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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Impressões literárias:obra de VERGÍLIO FERREIRA




FOTOS DO GOOGLE
Palavras do próprio Vergílio Ferreira (VF): “O grande sonho de todo o escritor - se o tiver! -será o de nunca encontrar o leitor “ideal”. Porque, se o encontrasse, a sua obra morreria aí! E é isso o que nenhum escritor pretende, pois cada leitor “recria”, digamos assim, a obra que lê. Todas as obras literárias são o que qualquer seu leitor dela vai “vendo”, o modo como a vai “recriando”, sem seguir qualquer intencionalidade do seu autor.”
Partindo desta afirmação do escritor em análise, penso ser esse o motivo por que as obras de escritores como Fernão Lopes (escritor cronista do século), Gil Vicente (dramaturgo dos séculos XV/XVI), Eça de Queirós e outros, se mantém vivas no espírito literário de quem as interpreta ou interpretou, num dado momento da vida.
VF, autor de obras como”Manhã Submersa”, “Aparição”,”Pensar”, escreveu ainda para revistas literárias como “COLÓQUIO LETRAS”,”CONTA CORRENTE”( aqui em forma de diário nos tomos I,II,III,IV e V), “EM NOME DA TERRA”, “CONTOS”, “NA TUA FACE” e tantas outras mais, que nem é necessário referi-las ,se os leitores estiverem interessados em conhecê-las, tal a variedade e complexidade das temáticas nelas tratadas. Nascido em Melo, Gouveia, estudou em Coimbra e foi Professor, nomeadamente em Évora.
Mesmo tratando temas difíceis, como “o saber não ocupa lugar”, não se perde nada ganhando conhecimentos, pelo que eu decidi aflorar essa obra, referindo-me à que melhor conheço, que é “APARIÇÃO”. Deste autor li também “Manhã Submersa”, que não me cativou por me lembrar do que foi a minha meninice, num colégio de freiras. De tudo o que possa dizer-vos de VF, fiquem com a certeza de que muito ainda ficará por dizer…É aí que eu quero aguçar o vosso apetite a respeito desta matéria! Voltei a ler VF, já Professora de Português, pois “Aparição”fazia parte do programa do 12º ano. Esta obra exigiu de mim um esforço tremendo de pesquisa e estudo, pois a temática é complexa mas linda, tendo a ver com a existência do Homem. Afinal, quem nunca se questionou sobre esta outra metade da Criação? “Quem sou eu?” De onde venho, para onde vou? O que é DEUS, quem é DEUS, onde está, como posso ou devo crer n’ELE?
A personagem principal de “Aparição”, o DR. Alberto Soares, perfeito “alter-ego” de VF, decide “levar” com ele todas estas questões, para as quais, como seguidor da doutrina filosófica, que é o Existencialismo, ele acha que já tem resposta. Em Évora, esquece-se de que aquela é uma sociedade fechada, quase labiríntica, pouco aberta a este tipo de problemas existenciais.
Personalidade perturbante e perturbada, o novo Professor esqueceu-se de que nem todos tinham os mesmos problemas que lhe advieram de leituras que fez de SARTRE, GABRIEL MARCEL, HEIDEGGER, KIRKGAARD e JASPERS, nomeadamente. Só que VF seguiu o Existencialismo de SARTRE, que era ateu! -e que diz e pensa que “Existencialismo é humanismo”! Para ele, Deus não pode existir e o homem está condenado a ser livre. Se assim fosse, a nossa existência seria o que dela quiséssemos fazer… A verdade é que a “Mensagem” não passou e até foi mal entendida por Carolino, seu aluno, que chegou à triste errada conclusão de que podia, ele próprio, ser um deus e dar ou tirar a vida aos outros, se lhe desse na real gana! O próprio VF, na sua linha de pensamento, diz:”Vim para perturbar, não trago comigo a paz, nem para mim, nem para os outros.”E, questionando a existência humana, afirma, na revista “Colóquio Letras Nº 90”:” de nascer Só para ter existido, valeu a pena existir. A maior recompensa da VIDA é ela própria… (…) Foi bom ter nascido. Foi bom não ter acabado ainda de nascer…”
