e os demónios. O drama de «Presença» é o de homens que entre as ruínas de uma terra novamente quieta procuram com fervor a imagem de um deus mais intacto para adorar. Enquanto o não acham, o prazer e a angústia da busca lhes servem de verdadeiro deus.”




Fernando, Rei da nossa Baviera, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1993.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

POEMA: AMOR-AMANTE















POEMA (REP.)

AMOR-AMANTE

Esquece-se o mundo…
Vive-se, embriagado, nas almofadas de nuvens…
Olha-se, com mais ternura, o desabrochar das flores…
Está-se mais atento ao leve torpor do crescer das folhas…
É mais brilhante e prateada, a Lua,
…e as estrelas têm novas cores…
Batem mais suavemente as areias do mar e
as ondas de espuma afagam , lentamente,
os pés enterrados no leito-areal…

As horas nunca mais passam…
Depois, passam depressa demais…

Dói o coração-sem-doer…
Deseja-se o Desejar…

Ama-se! e a alma não sabe que fazer…deixa andar e vai estando
-no-estar-a-Amar…

Os rios são mais fluidos e convidam a mergulhar
ali…onde os seixos areados são jóias de emoldurar…


Sob ventos adormecidos em madrugadas lunares
soltam-se ,do firmamento, rumores
de sílabas maceradas em calores de lava ardente,
descendo rugosas colinas no fragor de magma-crescente.

Suavemente,
penetram meus sentidos das palavras ciciadas Outrora,
no meio da tempestade de claridade de um-Agora
que nos aqueceu as mãos…

Depus em teu corpo,
na pele do Outono,
toda a infinda luz que habita meu íntimo trono!
Preciso de naufragar-em-ti…
…beber-te o sumo dos lábios…
…hidratar todo o meu ser com a água do teu mar,
sem nunca-Nunca!- aportar a qualquer incerto porto…

Maria Elisa R. Ribeiro


Marilisa Ribeiro-CQ16-FEV/013-(ERT)

POEMA DE JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)

Poema de José Gomes Ferreira : in NET


Extrai Todos os Dias

Extrai do todos-os-dias
O hoje de todo-o-sempre
Até ao fim do mundo
Quando o sol gelar
A última eternidade.
Embala amanhã nos braços dos outros
A criança esquecida
Que foi agora atropelada
Por mil automóveis
Em todas as ruas do mundo.

Procura nas lágrimas recentes
Os olhos de hão-de chorá-las
Daqui a dez mil anos.

E se queres a glória
De ser ignorado
Pelo egoísmo do futuro
Ouve, poeta do desdém novo:
Canta os mortos das barricadas
E a volúpia das dores do tempo.

(Mas pede às rosas
que continuem a repetir-se
até o fim das pedras…"(?)


(1900-1985)

domingo, 6 de outubro de 2013

POEMA: NOITE DE PÉGASO









POEMA:
NOITE DE PÉGASO…


.uma gota de orvalho deslizou, caiu e o solo estremeceu…
.foi o peso da asa de uma borboleta que desnudou a folha
[coberta de humidade…

…esse chorar lacrimoso da noite, em que o orvalho viaja no dorso de Pégaso,
num ar invisível recheado de densas neblinas.


.na escuridão do crepúsculo adiantado, embriaga-se o solo com o som da água
a correr pelas folhas, em-socalcos da ténue espuma-a-respirar,
[nas-dobras-do-rio…


.murmura a brisa ao sentir ruírem pequenos pedaços de nós
.que deslizam perenemente para uma qualquer queda de água
.que teima em chegar ao mar, onde as ondas espalham seus leques de branca
[espuma, por sobre o areal
…onde fazem sussurrar o pobre cascalho já quase morto como areia
[do deserto-longe-tão-perto…



Ouvem-se os passos dos mistérios da noite das montanhas…
Movem-se, abanando, as asas do cavalo de vento…
O olho da Lua espalha-se em efeitos de luz, quieta como lago calmo,
[prateando o mundo…

…mundo exterior, em geometrias do espaço geográfico…
…mundo interior, em tessituras-graves-de-agudas sinfonias…


Uma gota de orvalho caiu…outra caiu, depois de outra…

Ninguém ouviu…o húmus agradeceu e o nascimento de um poema
[aconteceu dentro do solo
[fertilizado…



.os elfos e os duendes, cansados de lendas celtas, rejubilaram…
…nadaram num leito de urzes e cavalgaram giestas na noite de Pégaso,
na louca fantasia de usar a mitologia, como foco de verdades .


