sábado, 5 de novembro de 2016

De Fernando Dacosta sobre a poetisa Natália Correia, in leituras.eu



Sobre Natália Correia, in leituras.eu:

SOBRE NATÁLIA CORREIA:in Net
..."A actualidade do pensamento de Natália Correia é patente na crítica que faz ao neoliberalismo então nascente em Portugal. A propósito da pergunta sobre se a felicidade existe, diz: “Se acreditarmos que sim, existe, por isso não se deve destruir a crença das pessoas, como está a suceder em Portugal. Vai ser devastador porque não sabemos viver sem ela, o ultraliberalismo que aí vem será tão medonho para nós como foi a Inquisição” (p. 321). Noutro momento, afirma: “Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente”, defendendo de seguida que “como não se encontraram respostas racionais para os grandes problemas da humanidade, a pobreza, a doença, a solidão, a guerra, a injustiça, a desigualdade, as pessoas entraram em processo de negação da ciência, da cultura, da política…” (p. 156).
Natália Correia antecipa mesmo a análise de aspectos que se prendem com a crise actual na Europa. “A Europa será, dentro de escassos anos, dominada pelo quarto mundo, um mundo composto por três gigantescas maiorias de anatematizados: a dos idosos, a dos desempregados e a dos migrantes. A união delas constituirá o maior fenómeno sociológico, cultural, político, económico do século XXI”. Dacosta sintetiza: “As pressões que exercerão mudarão profundamente as estruturas de trabalho, lazer, produtividade, previdência, saúde, assistência, convívio, transporte, urbanismo; provocarão uma nova revolução (depois da grega, da industrial e da francesa) no Velho Continente. Os detentores dos poderes julgam que a vida se resolve com produtividade, com quantidade. O problema actual do homem não é, porém, esse: é o da desumanização, o do cansaço, o da falta de desejo, tanto a nível individual como colectivo. Passa-se fome por questões políticas, não técnicas, por problemas de distribuição, não de produção. Precisamos de inventar novas preguiças para criar novas sobrevivências” (pp. 224-225).
Natália Correia antecipa mesmo que “os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos” (p. 227). Para vaticinar, aqui citada por Dacosta: “”As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis”, ecoa, “miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, o Estado social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. A esperança média de vida cairá. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres”" (p. 244).
Já num registo menos denso, Dacosta lembra outro momento em que a capacidade de previsão política de Natália Correia é evidenciada. Apoiante de Jorge Sampaio, quando o então líder do PS se candidata à Câmara de Lisboa em 1989, a poeta desloca-se, debaixo de chuva, ao Comício na Praça de Touros do Campo Pequeno. E Dacosta relata: “Resfriados, estafados, regressámos ao Botequim. Tanto ritual popular, tanta inflamação democrática excediam-nos. Reconfortada por copo e meio de gasoil (uísque com cerveja, metade por metade), Natália antecipa: “Ao escutar o Jorge Sampaio esta tarde percebi que não era a presidência da Câmara, mas a da República, que o espera”" (pp. 34-35).
Natália era o contrapoder e como, no Verão de 1975, o PCP estava no poder, ela foi contra, com o excesso que ela tinha”, afirma Dacosta à Revista 2. E prossegue, referindo-se ao facto de o PS ter admitido e não concretizado o convite que lhe fez para ser eleita como independente nas listas socialistas, depois de a poeta ter sido deputada pelo PSD e pelo PRD. “O PS portou-se mal com ela. Ela aproximava-se dos partidos pela afectividade com os líderes. Foi assim com Sá Carneiro e com Eanes.”
A relação com Ramalho Eanes será profunda e para a vida. “Natália começou a apreciá-lo quando ele, destacado para a RTP, restituiu o programa Se Bem me Lembro a Vitorino Nemésio, que forças de esquerda haviam saneado sob a acusação de reaccionário. Forças essas que levariam o próprio Eanes a, tempos depois, bater com a porta na televisão” (p. 106). A partir dai, “Natália Correia será uma das vozes que mais empenhadamente estarão a seu lado – o que ele retribui com inigualável lealdade (p. 107).
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Por seu livre pensamento
Excessiva, exigente, generosa, veemente, destemida, polémica, afectiva, racional. É um retrato multifacetado de Natália Correia que Fernando Dacosta traça no Botequim da Liberdade, 20 anos depois da morte da poeta e deputada e no ano em que faria…
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