E que grande verdade, leitores! Continuamos a nascer, crescendo, existindo…Só é triste, e com isso não nos conformamos, que um dia tenhamos que deixar de nascer, deixar de existir, para cumprir o mais escuro desígnio de DEUS, o qual, “tendo-nos feito à sua imagem e semelhança”, permite que desapareçamos, feitos em pó…ELE, que não tem princípio, meio ou fim…
No romance “APARIÇÃO”, editado antes de “CÂNTICO FINAL”, a personagem principal, Dr. Alberto Soares, transmite aos alunos a ideia de que ”Escreve para ser”, o que completa perfeitamente o próprio percurso da arte, como a entendia V.F:”O HOMEM É, sendo, existindo…” No que diz respeito à acção, esta decorre entre dois espaços anti téticos, ABEIRA interior e o ALENTEJO, Évora, mais precisamente. Montanhas cobertas de neve e batidas pelos ventos frios, onde se situa a casa da família SOARES e a sedenta planície alentejana, queimando num brasido de sol e de paixões.
É impossível não “ver” Florbela Espanca nas ruas da cidade e na planície em chamas, como tão bem a descreve a personagem principal… em chamas, mas coberta pelo “luar da morte” e “pelo odor dos largos ventos”. A loucura do primeiro contacto do homem consigo mesmo, a primeira indagação em torno do seu EU, teve-a Alberto em pequenino, em frente ao espelho quando, ao mirar-se, disse: ”E vi, vi com os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era!” (cap.VI) Aqui começou a Aparição, que, afinal, somos nós, perante nós próprios…Hoje, com defeitos, amanhã com virtudes… e acabamos, então, por ser, como afirmava SARTRE, em meados dos anos cinquenta do século passado,”O homem-é-um-ser-para-a-morte”. Ao desafiar DEUS, desde pequenino, ao abandoná-Lo, Alberto demonstra ter vontade de chegar à sabedoria total sobre si mesmo e sobre os outros. Por atitude semelhante, ”ADÃO e EVA” foram postos fora do paraíso terrestre, falando em segundo sentido É CLARO! Mas, infelizmente a sua dura mensagem teve consequências dramáticas: Carolino subverteu a mensagem, entendeu-a mal e acabou por matar uma galinha como quem solta uma gargalhada, porque se sentia DEUS, capaz de tirar a vida a quem quisesse: e provou-o quando, numa noite de tempestade, tentou matar o Professor na CASA DO ALTO e na noite rubra de S. João, assassinou Sofia Moura.
A Morte, como não podia deixar de ser num romance desta temática, é assunto frequente: morre o cão “Mondego”, morre o pai do Professor, morre Cristina Moura, uma criança- génio da música, morrem Sofia e o “Bailote”…No epílogo da obra, integrado no POSFÁCIO, encontramos Alberto Soares já velho, cansado das lutas existenciais, ciente de que, afinal, a liberdade não o podia salvar da “hora fatal”, à espera “de que alguém o chame para a última comunhão” … Assim, o homem VF, depois de uma vida sofrida a tentar fazer valer a ideia de que DEUS não existe, acaba por compreender e aceitar o inevitável: iremos, todos, quando Alguém nos chamar para a nossa última comunhão…