Os grilos pastorearam- cantatas- na-luz -do- luar
e as estrelas ficaram entretidas, a ver-a-noite-passar-a-vê-las…


Maria Elisa R. Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)-REG-CP13-AGT/013(VDS)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Pensamento de Eduardo Lourenço

O Pensamento de Eduardo Lourenço :

""Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.!"
"Fonte - Jornal das Letras, mas tendo como fonte "Portugal - identidade e imagem" in "Nós e a Europa ou as duas razões", por Eduardo Lourenço (1988)Tema - PovoFonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias / 20030904

POEMA(MEU): ORLAS DA ETERNIDADE






Poema: ORLAS DA ETERNIDADE


ORLAS DE ETERNIDADE


É profundo
o espaço-do-tempo de todas as inocências
do Existir.
_________________________________________Resta ao homem,

_________________________________________ser na essência da clarividência da verdade,

_________________________________________uma - realidade- a-Acontecer.

O poeta acorda e senta-se na mão do sol,
que se prende à raiz subcutânea
da verde orgânica-matriz!

________________________________________Nas pétalas das flores e nas copas das ________________________________________árvores,

________________________________________fixam-se as sílabas que rebentam a vida ________________________________________telúrica
________________________________________da terra-ventre-
________________________________________-vida-raíz.


Então, o universo, numa orla de eternidade,
apressa-se a caber no poema,
tal como cabe o mar no mistério-humanidade.



Parada numa ilha da claridade

à beira de uma antiga realidade,

oiço, nas vielas empedradas do continente-cais,

guitarras a chorar saudades,

que ficaram retidas nos palmeirais!

E aprendo que o vento move as caravelas,

ao som do sol das estreitas ruelas!


Nasci com a incumbência de ir-apanhando-rosas pelos espinhos da errância…essa vaga tormentosa onde se vive em permanente ânsia…
No Verbo do poema está a minha Urgência!
No seu Corpo… a minha essência…

Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
(MERR)


OUT/012 –(MQC)CP 15

POEMA DE RAÚL BRANDÃO(1867-1930)

POEMA DE Raúl Brandão (1867-1930)-in Pesquisa Net


"Tem as mãos como cepos.
Para contar fio a fio a sua história
bastava dizer como as mãos se lhe foram deformando
e criando ranhuras, nodosidades, côdeas,
como as mãos se foram parecendo
com a casca de uma árvore.
O frio gretou-lhas,
a humidade entranhou-se,
a lenha que rachou endureceu-lhas.
Sempre a comparei à macieira do quintal:
é inocente e útil e não ocupa lugar,
e não vem primavera que não dê ternura,
nem inverno sem produzir maçãs.

Há seres criados de propósito para os serviços grosseiros.
Por dentro a Joana é só ternura, por fora a Joana é denegrida.
A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste também as árvores.

Mal se compreende que depois de uma vida inteira
esta mulher conserve intacta a inocência de uma criança
e o pasmo dos olhos à flor do rosto."

quinta-feira, 3 de outubro de 2013


EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Mário Soares defende que PS deve romper com a troika


por Lusa08 maio 2012117 comentários




O fundador do PS e antigo Presidente da República Mário Soares defende que o Partido Socialista deve romper com o acordo da 'troika', alegando que a situação evoluiu e que a austeridade não funciona no país.


Em entrevista hoje publicada no jornal i, Mário Soares diz que o caminho certo para o PS e para o socialismo europeu é cortar com o programa da 'troika' constituída pelo Banco Central Europeu, o FMI e a Comissão Europeia.

"Acho que é esse o caminho. A austeridade, tal como a definem, não tem sentido", afirma, considerando que a obrigação já foi assumida há um ano, mas que "chegou ao fim".

