
PERCURSO INTERIOR…
Reflicto sobre “as margens”do rio do meu viver.
Cheio de percalços e poucas venturas, o caminho traçado pelos deuses para eu executar, havia de ser-como foi !- duro…
REMEMORO…
Algumas das minhas realizações ajudaram a tornar mais claro o cenário em que me movimentei.Com coragem decidida por meu calor interior, qual barco de aço cortando os mares de gelo, fui vencendo etapas…Orgulho-me de nunca ter deixado cair os braços; antes pelo contrário, levantei-os sempre até aos ramos das árvores mais altas, para colher seus frutos. Alguns, apanhei-os…Outros caíram no chão, apodreceram e deram húmus para a TERRA rejuvenescer.
Lágrimas, desespero e falta de Esperança ladearam meus sorrisos, alegrias, ilusões…
VIVI “músicas” tremendas, no meio de desconfianças…As mais sonantes perduram no meu espírito e enriquecem momentos de exploração interior…Soam suaves, ao sabor das reflexões e dão vida …Vida…que é o maior desafio que o HOMEM tem de enfrentar, que é eterna peregrinação com mãos vazias, para poder atingir algo de novo…E quando se passa a vida a peregrinar…vê-se, de repente, que a vida se adiantou no TEMPO, QUE o caminho deve, apesar de tudo, seguir em frente…A vida, torna-se, então, uma aprendizagem contínua, a qualquer hora e em qualquer lugar, até ao fim do FIM.E também, apesar de tudo, sendo a vida um presente, por ele devemos estar gratos, tudo fazendo para que os olhos do coração a possam apreciar, dando-nos nota das suas apreciações…
Foi a vida que deu forças À PRÉMIO NOBEL BIRMANESA, AUUN SUU KY, mulher martirizada sem direitos e sem liberdade, por mais de 15 anos, ao longo dos quais perdeu marido e a felicidade de se sentir nos braços do amor, para esperar, serenamente, pelo dia da sua libertação. A VIDA dá forças aos povos martirizados por ditaduras ferozes, para a resistência diária…isto, porque ela é a maior VERDADE do HOMEM, a que ele deve ser fiel! Ela é, ainda, o projecto que temos o dever de ir alcançando, desde que vimos os primeiros raios de luz, ao nascer.
Vivi também “músicas “ desconcertantes que soam, cá dentro, com a força de um bofetão e lembram, por vezes, o tiro de canhão contra almas indefesas, esfomeadas, amarguradas pela desesperança, nas perspectivas futuras de um lampejo de sobrevivência.
Vem-me à memória a Redondilha onde CAMÕES desconcerta a vida, através do tema da justiça:
“Os bons vi sempre passar/no mundo graves tormentos;/
E, para mais me espantar, /os maus vi sempre nadar/em mar de contentamentos. /(…)
Hoje, mais contemplativa, pelo menos à moda de Camões, dou graças a Alguém que me tem forçado a encontrar um pouco da minha verdade. E, sinto-me uma Eternidade…sinto que perduro nas dores e alegrias, nas dúvidas e certezas…Cá dentro, vou encontrando, ora suave ora desalmadamente, um braseiro, onde se aquecem os deuses que tentam explicar-me o mundo…o meu e o dos outros…
Concilio-me, reconcilio-me…
Desisto de mim, quando o próximo depende do sorriso do meu olhar, da brancura do meu falar e da força do meu (escasso!) rezar. E lembro o que os Filósofos pensam e dizem sobre a VIDA…e farto-me de rir, pois eles, ao terem que viver, cumprindo o seu “percurso”, não pensam nem falam de outra coisa… vão vivendo…
Já nem falo dos EXISTENCIALISTAS!....
Mas, vejam MARCEL PROUST E JOYCE: este último, reduz a vida humana a um qualquer dia, de um qualquer homem…O primeiro, PROUST, dilata-a até acumular várias gerações!
Falava, ali atrás, do rezar…Eu sei REZAR! Sem palavras, embora…Levanto os olhos para o céu e ,no meu silêncio, o Pensamento encolhe-se perante a “GRANDEZA DESCONHECIDA”…Respiro o ar das montanhas e a maresia das ondas do MAR…Extasio-me com o chilrear das avezinhas que cumprem uma missão, dando a alegria à minha solidão. Sinto o Vento passar pelos meus cabelos e entrefechar meus olhos…Oiço o cantar misterioso do mundo que me rodeia…Esqueço as tristezas que me dá quem me chateia em absurdos jogos de palavras ,viradas para as tristezas , as estrelas cadentes, para a morte das gentes…
Imagino-me num cavalo mágico que me leve ao AMOR…É pedir muito, SENHOR?
Então, fujo de lagos paúlicos de aniquilamento interior…Com fervor na minha floresta- vida, afasto pedras e galhos… confio nos atalhos do meu EU, na caminhada pela VIDA…Alguns, magoam e resistem…Tantos enganos danados … MAS continuo…Eu sou assim: caio e levanto-me…crente, resistente, desconfiada e confiante…Paradoxal verdade?
O chão quente, de caruma coberto, não é um puro deserto! Vejo-o, sinto-o por baixo dos pés, toco-lhe colhendo ervas…filhas da floresta do meu desespero telúrico. Sinto a Vida a chamar-me nas vozes enganosas de algumas expectativas goradas…Repouso do cansaço, cansando-me…interrogando-me…
Guardo, tudo, depois, na prateleira da memória…
Sou o único obstáculo a MIM PRÓPRIA…Confio em Sonhos sem fim que estão a dar cabo de mim… O meu doce interior, leal, sincero, frontal, não está pronto para o mal que me fazem…
Pressinto a mentira na voz do cavalo alado…que relincha de dor, perante meu coração magoado…
Vacilo entre o muito que dou e o nada QUE RECEBO, EM TROCA.
Concluo que sou a minha Eternidade, minha culpa, meu desvario, minha rara alegria, quando esta eternidade permite .