TEXTO PUBLICADO NOS "JORNAL DE MEALHADA" e "FRONTAL" de MORTÁGUA E PENACOVA-24/06/09

domingo, 31 de maio de 2009

TEIXEIRA DE PASCOAES


Afirma o próprio Teixeira de Pascoaes:” O génio da Língua é o dom especial que ela tem de traduzir o sentimento saudoso da Natureza animada e inanimada.” (in Arte de ser português”)


Este é um dos mais difíceis poetas portugueses; não vos escondo essa apreciação, mas como os amo a todos no espírito da Mensagem que me legaram, quero dar-vos um pouco dele, de modo simples e sem pretensões de intelectualidade…
A sua obra toca o SAUDOSISMO, o humanismo, a sensibilidade, o desdobramento da personalidade, uma certa atitude filosófica perante a existência, a Criação e o Panteísmo (crença em vários deuses ou divinização de certas entidades); mas Teixeira de Pascoaes demonstra, ainda, uma especial predilecção pela noite e pelo sonho, pela Saudade, sentimento tão português, provocado pelo afastamento, na distância…
Um exemplo de panteísmo podemos vê-lo no poema “Canção alegre”: “Eu te abençoo, alegria! / Alma e corpo da esperança!”onde a Alegria é endeusada pelo poeta que a abençoa, como sendo a raiz da vida.
No poema “A sombra do homem”, nota-se o humanismo, revelado pelas preocupações mais normais de qualquer ser humano: o sono, as trevas, o silêncio, o remorso, a exaltação, as interrogações do Ser …A certa altura, de tão preocupado, o poeta já se confunde com DEUS, com a NATUREZA, e afirma: Ó DEUS, tu és em mim, fragilidade;/ sombra que, por encanto, surge e passa…/ E nele, sou profunda Eternidade,/ Êxtase, Beatitude, Enlevo e Graça!/ Orar é a gente ver a DEUS em si/ E ver-se a gente em DEUS…”(…).
Mentor da revista literária “Renascença Portuguesa” a par de Jaime Cortesão e do filósofo Leonardo Coimbra, revista essa que, mais tarde, se aliou nos ideais, à segunda série da revista “Águia”, a ideia destes autores, eivados de Saudosismo, era a de dar sentido às energias intelectuais do povo português, no seu determinante e determinado caminho para a renovação do nosso país. No passado de Portugal, segundo o pensamento do poeta, estavam as fontes da nacionalidade que era preciso recuperar; por isso, a Saudade podia ser vista como “sangue espiritual” da raça portuguesa. E assim o afirma na revista “Águia”: “A Saudade é o próprio sangue espiritual da raça, o seu estigma divino, o seu perfil eterno. Claro que é a saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial (…) onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, terra e céu, engrandecem um povo…”(in Dimensão Literária- Português A-Porto Editora, pág. 150/162, ISBN 972-0-40055-2).
No poema “ Aos Lusíadas” encontra-se uma prova desse portuguesismo, desse amor extremo por Portugal, em:”Ó Deus da minha Pátria, olhai por ela”/ Dai à sua bandeira nova glória/ Pregai, nas suas dobras, uma estrela! / Ó templo dos Jerónimos…/Ó Deus de Ourique! /…regresse o Dom Sebastião do nosso ser!”
Nota-se já, em TEIXEIRA de PASCOAES, uma amostra do que foi a fragmentação do “EU” em Fernando Pessoa e que o conduziu à criação dos célebres heterónimos, nos princípios do século XX.Veja-se essa verdade, no poema “O HOMEM”, 2ª estrofe: “ Sinto na minha vida várias vidas! / Sinto bem minha alma dividir-se/ Em muitas almas íntimas…” (…)
Teixeira de Pascoaes amava, como temos vindo a ver, a sua terra, a sua região e descreve, em tons de mestre, esse amor, num conhecido poema que foca, particularmente, a região do MARÃO e a que o poeta deu o nome “MARÁNOS”; muitas editoras escrevem “MARÂNUS”; mas, porque a grafia correcta é a do autor, é essa que usarei, neste trabalho. Ao longo deste poema, que é enorme, Pascoaes retrata o carácter de genuinidade das gentes da serra, a sua riqueza cultural multifacetada, a sua antiguidade na modernidade. Sugestivo nas Imagens, como por exemplo ao tratar a Saudade como “VIRGEM MÃE“, este poema é mais uma prova de que o SAUDOSISMO, movimento poético, é uma espécie de “religião da Saudade”, vivida pelo poeta e seus seguidores, num verdadeiro clima de Idealismo. Saudade era para PASCOAES o modo como Duarte Nunes de Leão a definia em “Origens da Língua Portuguesa”, tal qual é dito no livro “PORTUGUÊS A-12º ANO, da TEXTO EDITORA, da autoria de Mª Leonor Carvalhão Buescu e Carlos Ceia:”SAUDADE É LEMBRANÇA DE ALGUMA COISA COM DESEJO DELA…”
Algumas passagens desse poema revelam um tom profético, mostrando a serra como verdadeiro coração de Portugal, onde se mantêm várias origens da nossa Língua bem como usos, costumes e tradições que marcaram a portugalidade: ”Marános, esse amante da montanha/ Ouvira aquela voz e interpretava…o nosso” mundo-criatura”…mundo criador e ser humano/ Um céu verde, de flores esmaltado/ …No infinito silêncio e na infinita Soledade…/ E tinha, assim/ consciência… de outra existência trágica e sem fim/ (…) E, entre ele e aquela mística paisagem, /A névoa da distância dissipou-se. / Ela estava integrada em seu espírito, / Seu espírito esparso através dela// (… )”.
A SAUDADE, sentimento nosso, genuíno, sem tradução em Língua alguma, é um tema recorrente na nossa Literatura. Basta pensarmos nas Cantigas trovadorescas… Mas o próprio rei D. Duarte, filho de D. João I, falava da “SUIDADE”, no seu livro “LEAL CONSELHEIRO”…E que dizer de António Nobre que escreveu “ SÓ”, o livro mais saudoso de PORTUGAL?
Deixo-vos, leitores, com um pensamento simples de JOHN Le CARRÉ, escritor britânico:”Uma secretária é um sítio perigoso para observar o mundo…
VAMOS ,UM DIA DESTES, À SERRA DO MARÃO?

SÓ AGORA REPAREI QUE NÂO DISSE QUE ESTE TEXTO FOI, HÁ CERCA DE 15 DIAS,publicado no "Jornal de Mealhada",do qual sou uma "graciosa"colaboradora.