Para Mário Soares, não há razões para o PS se manter fiel ao acordo assinado em 2011 com aquela entidade, porque "tudo evoluiu: o acordo da 'troika', a 'troika' e o país".

Admitindo que a obrigação de cumprir o acordo que o PS sentiu durante um tempo fez sentido - já que o pedido de ajuda financeira foi feito pelo então primeiro-ministro e líder do PS, José Sócrates -, Mário Soares refere que, hoje, se vive uma situação de pré-ruptura.

Se a ruptura não acontecer devido ao PS, "poderá ser a própria 'troika' que vai ao ar", afirmou o ex-Presidente da República.

"A 'troika' está dividida. O Fundo Monetário Internacional tem uma posição, o banco Central Europeu tem outra, a Comissão Europeia tem outra", afirmou, considerando que esse desacerto de posições e a situação que a Europa atravessa podem levar à implosão da 'troika'.

"Os dirigentes europeus, quase todos já perceberam que reduzir a União Europeia à austeridade e aos equilíbrios financeiros para favorecer os mercados usurários e sem ter em conta a recessão económica e o desemprego avassalador que está a crescer implica que a Europa vai de mal a pior", considerou.
Artigo Parcial

POEMA: DECLINA A TARDE...








POEMA: DECLINA A TARDE...


DECLINA A TARDE, NUM OUTONO…


Declina a tarde na suavidade do Outono.


A claridade foge para o anoitecer e vamo-nos tornando sombras a repousar o olhar nas folhas amarelecidas prontas a adormecer nas asas de um tempo curto que voltará a sorrir*


Gritam, as árvores, o secreto furor de rejuvenescer¨*


Despidas de velhas memórias das sonoridades dos raios de luar órfãs da verdura do incenso das madrugadas correm, calmas, para a alma da nova Primavera*


A palpitante face dos crepúsculos começa a descer as escadas do sol, deambulando, lentamente, pela terra adormecida, até ao momento da descida dos orvalhos*


Uma corola erecta inspira os pássaros que, possessivos, guardam o cio para o tempo dos perfumes das flores-a-abrir, em labaredas de cores*


Olhos de escuras crateras lançam-se pela vastidão das clivagens solares dos horizontes das begónias, abraçadas às náiades-fontes*


Feiticeiras papoilas perseguem o odor das rubras rosas, a dormirem no vermelho -paixão que me repousa em páginas de caligrafias loiras, maceradas por sílabas nuviosas*


Um farol acorda mais cedo a espalhar luz no azul negro do mar, onde sonâmbulas pedras, impelidas pela força das marés, rebolam sobre as ondas lambidas de musgo e espuma e se deitam na bruma das gotas-a-naufragar*


Doirados ares do anoitecer recolhem na pressa do amanhecer, grávido das árvores-a-camuflar-polpas-a-amadurecer*


Melódico crepúsculo de saudáveis estrelas soa ao ouvido da soberania versátil dos rasgos de nuvens*



É Outono! Declina a tarde numa suavidade monocórdica de tons e de sons!


Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
(MERR)-
REG: CR/8/ (VDS)-SET/(3) /2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

BOM DIA, AMIGOS!


ARTIGO DO PROF. SANTANA CASTILHO

Através do blog http:// santanacastilho.blogspot.com


Privatizem também a nuvem que passa
no Público,
11 de Setembro de 2013


Privatizem também a nuvem que passa
Santana Castilho*

O ano-lectivo que agora se inicia está marcado, pobremente marcado: pelo afastamento da profissão de muitos e dedicados professores; pela redução, a régua e esquadro, sem critério, de funcionários indispensáveis; pela amputação autocrática da oferta educativa das escolas públicas, para benefício das privadas; pela generalização do chamado ensino vocacional, sem que se conheça qualquer avaliação da anterior experiência limitada a 13 escolas e agora estendida a 300, via verde de facilitismo (pode-se concluir o 3º ciclo num ano ou dois, em lugar dos três habituais) e modo expedito de limpar o sistema de repetentes problemáticos; pela imposição arbitrária de decisões conjunturais de quem não conhece a vida das escolas, de que as metas curriculares, a eliminação de disciplinas, o brutal aumento do número de alunos por turma e as alterações de programas são exemplos; pelo medo do poder sem controlo, que apaga ao dobrar de qualquer esquina contratos de décadas e compromissos de sempre; pela selva que tomou conta da convivência entre docentes; pelo utilitarismo e imediatismo que afastou a modelação do carácter e a formação cívica dos alunos; pela paranoia de tudo medir, registar e reportar, para cima, para baixo, para o lado, uma e outra vez, e cujo destino é o lixo, onde termina toda a burocracia sem sentido; pelo retrocesso inimaginável, a que só falta a recuperação do estrado e do crucifixo.

Providencialmente no tempo (imediatamente antes de se concretizar mais um despedimento colectivo de professores, que marca o ano-lectivo) vieram a público dados estatísticos oficiais. Primeiro disseram-nos que em 2011/2012 tivemos nos ensinos básico e secundário menos 13.000 alunos que no ano anterior. Depois, projectando o futuro, prepararam-nos para perdermos 40.000 até 2017. Providencialmente, no momento, omitiram que, de Janeiro de 2011 a Junho deste ano, desapareceram 47.000 horários docentes. Políticos sérios não insinuam que esta redução de docentes se deve à quebra da natalidade. Trapaceiros, sim.

Nada justifica a desumanidade com que se trataram os professores contratados. Nada justifica o ministerial sadismo de obrigar ao ritual do Fundo do Desemprego, por escassos dias, aqueles que acabarão por ser contratados. Nada justifica o anacronismo de impor um exame de selecção a quem já é professor há uma década e mais, ao mesmo tempo que se entrega a leccionação de disciplinas curriculares a quem nem sequer tem habilitação científica na área.

Na Educação acabaram as subtilezas e perdeu-se a vergonha. Se Fernando Negrão, juiz de carreira e deputado de circunstância, expressou vincado desacordo pelo ensino da Constituição nas escolas, se Passos Coelho clamou pela “União Nacional” e, raivoso com o quinto chumbo constitucional (que impediu o despedimento sem justa casa dos funcionários públicos e foi significativamente decidido por unanimidade) recorreu à boçalidade de linguagem para referir explicitamente os respectivos juízes e, implicitamente, o Presidente da República, por que razão seria Crato recatado e decente? Na mesma altura em que a falácia da “liberdade de escolha” foi o argumento para um passo determinante na privatização do ensino e para a ampliação sem peias das parcerias público-privadas na Educação, (outra coisa não são os contratos de associação já vigentes) o preclaro ministro cerceou a liberdade de escolha relativamente às escolas públicas, quando não autorizou o funcionamento de turmas constituídas em função das decisões dos alunos e das famílias. A engenharia social e económica que o Governo acaba de consumar com a aprovação do novo estatuto do ensino particular, a consumar-se com a regulamentação sucessiva que se espera, não se afastará daquela que protege as rendas escandalosas dos sectores energéticos, bancários, das rodovias e outros. Eis o Estado do futuro, o Estado escravo, cujo poder deixou de ser delimitado pela lei. Uma vez mais, a Constituição da República acaba de ser revista por decreto do Governo, que derrogou o carácter supletivo do ensino privado nela contido.

A agenda escondida com o objectivo de fora deste Governo é a substituição do Estado social possível, laboriosamente construído em 39 anos de democracia, por um Estado neoliberal, redutoramente classista. Para o conseguir, e a coberto do fantasma da falência, o Governo tem-se encarniçado em reduzir o Estado a funções mínimas de obediência aos titereiros do regime, privatizando o resto. Como fixou Saramago naquele belo naco de prosa que nos deixou desde Lanzarote, não escapará “a nuvem que passa” nem o sonho, “sobretudo se for diurno e de olhos abertos”. Pela mão de Passos e de Crato, abriu o assalto final à Educação. Não lhe declararam a privatização, como fizeram com a água. Mas, sorrateiramente, com melífluas justificações, querem consumá-la.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

   


Boa Noite, meus amigos(as)!


























Poema de José Régio(1901-1969)



SabedoriaDesde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'